Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

2.4.08

Neno Quessa

Na cearense Juazeiro do Norte vive Seu Lunga, um comerciante que já apareceu até na Globo por conta da sua “doçura”. O homem, reza a lenda, não pestaneja em distribuir coices aos incautos inquiridores ingênuos.
Cá nas paragens crepusculares temos Neno Quessa, a versão macaúbica daquele nordestino mal-humorado que não tolera perguntas idiotas.
Histórias foram ouvidas nos cafés e nas esquinas desta Sanja, internéticas gags foram achadas no Google. Muito folclore em torno da figura. As situações que já estão na boca do povo recebem novos temperos do cronista.
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Depois de um fim de semana permeado por abusos etílicos, Neno, esborrachado no sofá, resolve aliviar o fígado e manda a empregada lhe servir um copo de leite.
A coitada arrisca:
—No copo, seu Neno?
—Não, sua besta. Despeja no chão e traz empurrando com o rodo.

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Na quitanda da Yoko, Neno compra uma dúzia de ovos. A japa, querendo ser simpática, pergunta:
—Vai ter omelete hoje, Neno?
—Nada. Isso é traque de salão.
Sorriso calhorda nos lábios, Neno sai da quitanda jogando um a um os ovos pela calçada.

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Neno bota o totó da esposa na coleira e leva o bichinho pra fazer suas necessidades na Praça da Bandeira.
O Paulinho Cassiano passa, pára e tenta tirar um sarro:
—Cachorrinho de madame, Neno?
—Não, é meu passarinho.
E levanta o pobre poodle pela coleira e começa a rodá-lo no ar.

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Antes de se entregar à cervejada, Neno baixa no bar do Tchelinho pra forrar o estômago com um caldo de mocotó. Tião Zanetti, desavisado, tenta puxar papo:
—Tomando uma sopinha, Neno?
Neno esvazia o prato sobre si, começa a se esfregar e devolve:
—Não, tô tomando banho.

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Ele passa na padaria da Dona Elza e chega a casa carregando um latão com quinze litros de leite. A esposa, assustada com a quantidade, exclama:
—Neno!!! Todo esse leite pra gente beber?!
—Não. É pra lavar a calçada. Traz logo a vassoura, mulher.
Não é preciso dizer que ele derramou todo o leite no chão.

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Assustado com os roedores na sua loja, Neno corre pro empório do Camarguinho. Esbaforido, pede rápido:
—Camargo, tem veneno pra rato?
—Tem, Neno. Vai levar?
Quicou na frente, ele manda pra longe:
—Não. Vou trazer os ratos pra comer aqui.

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Neno precisa faturar uns trocos e vende umas fotos antigas para o Leivinha. Cheque na mão, ele entra no Bradesco. A moça do caixa pede e leva de bate-pronto:
—Vai levar em dinheiro, seu Neno?
—Não. Pode ser tudo em clipes e elásticos, mesmo.

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Neno vai ao prédio do Changai visitar um amigo. No térreo, um inocente o alcança no elevador e educadamente pergunta:
—Sobe?
—Não. Se você não sabe, esse elevador anda de lado.

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Puto da vida depois de brigar com os filhos, Neno vai relaxar no pesqueiro do Rubens. Vara na mão e isca no anzol, ele contempla o lago. O Jair Morgabel, vozeirão grave, chega espantando o cardume e lhe dando nos nervos:
—Tá pescando, Neno?
—Não, seu xarope, só estou ensinando a minhoca a nadar.
Inconveniente, Jair não se emenda e insiste:
—Mas aqui dá peixe?
—Não. Aqui dá quati, tatu, tamanduá…, peixe costuma dar lá no mato.

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Precisando dar uns agrados à esposa, Neno a leva no Catarelli pra um chopinho de fim de tarde. Solícito, o garçom faz as honras da casa e interpela:
—Mesa pra dois?
—Não. Mesa pra quatro. Duas cadeiras são pra colocar os pés.

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Telhado velho faz com que as águas de março pinguem na cama do Neno. Furioso, ele sobe em cima da casa pra ajeitar as telhas.
O cunhado Jair Rosa vê a cena e cutuca:
—Acabando com as goteiras, Neno?
—Não. Tô fazendo goteiras novas.
Responde rápido e começa quebrar as telhas.

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Sábado de manhã, lépido e cheio de vigor, Neno flana pela Dona Gertrudes. O Carlinhos Molles cruza com ele e acena com um cumprimento informal:
—E aí, Neno, bão?
—Bão nada, não tá vendo que eu tô internado.

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Nota do cronista: Folclores e verdades de lado, a zanga do Neno Quessa é mais estética do que conceitual. Ele faz bem o tipo ranzinza intolerante, mas no fundo é só um grande galhofeiro.

 

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    16:06 — Arquivado em: Sem categoria

3 Comentários »

  1. Comentário por Marcelo Pirajá — 6.4.08 @ 17:59

    É Neno Quessa pra prefeito e Duña pra vice. Quero ver que segura essa dupla! abs

  2. Comentário por Sonia Quintaneiro — 12.4.08 @ 12:29

    Lauro,hoje pude comparecer ao seu blog.Só alguém com sua criatividade para fazer-nos rir de um cara tão tão como o Neno.Mau-humor é doença!! abraço da Sônia.(

  3. Comentário por Vera Martins — 20.8.08 @ 2:08

    Nunca ri tanto ao ler sobre o Neno e ver as cenas que foram contadas…ri tanto tanto tanto porque é claro conheço o Neno desde os tempos imemoriais e ele já tinha este humor, prá mim este humor, tipo machadiano, tb é sinal de inteligência. Que bacana ler sobre o Neno e ahi me lembro da minha querida Celina Rosa, que saudadona heheheheheheheheheheeheh
    amei! Vera Martins de Sampa

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