16.5.08
Operárias da distração horizontal

História de uma época em que o pão era arduamente ganho com medições e projetos. Um tempo de trabalho com o saudoso amigo Bernardino. Fase de grana curta, mas de inesquecíveis tardes botequeiras e boas e engraçadas lembranças.
Gozador incorrigível, Dino emposta a voz pra dizer que a míngua no bolso vai ter alívio momentâneo. Dona Maria Emília Pinheiro da Costa está com o imóvel irregular e precisa regularizar a situação na Prefeitura. O nome pomposo da contratante me fez ver uns cifrõezinhos extras. Trena e prancheta na mão, lá fomos nós atrás de diminuir o rombo no cheque especial.
—Dino, onde a dona Maria Emília mora?
—Não enche o saco, chegando lá você vê.
Cheguei e vi. Um bar. Não. Menos que um bar. Um boteco rampeiro, escuro, ornado com mobília puída, onde Amado Batista e congêneres reinavam nos alto-falantes de um ordinário rádio-gravador.
Sobre o chão encardido, engradados de cerveja dividiam o exíguo espaço com moças que exerciam o nobre ofício de aquietar instintos masculinos prementes. O cheiro das coxinhas na estufa se misturava com o perfume doce das quengas. O instinto masculino precisaria ser muito, mas muito premente para encarar qualquer uma delas. Mínis, coloridas e agarradas, saias e blusas revelavam “boterinhas” desleixadas. Cabelos ensebados e batons mal aplicados realçavam ainda mais o desmazelo daquelas operárias da distração horizontal.
Mistério revelado. Dino cochicha que dona Maria Emília Pinheiro da Costa atende por um codinome que virou lenda no underground macaúbico: Monalisa. O projetista apalermado estava ganhando —verticalmente, diga-se— uns caraminguás no famigerado Bar da Monalisa.
Medidas tiradas (a casa irregular ficava nos fundos do covil), desenhos executados e processo montado, convidei a Monalisa para assinar o papelório na minha casa. Depois que a Belina barulhenta arrancou de volta, minha mulher interrogou:
—Quem é a figura?
Caprichei na pronúncia e devolvi:
—Dona Maria Emília Pinheiro da Costa. Ela é promoter.
—Promoter de quê?
—De uma casa de encontros recreativos que tem a finalidade de sossegar desejos masculinos aflitivos.
—Sei, sei… belo eufemismo para a velha zona!
Em tempo: Nome e apelido da personagem principal são fictícios. Dispenso a ira de quem quer esquecer o passado, respeito eventuais descendentes que possam se sentir ofendidos e não quero gastar meus parcos recursos com brigas em tribunais.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
14:22 — Arquivado em: 

Comentário por Marcelo Pirajá — 17.5.08 @ 8:41
Hilário episódio, escriba. “Boterinhas desleixadas” foi demais. Você pode ter resistido à s quengas, mas à s coxinhas - fossem de frango ou de gato - sei que se rendeu! abs
Comentário por José Ricardo Noronha — 18.5.08 @ 19:00
“Operárias da distração horizontal”: quá, quá, quá, quá!!!