1.3.09
O banheiro
Temendo o apagão, a assessoria do prefeito marcou a cerimônia para o começo da tarde.
Estava todo mundo lá: prefeito, vice, juiz, bispo, autoridades, populares e toda sorte de aspones e puxa-sacos que adoram bajular o Poder. Chamaram até a banda municipal para animar o grande evento.
Que grande evento?? Ora, ora, incautos e desavisados, que mais poderia ser senão a inauguração do banheiro público na praça central da cidade.
O governador foi convidado, mas recusou o convite alegando uma indisposição estomacal. Ainda bem que o mal-estar foi esse, caso o desarranjo fosse intestinal seria bem possível que o convidassem para inaugurar, literalmente, a obra.
Na entrada dos sanitários armaram um palanque onde as autoridades se revezavam nos discursos.
O Juiz da segunda vara revirou as catacumbas do Direito para enaltecer as privadas do povo:
—Um banheiro, sim, um belo banheiro. Uma obra de arquitetura, sim, uma magnífica obra de arquitetura. Mas, povo aqui presente, isso é muito mais que um belo banheiro ou uma magnífica obra de arquitetura. Muito mais. Nesta praça foi edificado um ideal de justiça, um sonho de igualdade. Nestas latrinas não há discriminação. Nelas repousarão as nádegas do rico e do pobre, do branco e do preto, do católico e do crente, do gay e do hetero, do médico e do padeiro… Parabéns ao prefeito por sintetizar numa obra pública o que a humanidade busca desde priscas eras.
O bispo foi breve e profundo:
—Nós, sacerdotes, somos procurados pelos fiéis quando a alma e o espírito padecem. Entretanto, meus caros, por vezes é o corpo com suas contrações abdominais que clama por socorro. Nestas horas, queridos irmãos, só um bom banheiro para aliviar o suplício. Cumprimento o prefeito por atender aos anseios fisiológicos do seu povo.
Embarcando no populismo exacerbado que contaminou os oradores, o prefeito se empolgou:
—Numa época em que o mundo se preocupa somente com números, cifras, cálculos, estatísticas e tudo o que vem a reboque das ciências exatas, a minha administração foca o ser humano a as suas mais imprevisíveis manifestações biológicas. Queremos que o cidadão tenha um teto aconchegante onde, na hora do aperto, possa satisfazer as suas mais humanas necessidades. Quem aqui nunca se viu arrepiado buscando desesperadamente por um vaso límpido? Meus concidadãos, esta obra marca um divisor de águas na minha gestão. De hoje em diante, eu e minha equipe vamos administrar a cidade visando o completo bem-estar do munícipe. Usem e abusem do novo banheiro. Façam nele o que tiver que ser feito.
Após os calorosos aplausos ao discurso do alcaide, o mestre-de-cerimônias saiu do script e convocou o estado-maior sanjoanense:
—Neste momento ímpar na história desta cidade, quero convidar o senhor prefeito e seu vice para que inaugurem de verdade o banheiro, derramando seus fluídos corpóreos sobre a alva louça sanitária nele instalada.
Constrangidos, mas sem saída, prefeito e vice desceram abraçados a rampa que leva até o interior dos suntuosos aposentos sanitários.
Enquanto o establishment municipal fazia o pipi inaugural, a banda, encerrando a epopéia vespertina, tocava “Carruagens de Fogo.”
Em tempo: a referência ao apagão no parágrafo inaugural denuncia que a crônica foi desengavetada. Verdade. A lavra, republicada, é da primeira metade da primeira década deste século, quando esta Sanja crepuscular, governada pelo tucanato, ganhou o banheiro público inspirador de escribas pouco criativos. O texto, para deleite de alguns e ódio de poucos, está na Segunda Antologia da Academia de Letras de São João da Boa Vista, publicada em 2007.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
20:06 — Arquivado em: 
