7.2.08
Carimbo fajuto

Nadia Comaneci assombrava o mundo com o mais espetacular desempenho de uma ginasta em todos os tempos. O ano era 1976 e a atleta romena, então com 14 anos, teve como palco da glória os Jogos Olímpicos de Montreal, no gelado Canadá.
Cá nos trópicos, no mesmo ano, um jovem de vinte e poucos carnavais, cheio de ideais, assumia o comando de uma sedutora província encravada no pé da Mantiqueira.
Político de rara sensibilidade social e acurada visão administrativa, o menino prefeito quebrou alguns dogmas da velha oligarquia dominante e botou a cidade nos trilhos da modernidade no último quarto do século vinte. E o fez de uma maneira muito elegante, na base da civilizada persuasão retórica, sem bruscas rupturas nem traumas. Os bons modos e a suavidade no trato sempre foram algumas de suas marcas, mas isso nunca significou tibieza de convicções. Muito ao contrário.
E os ecos da boa gestão se espalharam pela vizinhança. Sob a insígnia do saudoso e aguerrido MDB, encerrou o belo mandato municipal em 1982 sendo catapultado pelas urnas a uma cadeira no parlamento bandeirante. Licenciou-se da Assembléia para servir como Secretário Estadual de Agricultura e Abastecimento. E, de novo, serviu com apego ao interesse público.
Em 1986, a região mais crepuscular do planeta novamente o mandou para a tribuna do Palácio Nove de Julho. O velho MDB passara a ter um P na frente e começava a ser carcomido por turbas pouco recomendáveis. O virtuoso montorismo perdia espaço para o libertino quercismo. Os oito anos seguintes (86-94) deixaram um triste legado ao povo paulista: obras suspeitas, práticas espúrias, polícia truculenta e mais um punhado de obscenidades.
Soldado do partido, ele aceitou novamente uma missão extra-parlamento e ocupou com inequívoca probidade a direção da carteira agrícola do então maior banco estadual do país. Participar de decisões colegiadas de crédito era uma das atribuições do cargo de diretoria.
Hoje, depois de acachapante votação, governa mais uma vez a terrinha que o projetou. Administra a cidade e alguns percalços com a Justiça por conta de algumas concessões deliberadas em comitês de crédito.
Percalços injustos, mais políticos do que técnicos, decorrentes de um carimbo individual fajuto. Aqueles indecorosos oito anos (86-94) são, sim, de deplorável e nauseabunda lembrança. Rótulos desgraçados são justos para identificar o período. No atacado.
A Justiça, no entanto, não deveria se deixar contaminar por perigosa ideologização. No varejo, pessoas retas, com notória ojeriza a malversação do erário, não podem ser individualmente punidas para demonstrar repulsa a uma época.
Sentei e chorei
Um mago disse por aí que, às margens de um certo rio, sentou e chorou. Ignoro os motivos do lamento, mas tenho firme crença na justeza das lágrimas.
Justas também foram as minhas na segunda-feira de Carnaval. Depois de um périplo gastronômico-cultural pela Sampa mais que desvairada, decidi, antes de retornar para as macaúbas, seguir o conselho do Washington Olivetto e cair na Freguesia do Ó para comer a melhor coxinha do mundo.
No largo Nossa Senhora do Ó, esmurrei a porta de ferro, amaldiçoei os donos e caí no pranto inconsolável dos glutões não saciados: o Frangó estava fechado.
visite o boteco:
Quarentena
O escriba é grato aos incautos que sentiram a falta da sua tosca pena nas prosas macaúbicas.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
22:37 — Arquivado em: 

Comentário por José Ricardo Noronha — 8.2.08 @ 8:33
Grande Lauro,
De fato, já estávamos com saudade das suas deliciosas crônicas. Fiquei triste pelo amigo por não ter conhecido a tão famosa coxinha do Frangó (que também não conheço).
Mais um motivo para agendarmos logo o nosso final de semana aqui em São Paulo para assistirmos ao nosso Tricolor querido e também nos esbaldarmos na fantástica culinária desta Paulicéia desvairada.
Vou para NY nesta 4a feira e retorno no final do mês, quando vou te ligar.
Um grande abraço and welcome back!
José Ricardo
Comentário por Marcelo RecreatÃvico Sguassábia — 9.2.08 @ 10:45
AlvÃssaras! Ei-lo de volta, o grande escriba do condado macaúbico, após quarentena mais gélida que a Noruega do little Lauro…
Que alegria lê-lo de novo, meu amigo. Reestréia em grande estilo, no blog e tb - espero - na edição de hoje do Municipio, ao lado deste infame garatújico. Um grande abraço!