17.7.08
Carlão Cardo

Era um habitué nas reuniões festivas da Academia e, uns dias antes de morrer, me procurou no banco para trocar umas figurinhas literárias. Atarefado com a faina cotidiana que paga minhas gulodices, desculpei-me por não poder dar-lhe uma atenção maior naquela hora. Ele se despediu depois de pedir: “Abra seu e-mail amanhã que eu vou te enviar um naco da minha lavra. Leia e depois me fale o que achou”.
Li, gostei, mas não deu tempo do feedback elogioso. Carlão, que foi um precursor da boa gastronomia em Sanja —vide Vecchio Mommi Famiglia e o melhor rondelli quatro queijos da história, lá nos anos 80—, morreu logo depois, solitário e na maior pindaíba. Consta que ele viveu seus últimos dias num hotelzinho pouco recomendável na Saldanha Marinho.
Muito recomendável é a sua pena, uma mistura de humor e melancolia, que vou servindo em pílulas à minguada audiência deste canto de prosa.
Verborragias
O "achismo" é uma arte tão picareta quanto a dos "concertezistas". A necessidade quase patológica destes filósofos de galinheiro em nos brindar com frases fanfarrônicas e apologias ao absurdo é de tal monta ridícula e sem propósitos que concluiremos que as dependências dos manicômios poderiam estar mais repletas.
Isso sem contar quando o infeliz é adepto das duas escolas e sentencia solenemente a seguinte bobagem: "Eu acho que com certeza, com toda certeza, você será o vencedor do concurso".
É derrota na certa!!!
Solteirice
Ao redor de qualquer solteiro com mais de 55 anos, florescem muitas lendas a respeito das causas do seu celibato.
Alguns conjecturam que, sendo ele uma nulidade, sua solteirice estaria prestando um serviço aos não nascidos.
Outros falavam que aos trinta anos ele se apaixonou perdidamente por uma linda mulher que o trocou por outro. Tais histórias são quase sempre besteiras. A razão pela qual o solteiro com mais de 55 anos prefere continuar solteiro é muito simples: é que nenhuma mulher normalmente bonita e inteligente viu qualquer motivo para ficar com ele.
Malas
Não existe coisa mais chata do que aquelas pessoas que conversam com você tocando com as costas dos dedos indicador e médio em seu ombro a cada parágrafo de seu interminável cacarejar.
Via de regra, esse tipo de diálogo transforma-se em monólogo onde só o chato quer falar. Ele tem os casos mais inusitados, suas idéias é que são as certas, te fazem uma pergunta e imediatamente respondem-na.
Suas piadas são regularmente puídas e sem graça em que somente ele ri, não sem antes repetir, entre caras e bocas, o final da mesma pelo menos umas três vezes. E o pior: perguntando se você entendeu!
Se num descuido do matraqueiro você toma a palavra para expor sua opinião, imediatamente o ‘mala’ solta o bordão insuportável:
"Não querendo interromper, mas já interrompendo…"
O sinal de maior perigo é quando ele sentencia: "Você precisa ouvir a história da minha vida!!!"
Prepare seu estoque de anti-ácidos e calmantes. Existem outras opções: simule um desmaio ou simplesmente fuja.
Comunicação
Se as operadoras de telefonia móvel dependessem de mim para sua sobrevivência, estariam irremediavelmente falidas.
Não obstante meu aparelho ser provido de todos os avanços tecnológicos, não recebo uma ligação há mais de três meses.
Aliás, nestes últimos 365 dias, desde que o adquiri, devo ter recebido no máximo umas vinte ligações, e elas vêm minguando a cada dia.
Estou sumindo aos poucos…
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
22:53 — Arquivado em: 

Comentário por Vera Martins — 19.7.08 @ 3:22
fiquei triste mas tb ri com o que ele falou (o falecido) simule um desmaio quando o chato fica contando esta é a minha vida….mas ele era um solitário, inteligente,e, o que ele escreveu sobre a solteirice estava correto. tb a criatura humana faz opção por se solteiro ou solteira, é quando ela descobre que viver só é bom porque pode ouvir a música que quiser, em qual altura quiser,e, não tem nenhum chato ou chata junto prá falar - desliga isto ahi!
a liberdade não tem preço, a solidão é adorável e o silêncio é delicioso, vc só e o silêncio….
Comentário por Marcelo Pirajá — 19.7.08 @ 10:30
Salve, escriba.
Não conheci o finado mantiqueiro, mas parecia ter um estilo ácido, irônico e melancólico - como você bem observou. Vale a homenagem, ainda que póstuma. Abraços!
Comentário por Sergio Meirelles — 19.7.08 @ 21:53
Lauro, sou orgulhoso por ter apresentado o Carlão à Academia por três vezes e, por tares vezes ter assistido a humilhante e preconceituosa votação. Afinal, ele era apenas um boêmio apaixonado, libertário de palavras contundentes, que teve coragem até lhe cortarem as pernas. Era especialista em sangue, com currÃculo invejável. Só um cozinheiro. Ainda bem que deixou algumas crônicas publicadas no Edição Extra, a meu pedido. Agora Inês é morta. Já se foi mais um bom companheiro e sinto falta dos de copo e de bar. Sem os holofotes a vida é mais solidária, mais rica, mais interessante. Aparentemente mais penosa. Mesmo que seja num “hotelzinho pouco recomendável”. Saudações com as homenagens de estilo. Sérgio Meirelles
Comentário por Carlos A. Zerbetto — 24.7.08 @ 18:36
Lauro
Entendi a homenagm ao teu/nosso amigo Carlão Cardo. Não vi, em momento algum, qualquer desrespeito à filha, à familia ou à sua memória.
Por favor, prossiga e persevere em tuas “pretenções pseudo-literárias”, pois tem muita gente nesta “Sanja” que aprecia.
Minha solidariedade, completa e incondicional.
Abraços
Carlos A. Zerbetto