20.12.07
O triste fim de Fri

Chamado às pressas, o técnico a examinou em alguns minutos, reuniu a família e comunicou em tom fúnebre:
—Nada mais a fazer. Não dá mais conserto. O modelo é muito antigo e já não há mais peças de reposição. Comprem uma nova que essa já deu o que tinha que dar.
Comoção geral. O casal abraçou-se em condolências recíprocas. A filha soluçava em prantos. O rapaz fez cara de choro, sentiu o baque, mas não verteu uma lágrima.
O técnico recolheu seu ferramental e saiu num silêncio respeitoso.
Branca, robusta, revestida com sólida lataria, Fri jazia no meio da cozinha. A casca intacta não refletia a avaria irreversível em sua máquina. Era o fim de três décadas de ininterruptos sopros gélidos refrescando bebidas e conservando alimentos. Mais que isso: a velha Frigidaire alimentou crianças, abasteceu celebrações, aliviou calores, testemunhou solidária e silenciosamente dietas transgredidas e paladares inconfessáveis.
Nos últimos anos, já fora de linha, suas moléstias quase terminais eram curadas, via gambiarras, com o auxílio de sucateiros.
Nada serenava a filha:
—Pai, o que vai ser da Fri agora? Ferro-velho, não, por favor! Dói na alma imaginá-la ao relento, num pátio infecto, sendo corroída na companhia de velharias. Não! Quantos Danoninhos, quantos Yakults, quanto amor, quanta compreensão…
—Podemos transformá-la num armário, filha. Também devo muito a ela e não vou permitir uma putrefação ferruginosa. Não! Nos anos 80 minha patota de boteco só bebia Skol e Brahma, e eu era execrado por preferir Malt 90… lembram-se da Malt 90?! Pois é, só a Fri entendia meus gostos. E que gostos! Só a Fri soube das minhas miscelâneas culinárias exóticas: mortadela com leite condensado, goiabada com farofa… ai delícia! Ela sempre foi discreta e nunca denunciou meu paladar diferente.
A mulher, também, teceu confetes emocionados à velha Fri:
—‘Dr. Atkins’, ‘Beverly Hills’, ‘Sol e Lua’, o escambau. Copiava minhas amigas, escravas da ditadura estética, e vivia aderindo às dietas da moda. Odiava! Fri era solidária nas minhas tentações da madrugada. Generosa, nunca me negou doce-de-leite. Cúmplice, jamais revelou minha tara por vaca-preta. Compreensiva, testemunhava em silêncio a minha gula por quindins. Descanse em paz, Fri!
O rapaz, ainda sem lágrimas, filosofou:
—Num mundo consumista, onde a tecnologia urge e grandes lojas vendem tudo em 24 vezes, qualquer mané pode comprar uma Brastemp duplex com Internet, GPS, som estéreo e entrada pra CD. Novíssima, linda e oca. Sem história. Gelada em todos os sentidos. O dinheiro compra quase tudo, quase…
(Texto republicado)
De praxe
Aos leitores que durante o ano suportaram o proseado tacanho deste espaço, os votos de praxe, clichês e sinceros: Feliz Natal e um 2008 repleto de realizações.
E é época de lembrança de uma das mais belas narrativas da História. Aquela que fala da imensa noite na Judéia, do silêncio que faz adormecer os pastores no deserto, do menino que nasce numa manjedoura…
Pausa
Um necessário interregno, salutar para o escriba e leitores. Com a benção da editoria, engaveto a pena por algumas semanas e, se não acharem ninguém melhor até lá, volto a lavrar em fevereiro do ano que vem. Até!
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
22:49 — Arquivado em: 

Comentário por Marcelo Pirajá — 21.12.07 @ 16:36
Lindo texto!
Só você mesmo, macaúbico escriba, pra lavrar uma crônica calorosa como esta tendo como inspiração uma geladeira - ainda que enguiçada. Honra ao mérito frigidérico!
Agora me diz uma coisa: que história é essa de recesso crônico? Me explica direito isso!
Abraços e um Natal com todas as luzes do crepúsculo pra você, pra Josi e pro escandinávico Laurinho.
Marcelo, sânjico desterrado.