31.7.08
Em defesa de Carlos Alberto Cardo
por Acácio Vaz de Lima Filho (O Municipio, 23/07/2008)
Matéria publicada por este jornal em sua edição de 19 de Julho do corrente, alusiva ao meu saudoso amigo Dr. Carlos Alberto Cardo e assinada pelo Sr. Lauro Augusto Bittencourt Borges, me fez refletir sobre a estranheza das coisas deste Mundo. O articulista pretendeu, diz ele, fazer uma homenagem ao meu querido amigo, mas o que conseguiu, sem sombra de dúvida, foi pisotear o jardim da sensibilidade alheia com patas de hipopótamo balofo!…
Com efeito, ao asseverar que o Dr. Carlos Alberto Cardo morreu "solitário e na maior pindaíba", o Sr. Lauro Borges ofende gravemente, em primeiro lugar, a memória do "de cujus", que foi um homem digno, e merecedor do afeto, do carinho e do respeito de todos os sanjoanenses. E, em segundo lugar, insinua que a Dra. Carolina Ferraz de Campos Cardo, filha do meu amigo, teria sido uma pessoa relapsa, que não ligava para o próprio pai!… ora, isto não corresponde à verdade. Carolina, que conheço desde pequena, é uma pessoa de caráter sólido e bem formado. Chorava de maneira sentida quando, por telefone, transmitiu para mim a infausta notícia da morte do seu genitor. Além disto, jamais negou qualquer assistência material, afetiva e moral ao pai, como malevolamente insinua a matéria. É interessante — e nada bonito — que o Sr. Lauro tenha passado por alto o dado de que a Dra. Elza Ferraz de Campos, ex-mulher do meu amigo, foi uma presença atuante, quando da sua morte…
O articulista jamais teve, em seu currículo escolar, a disciplina Direito Romano. Se a tivesse estudado, saberia que o que fez, ao escrever as sandices e inverdades publicadas por este jornal, corresponde à figura da "Damnatio Memoriae", em vernáculo, a condenação da memória de uma pessoa… e esta pessoa, repito e enfatizo, foi em vida, e continua a ser "post mortem", para mim e para todos os seus outros verdadeiros amigos, um homem digno de todo o respeito. Não consinto que o nome de Carlos Cardo seja misturado a devaneios de gosto mais do que duvidoso, que têm a presunção de ser "literários."
Carlos Alberto Cardo, meu dileto amigo, era neto de imigrantes italianos, nasceu e foi criado no bairro paulistano do Bom Retiro. A sua família era modesta, porém tratava-se de gente culta, na melhor tradição peninsular. O avô de Carlos integrava o coral do Theatro Municipal de São Paulo. Não conheci a sua mãe, Dona Guiomar, mas sei que se tratava de uma senhora de peregrinas virtudes. Era formada em Contabilidade. Tive o privilégio de conhecer o "Momi", o Sr. Jerônimo Cardo, pai do meu falecido amigo. "Momi" tinha sido um ourives de primeiríssima linha, e um desportista de mérito, além de massagista… como sei de tudo isto? Porque tenho o hábito salutar — que tomo a liberdade de receitar para o Sr. Lauro Borges — de me informar daquilo sobre que vou escrever, antes de afirmar as coisas em detrimento dos outros.
Carlos Alberto Cardo foi um futebolista dotado de grandes méritos, na sua juventude. Por pouco não se tornou um jogador profissional de futebol. Seu pai, "Momi", sabedor do talento esportivo do filho, deixou que ele próprio fizesse a escolha da carreira a seguir. E Carlos, tendo optado pela área de saúde, era biomédico diplomado pela UNESP – Universidade Estadual Paulista, Campus de Botucatu, coisa de que ele, de ordinário um homem modesto, muito se orgulhava. Como eu, ele deplorava a decadência do ensino superior, com a proliferação de "Faculdades" que mercadejam diplomas. Era competente ao extremo no seu setor, tendo organizado e administrado, por anos a fio, o Banco de Sangue da Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros. Se a má sorte, do ponto de vista profissional e financeiro, afetou o meu caríssimo amigo, nos últimos anos da sua existência, isto não o diminui aos olhos dos homens de bem. E não pode ser motivo de gracejos que se pretendem literários!…
Carlos Alberto Cardo cultivou e manteve, ao longo de toda a sua vida de profissional liberal formado em uma Universidade séria, inúmeros amigos, em São Paulo, onde nasceu e se criou, em Botucatu, onde estudou, e, por fim, em São João da Boa Vista, cidade em que viveu, em que trabalhou, e onde veio a falecer. Sou devedor da sua bondade e proclamo isto: —- Ele me emprestou, sem juros, o dinheiro com que comprei os móveis do meu primeiro escritório de advocacia em São João da Boa Vista, situado no "sobradinho" de Dona Nara Azevedo, na Rua Benjamin Constant. Advoguei para Carlos Cardo (sou advogado por formação, por opção e por atuação), e cheguei a morar em sua casa em São Paulo, na Rua Tenente Pena, enquanto cursava a Pós-Graduação no Largo de São Francisco. Convivi, lá, com gente séria, que prezava o valor da amizade e do respeito que deve ser tributado às pessoas: — Momi Cardo, Dr. Canton, Dr. Fábio, "Mimi"…
Mais umas poucas observações merece o artigo do Sr. Lauro Borges. A minha terra, a terra que Carlos Alberto Cardo, um paulistano, elegeu e amou, chama-se "São João da Boa Vista." "Sanja" é um plágio mal feito de "Sampa", nome que os inimigos da Capital Bandeirante dão à gloriosa São Paulo de Piratininga. Crônicas jornalísticas — ainda as mal feitas — não têm "audiência", e sim "leitores" ou "público." "Last, but not the least", o hotel dos meus honrados amigos Pradella, situado na Rua Saldanha Marinho, é "modesto", e jamais "pouco recomendável." "Pouco recomendável" é a falta de respeito para com os seres humanos — os vivos, e, principalmente, os mortos!….
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
23:37 — Arquivado em: 
