25.10.07
Sanja off Mantiqueira

Pulou da cama antes do sol. Chacoalhou o amigo que vai ser seu parceiro no ‘serviço’ e foi tomar café na padoca do Orlando, às portas da Santa Casa. O pai já está na padaria, bêbado, pedindo dinheiro pra mais uns goles, pedindo pra cair pelas sarjetas. Ele ignora o pinguço do seu sangue, toma seu pingado, come seu pão e sai pra ‘garimpar’ um bom produto no centro.
Se o ‘garimpo’ vingar, a família se livra por alguns meses do inferno de privações. O menino terá o seu danone. A mulher terá o seu xampu.
Quando o moleque chora por um iogurte, ele toma coragem pra ‘garimpar’. Quando ele acarinha o cabelo duro da patroa, se arranja pra comprar um Colorama.
Na praça dos bancos, local de alguns rendosos ‘garimpos’, o BATOM [Batalhão de Ações Táticas Opressoras Mantiqueiras], em sua clássica pose truculenta, sinaliza para um ‘trabalho’ em outras freguesias. Ele, que já tomou muito pau do BATOM, se suja de medo com a simples visão daquelas fardas verde-bandeira.
O parceiro dá a dica alternativa: ali na Tereziano tem um pedaço que só dá bacana. O PIB crepuscular apara suas madeixas no requinte do JM e depois se delicia com as iguarias da dona Salma. No pedaço dos bacanas pululam carrões importados e relógios de grife.
As madames, enquanto são tesouradas e massageadas, fofocam sobre o último fim-de-semana em Maresias e/ou sobre as novidades fashion do circuito Chiquita-Usky.
Ele estaciona a velha motoca em frente à igrejinha de Nossa Senhora da Aparecida, faz o sinal da cruz e sai para a ‘missão’. Atento, procura o alvo. Se o ‘garimpo’ falhar e o BATOM agir, não terá homenagem póstuma no Segundo Caderno em texto-epitáfio do poeta imortal Clóvis Vieira. Será apenas mais um desgraçado na coluna policial.
Leu nos textos de um cronista alienado que esta Sanja crepuscular é abençoada pela geografia exuberante e pela qualidade de vida dos seus habitantes. Abençoada? Abençoada o escambau! Quem come crepúsculos?! Vai morar nos cafundós da periferia pra ver a benção do Coisa Ruim. Mal come e ainda tem que ler o babaca escrever sobre delícias macaúbicas.
Desde sempre viveu nos grotões de pobreza. Vizinhava com a miséria, mas nunca se sentiu um miserável. Não sentia, mas era. Um infeliz desafortunado.
Saindo do Spaço, um vacilão de cabelos arrepiados, camiseta da Puma e óculos roxos. No pulso, o supra-sumo da ostentação: um Orient 1978 de mostrador vermelho.
O bicho ia pegar, o Orient ali na maior bandeira. Afligia-se com a indagação: como alguém pode ver as horas numa maquininha que dá pra comprar vários barracos no seu boqueirão paupérrimo? Conheceu tantos que ralaram tanto. Uma vida de sofrimentos pra nada. Ninguém nunca no seu grotão teve um Orient 1978 de mostrador vermelho.
Não desistiria do ‘garimpo’. Estava resolvido e a decisão era irrenunciável. O figurinha não perderia a baby-look afrescalhada da Puma, mas o Orient 1978 de mostrador vermelho já era. Chegou, encarou, ameaçou, amedrontou e levou. Levou o relógio e R$ 50,00.
Deu a grana pro parceiro e voltou pra sua quebrada. O pai estava desacordado na sarjeta. A esposa continuava com o cabelo maltratado e o moleque ainda chorava por um danone.
O ambiente era desolador. Ao contrário do mostrador vermelhão que reluzia no pulso daquele desdentado.
(Durvalino Antonio Mourão, 31 anos, vulgo Mano do Recanto, é escritor e trouxe o movimento rap para estas plagas. Escreveu o thriller policial “Navalhada no DER” e finaliza o conto erótico “Lascívia e Devassidão no Pedregulho”. Ele abomina Greg Belokis e se diz feliz e realizado no underground. Muita luz, diz ele, é coisa de boiola.)
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
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