Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

12.6.09

Escarafunchando o Baú

 Foto by Laurinho Borges

Suplemento especial de aniversário! A província macaúbica faz anos e a editoria d’O Municipio convida este farsante escrevinhador para lavrar sobre algum local interessante da cidade. Por minha conta e risco, estendi as memórias para simbolismos crepusculares além de concretudes.

“São tantas as emoções, bicho!”, diria o cantante de Cachoeiro.

“Ô terrinha onde abundam ícones!”, corneteia o escriba parvo.

Com tantas referências em diversos escritos, o trabalho foi procurar no Baú, costurar e alinhavar.

 

Claro que a avenida mais hype (palavrinha da moda nas publicações modernetes) das bandas caipiras paulistas seria um bom mote. Sobre a gloriosa —e agora mais democrática— artéria desta urbe, achei no Baú:

Dona Gertrudes sempre foi portadora do germe da arrogância. Nos seus domínios, aristocráticos domínios, só eram bem recebidas as pessoas de posses. E por posses leia-se não só dinheiro, mas lastro de tradição. Os tempos são outros e a casta dos fidalgos já não mais tem cofres generosos. Sobrenome de peso anda meio sem fôlego na praça e gente nova vem dando as cartas, ou melhor, vem dando os cartões de crédito. Os nouveau-riches e um certo poder de compra da plebe trabalhadora estão por aí. Agarrada ao básico instinto de sobrevivência, Dona Gertrudes tem feito algumas concessões e, digamos, democratizando o seu pedaço. Mas não se iludam, ela só os acolhe por interesse. Ela só enxerga cifrões e a empáfia continua a mesma. Ela só quer o dinheiro deles para manter os seus dispendiosos hábitos. Dona Gertrudes, ontem, hoje e sempre, pode até ser uma hostess mais eclética, mas o tamanho do salto não diminui um milímetro.

Um outro achado bacana (palavrinha da moda nos cadernos culturais dos anos 70) no Baú foi o choro pelo venda do Expresso São João:

Qual habitante destes terrões da Beloca não sentia um orgulho quase patriótico ao cruzar com o Expressinho na Bandeirantes, Marginais e afins? Sempre brinquei com amigos que ao adentrar os ônibus do Expressinho, independente do local geográfico, estávamos em território sanjoanense e salvos pela imunidade dos congregados do Jaguari.

No compartimento refrigerado do Baú é claro que ainda tem algumas bolas do Häagen-Dazs mantiqueiro dos coquinhos gosmentos:

O sorvete de macaúba, guloseima-ícone da cidade, nascido das mãos hábeis e da cabeça criativa da dona Angelina lá na Dom Pedro II. Há mais de 20 anos dona Angelina vendeu a sorveteria com a receita mágica. Mas o nativo crepuscularys, amante do néctar gelado, único no planeta, ainda convida: “vamos lá na Dona Angelina tomar um sorvete de macaúba”. A longevidade do exótico sorvete leva o autor destas a achar que macaúba em forma de creme gelado é a panacéia para todos os males depressivos.

Se a alameda gertrudiana lá do início é hype, esta outra é vintage, é retrô no melhor sentido “agasalho confortável Adidas” da expressão. As referências a ela ocupam mais de meio Baú:

Encravada no coração da cidade, tem a extensão de dois quarteirões. Este pequeno espaço público que, pelo tamanho, não deveria ser mais que uma rua, recebe a patente de Avenida: Avenida Tereziano Vallim. O seu charme e a sua localização privilegiada justificam esta deferência na nomenclatura. Afinal, poucos logradouros públicos podem ser, ao mesmo tempo, centrais na localização e agradáveis no habitar. Na fazendinha do compadre Tereziano Vallim, ainda abençoado lugar, o sossego doméstico e as crianças brincando nas calçadas ficaram perdidos em algum ano da década de 80. Escritórios, clínicas, repartições. A frieza deste tipo de ocupação destrói o calor das comadrices entre as vizinhas. Quer coisa mais chata que pedir uma xícara de açúcar num escritório de arquitetura. Ou uma lata de óleo numa clínica odontológica. O sumiço dos lares, pouco a pouco, vai minando a resistência dos últimos heróis-moradores. A Maria Varzim anuncia em tipos garrafais um “vende-se” na sua fachada. Socorro!! A invasão marcha firme, alguns sucumbem, mas ainda tem uma pequena brigada organizada, valente, uma turma que vai segurar até o fim dos dias o estandarte lendário —e residencial— do compadre Tetê.

E, lá no fundo do Baú, no verso da foto que ilustra este texto, está gravado:

Tarde destas, minha mulher me chamou à varanda para contemplar um belíssimo pôr-do-sol. Larguei o meu jornal e fui meio a contragosto. Não me arrependi. Venerando àquele indescritível espetáculo da natureza senti um arrepio na alma e tive mais certeza do profundo amor que sinto por esta terra de crepúsculos tão estupidamente maravilhosos.

Em tempo: o cronista protocolou na ONU um pedido para que os crepúsculos desta Sanja sejam declarados patrimônio da humanidade.

 

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    15:40 — Arquivado em: Sem categoria

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