Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

27.10.08

Magalhães - The Sanja Voice

No jornalismo televisivo contemporâneo não há mais espaço para aqueles somente dotados de boa voz e/ou dicção impecável. Apresentadores ledores de teleprompter e entrevistadores escravos do script são cada vez mais avis rara nos noticiários da telinha. Cid Moreira, Sérgio Chapelin, Ferreira Martins, entre outros, hoje dão lugar aos chamados âncoras. Willlians, Bonner e Waack, Ricardo Boechat, Carlos Nascimento, Boris Casoy, além de muitos, são exemplos mais notáveis destes apresentadores com lastro jornalístico. Para estes, apresentar o telejornal é somente uma das etapas do trabalho. Eles pautam, apuram, editam e, claro, apresentam.

Cá na província crepuscular, Antonio Luiz Magalhães, 37 anos, é uma espécie do segundo tipo. Seus admiráveis dotes vocais apenas externam com elegância o produto do nobre labor da busca da notícia. Seus predicados podem ser conferidos em Sanja e região pelos telespectadores da TV União, onde Magalhães edita e apresenta o “Jornal do Dia” e o “Região 2000”.

Noite destas, na coxia do Theatro Municipal, alinhavamos, e depois arrematamos por e-mail, o bate-papo que segue:

 Magalhães na entrevista que ele reputa a mais difícil  

Sanja quer saber dos seus primórdios profissionais.
Foi em 1988, na Rádio Piratininga. Um amigo procurava emprego e, como tinha boa voz, sugeri que procurasse alguma emissora de rádio e fizesse um teste. Deu certo e foi admitido pela Piratininga. Meses depois, ele cismou que eu também levava jeito pra coisa e convenceu o Oscar Castellan a me deixar fazer o que chamávamos de “piloto”, que consistia em gravar textos comerciais, notícias de jornal, notas de falecimento, etc. Passei na avaliação e estreei num programa noturno, aos sábados, chamado “Agito Total”. Depois fui apresentar o “Rotativa no Ar”, ao lado do Wanderlei Fleming, e um outro programa à tarde cujo nome era “São João é o Destaque”. Integrei a equipe de esportes da casa e tive a felicidade —e a sorte— de trabalhar com profissionais do quilate de Ailton Fonseca, Milton Mazzarini, Fábio Silveira, Peterson Marin e André Luís. Fiquei na Piratininga até 1993, de onde saí para trabalhar nas rádios Mirante e Jovem Pan, da família Pirajá. Também passei pelo rádio mineiro, quando militei nas equipes esportivas das Rádios Cultura e Difusora AM.

As macaúbas querem rir com o folclore dos estúdios.
São muitas as histórias de bastidores. Testemunhei um episódio hilário na Rádio Piratininga, durante o programa “Dez Discos para Milhões”, apresentado pelo inesquecível Jota Amaral. Ele havia convidado o recém-ordenado Bispo de São João, Dom Dadeus Grings, para uma entrevista. Na hora combinada, chegam Dom Dadeus e o então Cônego Luisinho (Padre Luisinho). Como Amaral tinha dificuldades em memorizar nomes, olhou para os dois sacerdotes parados na porta do estúdio e gritou lá da mesa: “Entra aí, ô fariseu!”. Uma outra história, também protagonizada pelo Jota, envolveu o autor de novelas Benedito Ruy Barbosa. Após conceder entrevista sobre o sucesso da novela Pantanal, exibida na extinta TV Manchete, Benedito agradeceu ao Amaral pelas mudas de ipê. Disse que ficariam muito bonitas na entrada de seu sítio, pois, sendo uma de cada cor —amarela, roxa e branca— dariam um toque todo especial. No que eu perguntei ao Jota se as mudas de ipê eram mesmo uma de cada cor, ele respondeu: “‘Bregojelo’, são todas amarelas, mas quando elas crescerem eu não estarei mais aqui”. Na rádio Mirante, o falecido repórter Carlos Augusto, deu a seguinte manchete no noticiário do meio-dia: “Começa em São João a Vacinação da Gripe contra os idosos”. A casa caiu.

 
O crepúsculo quer saber da sua aurora na telinha.
Estou na TV União desde 1994, quando ainda se chamava TV São João. Em 1996, o Paulo Falda assumiu a direção, a TV mudou de nome e ele me convidou para a área comercial. Em 1997, com a eleição do prefeito Laert, o Paulo teve a idéia de criar um programa para entrevistar os vereadores e decidiu que o nome seria “São João 2000”, até por conta da expectativa em relação ao ano 2000, a chegada de um novo século, essas coisas. O programa permaneceu e virou “Região 2000” em função de a TV ter expandido o sinal para outras cidades da região.

Dona Gertrudes quer saber das agruras, glórias e gafes na TV.
A entrevista mais difícil, sem dúvida, foi a que fiz com o governador José Serra, em 2005, na época pré-candidato ao governo do Estado. Ele veio com um entourage de assessores que permaneceu no estúdio o tempo todo. A entrevista foi tensa por isso. Bom, uma gafe que cometi, dentre tantas. Convidei a Vera Von Gossler, da União Sanjoanense de Proteção aos Animais (USPA) para falar a respeito de uma campanha da entidade. No final, ao agradecer, elogiei a USPA e disse que “os cavalos, as vacas e os cachorros” também o faziam. É lógico que esse trecho não foi ao ar. A entrevista que mais rendeu e repercutiu foi com o humorista Juca Chaves, em janeiro do ano passado.

Dona Beloca quer saber a sua opinião sobre panorama do jornalismo hoje com o advento da internet.
Não é exagero afirmar que o advento da internet, esse meio fantástico de comunicação, abalou as estruturas do jornalismo. Nunca tantos tiveram tanto poder de se comunicar livremente, sem a interferência e intermediação de quem quer que seja. Aí estão os blogs, os podcasts e outras ferramentas à disposição de qualquer pessoa que queira veicular uma mensagem na grande rede. Para simplificar, usarei a definição dada pelo jornalista Ricardo Kotscho para esse fenômeno: “Vivíamos até outro dia em um país com meia dúzia de formadores de opinião, desde sempre encastelados na imprensa de papel, quer dizer, em jornais e revistas. Para a direção que eles indicavam, o chamado povo deveria seguir, reproduzindo seus pensamentos, gostos, preferências e votos, automaticamente. Senhoras e senhores, devo informar que este tempo acabou. Opinião pública deixou de ser sinônimo de opinião publicada”. O desafio do jornalismo, dentro dessa perspectiva, é investir em conteúdos de qualidade produzidos especialmente para a internet.

A Mantiqueira quer saber se você acha importante o diploma de jornalista para o exercício da profissão.
É importante porque fornece base teórica sobre uma série de temas necessários à formação do jornalista. Na faculdade se aprende filosofia, economia, psicologia, legislação, ética, língua portuguesa e técnicas para o desenvolvimento do trabalho nas diferentes mídias. Há jornalistas consagrados que nunca freqüentaram faculdade, mas são exceções cada vez mais raras.

Joaquim José quer saber quais características devem estar no cesto de um bom jornalista.
O jornalista deve se lembrar de que é um instrumento da sociedade. Ser honesto quando apura e divulga uma informação, pois, o resultado poderá ter impacto e de alguma forma beneficiar ou prejudicar alguém ou a coletividade. Ter em mente que o veículo onde trabalha permanece, ele, jornalista, passa. Outra coisa: jornalista não é artista. Nosso trabalho é árduo.

Pagu quer saber o pôster de qual jornalista está colado no seu guarda-roupa.
Poderia citar vários que li: Fernando Moraes, Euclides da Cunha, Cláudio Abramo, Samuel Wainer, Truman Capote, Ricardo Kotscho, Mino Carta, etc. Mas o meu preferido é Ricardo Noblat, sobretudo pelo ótimo texto e também pela capacidade de se adaptar às novas mídias. Afinal, ele foi o primeiro jornalista brasileiro de renome a ter um blog.

Nota do blogueiro: Magalhães, em off the records, reafirma a sua tietagem pelo Noblat, mas declara que quem merece a porta do seu guarda-roupa são elas: a Carla Vilhena, a Rosana Jatobá e a Fabiana Scaranzi

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    20:57 — Arquivado em: Sem categoria

5 Comentários »

  1. Comentário por Marcelo Pirajá — 28.10.08 @ 11:43

    Meu sânjico escriba, além de excelente e bem-humorado cronista, você se revela aguçado repórter. Ótima essa entrevista com o conterrâneo apresentador. Agora, a pergunta que não quer calar: quando teremos novas crônicas? Um crepuscular abraço pra você.

  2. Comentário por Silvia Ferrante — 28.10.08 @ 12:41

    Além de parabenizá-lo pelo blog, gostei muito da homenagem que fez ao Magalhães, realmente ele é dos nossos grandes talentos.
    Meus aplausos para ele!

    Abraços

    SF

  3. Comentário por JS Januzelli — 28.10.08 @ 12:43

    Lauro,excelente dia!

    Parabéns pela iniciativa. De fato o Magalhães é merecedor desta homenagem e reconhecimento.É Sanja,com talento e competência, na telinha!

    Sucesso!

    Js.

  4. Comentário por Maria Célia Marcondes — 28.10.08 @ 12:44

    Lauro, parabéns pelo belo texto sobre Magalhães. Você foi muito feliz na maneira como o conduziu.
    Abraço
    MCélia

  5. Comentário por Neusa Menezes — 28.10.08 @ 18:27

    Oi Lauro,

    E não é que vc conseguiu fazer o Magalhães falar? Ele fala de tudo, menos sobre sua pessoa. Parabéns. A entrevista está ótima.

    bjs
    NeusaMenezes

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