8.11.07
Mundo perdido

Atrás dos sonhos, ele tenta juntar o necessário pé-de-meia assando discos napolitanos numa pizzaria em Rhode Island. Ele até gosta do trabalho, mas, paulistano ôrra meu!, abomina aqueles molhos atomatados muito doces, ketchúpicos, horrendos, hereges, apavorantes. [A repetição de adjetivos pode significar que o cronista deseja dar intensidade dramática à narrativa. Não. No caso, é recurso pra falta de inspiração mesmo, pura lingüiça enchida pra anabolizar o número caracteres.]
Incorrigível saudoso da sua província [para o saudoso a metrópole da saudade é sempre província e explicação também enche uma boa lingüiça] natal, ele bate um fio pra botar as novidades em dia.
O interlocutor é o amigo Abraão, que iria com ele atrás das verdinhas da América rica, mas, glutão de todas as horas, teve o visto negado por chegar ao consulado comendo um quibe tamanho Itu. Os gringos acharam aquilo uma afronta.
—Brão, saudade das nossas paradas, meu brother! Daquelas rodas de pagode na Vila Brasilândia. Dos churrascos na casa da Silvinha. Da cervejinha com torresmo no boteco do Amadeu.
—Falou e disse, mano. Também curtia muito as nossas baladas. Mas a coisa mudou muito por aqui.
—Mudou?! Mudou o que?! Quem mudou?! Pra onde?! Fala, véio.
—O Orlandão fechou o “Batuque Satânico” pra vender dogão lá no bairro dos bacana. Ele enche os pão com salsicha ali perto do Iguatemi. Coisa fina, trabalha de avental branco e tudo. Tá tirando uns três pau e meio por mês.
—Num brinca, véio! O Orlandão tinha o pagode no sangue. Lá na zona norte ele era o rei da noite. Deixar esse reinado e a galera sem diversão pra enfiar salsicha nos ricaços. Fala sério, véio! Nós conhecemos a turma da Silvinha no “Batuque”, lembra?
—E num ia lembrar! E por falar na Silvinha…
—Não me diga que aquela gostosura engordou?
—Ainda não. Mas logo ela fica prenha e incha. A Silvinha se casou, véio. Lembra daqueles chilenos da Freguesia? Tinha um deles, que trabalhava pros japas e chegava no “Batuque” com gel no cabelo e botando banca de mauricinho…
—Claro que me lembro dele. Ulisses, o entojadinho em pessoa. Num brinca, véio, não me diz que a Silvinha se casou com ele.
—Digo, véio, digo… ele traçou a mina com uns papos de vida pacata no interior, crianças brincando na rua, casa com varanda… esses lances aí que dão sono só de pensar.
—Num brinca, véio! A Silvinha era mais agitada que mão de adolescente no banheiro, e foi logo se mandar para o lado dos caipiras. E ainda foi juntar as escovas de dente com aquele presunçoso do Ulisses.
—O Jorjão foi lá dia desses e voltou horrorizado. Disse que a Silvinha tá irreconhecível. Aquele monumento, que abusava dos jeans agarrados e barriguinha à mostra, abriu a porta com um lenço na cabeça e uma colher de pau na mão. O Jorjão, quando contou a história pra turma, chorava de soluçar.
—E não é pra menos… mas vamos falar de coisa boa: o Amadeu continua fazendo o melhor torresmo do Tucuruvi?
—Nada, véio. O Amadeu virou bandeira. Ele entrou pra uma seita natureba e agora só fala em hábitos saudáveis de vida. O boteco ele não fechou, mas a coisa lá tá uma viadagem só. Pra petiscar só tem tofu, cenoura e rabanete. Sem sal. E pra beber?! Pedi uma gelada e ele me veio com uma gororoba de berinjela com tangerina, aveia e mel. Joguei o copo no chão e mandei o Amadeu pra’quele lugar.
—O mundo tá perdido, Brão… os tamborins do “Batuque” silenciaram; a beldade do Jaçanã vai se encher de celulite no interior; o Amadeu virou baluarte do rabanete… o mundo tá perdido, Brão… vou me juntar com uma gringa e ficar por aqui.
—E vai abandonar pra sempre as redondas do Carmelo do Bixiga? Ele tá bem caído, mas ainda não abandonou a arte de assar e rechear uma redonda. Ele agora faz as pizzas com bordas de Catupiry.
—Nããããão!! O Carmelo, aquele calabrês carcamano, sucumbiu às bordas de Catupiry?! Definitivamente, Brão, o mundo está perdido.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
23:15 — Arquivado em: 
