12.6.08
Ruminâncias

Tarde destas, o escriba flanava estilosamente pela Ademar de Barros quando, na esquina com a Floriano Peixoto, viu uma vaca traçando um punhado de feno. A performance do bichinho ruminante atraía centenas de populares à vitrine do Lojão.
Marqueteiro tem cada uma!!!
Testemunha de inúmeras esquisitices, posso garantir que mimosa nas paragens da Ademar é acontecimento nada corriqueiro.
Rajada no couro e gulosa, ela devorava a farta gramínea seca indiferente ao espanto dos transeuntes. Me suicidando com coxinha e Fanta Uva no boteco da frente, estava nas alturas por assistir de camarote o bovídeo comendo no coração da urbe.
Durante todo o tempo da refeição-suicídio (a minha, não a da vaca), que durou uns 15 minutos, não fui o único vivente a achar que vaca na vitrine, numa das esquinas mais movimentadas desta Sanja, merecia atenção. A multidão estava em êxtase. Gritinhos ardidos aclamavam o apetite do vacum. Comunidades bovinas no Orkut foram conjecturadas por alguns colegiais e teve até um garotinho que pediu pra mãe comprar feno: “Ela come com tanto gosto, deu até vontade”. Confesso que o moleque não foi o único a padecer de insólito desejo gastronômico.
Tímido e sem mãe por perto, fiquei só na vontade e não pedi nada pra ninguém. Ou melhor, pedi. Pedi outra coxinha pra espantar a assombração da gula excêntrica. O celular tocou e voltei para o trabalho certo de ter presenciado uma das cenas mais colossais da história humana. Sei não, mas acho que as vitrines da Ademar nunca mais vão ser as mesmas.
E não é que no domingo passado, caminhando sob os espigões do JJ Park, encontrei novamente a vaca. Ela pastava calmamente nos gramados da praça e, vez ou outra, se hidratava no espelho d’água aos pés da estátua do Joaquim José.
Lenda urbana ou Cow Parade nos moldes macaúbicos? Talvez mestre Duña responda.
Impressionado pela onipresença da vaquinha, demorei mais de três horas para completar uma volta na praça.
Volto pra casa e o Galvão conta que o polonês Robert Kubica venceu o GP do Canadá. Deu 70 voltas em menos de duas horas. Sei não, mas acho que o bonachão do Kubica não é muito dado a observar vacas.
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Leozinho e Dalva
(republicação para quem se esqueceu do Dia dos Namorados)
—Benhê, esse ano precisamos comemorar… você já pensou no que nós vamos fazer pra celebrar a data?
—Hã?!… data?! Ah, claro… não acredito que você tá lembrando. Como a gente vibrou quatorze anos atrás com o tetra da Seleção. Lembra?! Assistimos aos jogos lá no rancho do Mirtinho, fritando peixe, tomando cerveja e delirando com os gols do Romário. Época boa! Você tá certa, precisamos comemorar… vou ligar pro Mirtinho e ver se a gente consegue reunir de novo a turma.
—Que tetra, que Mirtinho, que turma, que Romário… tá doido… essa época eu quero é esquecer… você, o mala do Mirtinho e aquela patota de bebuns… vocês passaram um mês de fogo vendo o Romário botar pra dentro, mas na alcova que é bom, nada. A bola nem chegava perto da grande área. Leopoldo Augusto (quando ela fica brava, o suave Leozinho vira um contundente Leopoldo Augusto), trata de puxar a memória e lembrar a data importante que nós vamos comemorar esse ano.
Murmurando pra não ferir suscetibilidades, Leozinho tentou, sim, ele tentou, não digam que ele não tentou:
—Seriam os 19 anos sem o Muro de Berlim? Ou os 70 anos bem vividos da tia Cotinha? Ou os 14 anos do Plano Real? Ou…
—Não fala mais nada seu estrupício desmemoriado… você me ataca os nervos… este ano nós vamos fazer 15 anos de casados.
—Noooossa! Verdade, querida… mil perdões… como eu pude esquecer. Dá um beijo aqui, môzinho (Chuac! Sim, esse é o som do beijo estalado). Vamos pensar numa coisa bem bacana.
Derretida com as desculpas beijoqueiras de Leozinho, ela sugeriu:
—Sabe, benhê, pensei numa coisa bem romântica, tipo uma viagem de navio, sem as crianças, só nós dois.
—Sei não… viagem de navio?! (faz careta de reprovação)… melhor não, eu passo mal com o balanço do navio… vomito até as tripas.
—Também podemos ir pra Serra Gaúcha, a Lú e o Carlos Eduardo foram e adoraram. Pensa, mô, nós dois grudadinhos, naquele friozinho. Ai delícia!!
—Frio?! Tá doida… Você vê quando vamos à Poços, é eu chegar na Cascata que o nariz começa a escorrer, a tosse ataca e as juntas doem. Odeio frio.
—E o Rio, mô? 40 graus de sensualidade, natureza exuberante.
—É, tá bom, 40 milhões de tiros e arrastões horripilantes. Nem morto!
—Tá bom, reclamão… o que você sugere?
—Pensei em comemorar com os amigos. Juntar a turma no rancho do Mirtinho pra um churrasco e, à tardinha, a gente larga eles lá, pára no Crepúsculo e deixa a jurupoca pular.
—Eu não devo estar ouvindo bem (dá uma vigorosa cutucada nos ouvidos), é isso mesmo que você está propondo pra comemorar nossos 15 anos de casados? Churrasco com turma, no covil do Mirtinho e ainda quer encerrar a palhaçada com jurupoca pulando em motel de quinta? Ora, Leopoldo Augusto, faça-me o favor…
—Oh, Dalvinha, nossos amigos, uma costelinha macia e o gran finale em cama redonda entre paredes espelhadas. O que mais você pode querer?
—Nada, eu não quero nada, Leopoldo Augusto, põe o lixo pra fora, veste o pijama e vem dormir que amanhã é segunda e a gente tem que pular cedo.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
23:50 — Arquivado em: 
