Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

1.5.08

Na aldeia alterosa

O mercúrio baixa uns pontinhos e a gentarada crepuscular corre atrás de indumentárias mais densas pra esperar o inverno vindouro. Uns, mais abonados, se abastecem em shoppings campineiros e no eixo esbanjador Jardins-Iguatemi-Daslu. Outros, insignificantes para o PIB macaúbico, se contentam com as malhas das bordas sul-mineiras. O circuito Jacutinga-Monte Sião faz a alegria destes sacoleiros caipiras menos afortunados.
Desnecessário dizer que este cronista e seu clã abrem modestamente as carteiras com a turba dos minguados.
Como peças “made in Jacutinga” de julhos passados ainda habitam meu guarda-roupa, decido que é hora de mudança. E a variante possível para bolsos mendicantes é comprar na outra aldeia alterosa dos trajes de frio: Monte Sião.
Querer rodar por menos chão leva o muquirana pelos atalhos poeirentos e esburacados da velha rota de estradas terrosas. Enquanto o Aécio papa modelos e socialites nos salões bem freqüentados de BH, seus periféricos domínios são interligados por trilhas hediondas.
Não fossem as roupas de tricot, produzidas e vendidas em todos os cantos, a pequena localidade não teria nenhum atrativo blockbuster.
Ávido pelos tostões bandeirantes, a tradicional família mineira fez algumas concessões aos novos tempos e praticamente todas as lojinhas aceitam os plásticos Visa e Master. O atendimento é simpático, mas bem pouco flexível. Com um sorriso sincero, as vendedoras despejam negativas e mais negativas sobre quem tenta pechinchar ou negociar um parcelamento mais dilatado.
Testemunhei lá uma cena tão cômica quanto inacreditável. Olhando minha cunhada experimentar uma blusa e se atrapalhar com um simples zíper enroscado, meu irmão soltou em tom sabichão: “Gostou? Pode comprar que lá em casa eu lhe ensino a usar!”. Atônita, a atendente deve ter pensado que ele é redator de manual de instruções para os prosaicos dispositivos de fechamento que a crônica de antanho chamava de “feche éclair”.
Em tempo: se não quiser ver cara de interrogação nos comerciantes nativos, jamais peça um pulôver. Eles não têm a mínima idéia do que seja a palavra cantada desde priscas eras —e que eu aprendi com a vó Fiuca— para designar um suéter sem mangas. Peça um colete e você será soterrado por zilhões de cores e modelos.

Corujices
Aviso: o cronista pede aos incomodados com crises de corujice explícita que parem a leitura por aqui. Se quiserem continuar, assumam a conta e o risco, pois o escriba não se responsabiliza por dissabores decorrentes de carências mal curadas.
Para os que não desembarcaram no parágrafo acima, segue a procissão: da Escandinávia, meu rebento escreveu a seguinte notinha:

“Chegou a minha vez de entrar para os anais da história do esqui norueguês. Uma competição organizada por um grupo de senhores, a maioria aposentados, desde 1948, foi a minha chance de deixar o amadorismo e entrar de vez no seleto clube dos profissionais. Tudo bem que não foi uma competição muito séria, apenas 2 km, em que todos podiam participar sem restrições de idade ou sexo. Mas, mesmo assim, eu completei a prova e recebi um diploma para comprovar a façanha. E, ainda, para finalizar dei uma entrevista no pódio. Todos queriam saber sobre ‘o brasileiro que veio participar da sexagésima e última Gullhaugrennet’! Última porque o clube dos aposentados não tem mais dinheiro e disposição para organizar as corridas, e, sem membros jovens na associação, fica difícil dar continuidade ao projeto. O prêmio por mim escolhido entre inúmeras bugigangas doadas pelos competidores foi uma miniatura de trem que era quase (eu disse quase) a coisa mais parecida com um prêmio entre as opções.”

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    22:53 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por Marcelo Pirajá — 2.5.08 @ 12:30

    Delícia de crônica sul-mineira, bem ao estilo do Augusto macaúbico.
    Inclua-me o escriba no rol dos mal-aquinhoados que perpetuam o bucólico circuito das malhas e sua economia informal.
    O circuito Daslu que vá pra aquela rima que lhe cai sob medida…

    Parabéns ao Laurinho pelo feito. Bravo!

  2. Comentário por José Ricardo Noronha — 2.5.08 @ 13:13

    Excelente texto, onde você apenas se esqueceu de dizer que as incursões na Mantiqueira atrás das boas compras de inverno trazem consigo as delicioas lembranças dos tempos de criança, onde íamos até lá com nossos pais em busca das mesmas pechinchas que hoje como marmanjos continuamos atrás.
    Abraços,
    José Ricardo Noronha

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