Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

17.10.07

Cadê o BATOM?

“Greg Belokis, o agitador cultural de Sanja, foi brutalmente assassinado”. Manchete em todos os pasquins destas bandas mantiqueiras. E eu, algumas páginas atrás neste O MUNICIPIO, provavelmente na página policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma neste mesmo Segundo Caderno, em texto-epitáfio do poeta imortal Clóvis Vieira.
Não veria a inauguração do Terminal Urbano. Deixaria inacabado o Museu da Macaúba. Não comeria na praça de alimentação do shopping do Sílvio Michelazzo. Não testemunharia a inclusão dos irmãos Soufer na lista dos bilionários da revista Forbes. Não assistiria a entrada desta Sanja no rol dos destinos turísticos mais procurados do planeta. Não aplaudiria a performance do John Travolta, em pessoa, na pista embalada da Chattanooga 2008. Não veria a consagração do Leandro Gulin como fotógrafo das beldades despudoradas que desfilam na Avenida Durval Nicolau.
Por quê? Por causa de um relógio. Um reles Orient 1978 de mostrador vermelho.
Como crepuscular de algumas posses, tenho até pena dos desgraçados montados naquelas bikes, usando capacetes retrôs do Chips e uma espingardinha cheia de balas.
Provavelmente não conheceram a Dona Angelina nem experimentaram o sorvete lendário. E muito menos sentiram a mão pesada da mestra Vera Gomes.
Agora, como homo crepuscularys, fico iracundo. Sou um cidadão em dia com minhas obrigações. E, como resultado, depois do cafezinho no pós-almoço do Spaço, em vez de balas de caramelo e do sorriso da dona Salma, quase recebo balas de chumbo no cocoruto.
Adoro Sanja, amo a Tereziano. É a cidade que eu chamo de minha. Não nasci aqui, mas defendo esta cidade. Mas a situação está ficando insustentável.
Onde está a polícia? Onde está o BATOM [Batalhão de Ações Táticas Opressoras Mantiqueiras]? Chamem o cabo Moino! Chamem o sargento Macena! É premente a busca de soluções para a segurança pública. Dona Gertrudes está se borrando de medo.
Confesso que já tive um Corcel blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Além do que, o carro era ruim e feio. Não queria assumir que estávamos vivendo em Aguaí. Errei na mosca. Aguaí melhorou muito. Até o Tião Biazzo voltou. E nós? Bem, nós estamos chafurdados num medonho creme de jiló e não vejo perspectiva de redenção com um creme de macaúba perfumada.
Rabisco estas linhas não para manifestar a revolta de alguém que perdeu o Orient 1978 de mostrador vermelho, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida para o engrandecimento das artes locais. Ajudei a tirar muitos artistas da “tribo do Jaguari” do underground.
De um lado, a pujança dos espigões do JJ Park, do Perpétuo e dos bairros da chamada Mantiqueira. Mas, do outro, privações santoantônicas, durvalinas e primaveris.
Estou à procura de um super-herói. Pensei que poderia ser o Mestre Duña, mas, no blog do Marcelo Sguassábia, descobri que uma patologia causada pela dilatação algumas recônditas veias varicosas o impedem de salvar a pátria gertrudiana.
Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser sanjoanense, um brasileiro humilhado por uma espingardinha mequetrefe e um homem que correu o risco de não ver o John Travolta na Chattanooga 2008 por causa de um relógio Orient 1978 de mostrador vermelho.

(Greg Belokis, grego da ilha de Crepusculassos, está radicado em Sanja há mais de trinta anos. É artista multimídia e seu trabalho mais destacado foi a antologia “Folia no Paintbrush”, realizado em parceria com o webdesigner espanhol Javier Macaubez)

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:01 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Comentário por Marcelo Pirajá, nomeado procurador do Duña — 18.10.07 @ 11:53

    Engano seu, escriba. O ser duñesco encontra-se, sim, em repouso, porém totalmente restabelecido da citada moléstia que o acometeu. O repouso se dá sobre uma cama de pregos, num 6 estrelas da faixa de gaza, onde goza merecidas férias pós-convalescença. Porém, tão logo retorne às plagas mantiqueiras, não hesitará em brandir seu cajado redentor contra o despotismo batonístico.

    Assinado,

    Marcelo, em nome de Duña, temporariamente exilado.

  2. Comentário por José Ricardo Noronha — 18.10.07 @ 18:48

    Mais uma belíssima e super divertida lavra do mestre das letras macaúbicas Mr. Belokis.

    Parabéns Lauro! Quer dizer … parabéns Greg!!!

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