
O famoso P-40 Warhawk
Com um sobrenome desse ele poderia só flanar pelos elegantes salões da cidade. Mas ele queria mais. Queria mais altura que as montanhas da Mantiqueira.
No escritório da confortável residência, localizada no centro da cidade, junto com a simpática esposa Tereza Ribeiro de Oliveira —Dona Tê—, Christiano Osório de Oliveira Netto —o Tiano—, um crepuscular de família tradicionalíssima, me recebe para contar histórias de um decantado passado.
Ainda molecote, pelas mãos do instrutor do aeroclube local, Sebastião Carvalho —que fora motorista da sua tia Dona Beloca—, Tiano voou pela primeira vez nos ares da região. Os passeios aéreos com o espirituoso aviador fizeram com que o flerte com os céus virasse paixão.
No início dos anos 40 do século passado, engajado na Aeronáutica e servindo no paulistano Campo de Marte, ele começava a realizar o devaneio adolescente. Já no primeiro ano do preparatório de piloto, Tiano pode conduzir solando o pequenino Sterman, uma aeronave para calouros. O sanjoanense conta uma peculiaridade da sua admissão: “O médico da Base só aprovou o meu ingresso na carreira militar depois que operei de uma hérnia”.
Da Paulicéia desvairada para o pampa gaúcho. Com indisfarçável orgulho, ele me mostra a espada recebida às margens do Guaíba, que lhe conferiu o posto de aspirante a oficial e a formatura como piloto de caça da Força Aérea Brasileira. Da solenidade marcante em Porto Alegre, Tiano deixa escapar uma ponta de mágoa: “Fui o único formando que não teve ninguém da família presente. Nem minha namorada foi”.
Dona Tê, atenta ao papo, justifica: “Naquele tempo eu morava em Catanduva e nós namorávamos por correspondência. Era uma época em que moça nenhuma viajava sozinha”. Ela conclui, resignada: “Ninguém da família quis me levar”.
Nos exercícios de guerra no firmamento do Rio Grande do Sul, o jovem militar já “brincava” com o avião que foi um bombardeiro clássico na 2ª Guerra Mundial: o N.A. (cognome de North-American). Seguro no manche, ele manobrava dando rasantes no litoral: “Era pra fazer barulho e assustar submarinos”.
Em 1945, baseado na unidade de Santa Cruz no Rio de Janeiro, casou-se com a amada, numa cerimônia quase secreta em Aparecida. O comando aeronáutico não via com bons olhos o casamento de integrantes de esquadrilhas de caça. Dona Tê lembra que não eram só os superiores do quartel que não queriam as núpcias: “Os parentes não desejavam uma viúva na família, falavam para esperar o fim da guerra. Jovens e apaixonados, não ouvimos ninguém. Sabe o que é gostar, né?”
Sei, Dona Tê, e como sei!!
No período fluminense, ajudou a escrever um capítulo antológico da aviação militar brasileira. Tiano e mais trinta e dois pilotos do chamado 2° Grupo de Caça, bem preparados, corajosos e com o natural êxtase da juventude, ofereceram-se para uma missão no Pacífico, onde combateriam as forças japonesas. Salgado Filho, então ministro da Aeronáutica, ficou sensibilizado com o gesto de galhardia do grupo dos 33. E prometeu: “Se o presidente decidir enviar a FAB para combater no Pacífico, vocês serão os primeiros”.
O destemor do grupo, que voava nos intrépidos P-40 Warhawk, entrou para a memória do país depois de retratado na célebre revista “O Cruzeiro”, em reportagem assinada pelos consagrados jornalistas Jean Manzon e David Nasser. O Brasil conheceu a história na edição de 7 de julho de 1945, na matéria intitulada “Os ‘33’ do Pacífico”.
O fim do conflito mundial, meses depois, frustrou a ida dos “33” para o teatro de operações no Pacífico, mas Tiano não demonstra tristeza: “Ficamos felizes com o término da guerra”.
No ano seguinte, 1946, o tenente-aviador Christiano pediu baixa da caserna e foi para Pirassununga tocar a propriedade agrícola da família. Tempos depois, brincadeira do destino, o governo desapropriou uma área vizinha às suas terras para construir a hoje conhecida Base Aérea daquela cidade.
Entre fotografias, recortes de jornais e relatos orgulhosos das proezas dos netos e bisnetos, Tiano, 86 bem vividos, relembra uma recente visita à Base de Pirassununga. Depois de questionado pelo Brigadeiro de plantão se teria algum objeto para doar ao memorial da FAB, ele sapecou com espírito de galhofa: “Tem eu!”

Clique aqui e leia a reportagem de Jean Manzon e David Nasser