Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

11.10.07

Inaugurações

Pronto-Socorro
O esboço de escrevinhador, titular deste blog, foi enviado para cobrir a inauguração do novíssimo Pronto-Socorro Municipal.
Como o talento é nenhum, recolho-me em minhas insuficiências e limito-me às transcrições de nacos dos discursos protocolares, tão praxe nestes tipos de efemérides.

 
Sacras palavras foram proferidas pelo Bispo diocesano:
—Somos nós, clérigos de boa vontade, que acudimos almas e espíritos lesionados. Todavia, caríssimos irmãos, há toda uma sorte de contusões em que as profanas carnes carecem de mais do que louvores e invocações divinas. Nestes críticos momentos, o alívio vem em forma de gazes, merthiolate, analgésicos e ataduras, quiçá até de um providencial gesso reparador das tão terríveis fraturas ósseas. Congratulo-me com o alcaide por remediar com bela obra as moléstias de seu povo.

O Juiz de Direito argüiu com uma curta e bela peça de retórica:
—Denúncias sórdidas vêm machucando a Justiça deste país. Um denuncismo exacerbado vem ferindo de morte a credibilidade dos nossos tribunais. Curativos institucionais existem e, logo, recomporão a cútis ralada do Poder Judiciário brasileiro. Neste belo edifício público o curativo é mais prosaico, mas igualmente importante. Salve, salve, senhor Prefeito, cicatrizada será a população sanjoanense e cicatrizados serão os profundos cortes que ora afligem os magistrados deste Brasil varonil de céu da cor anil. Rimou, né?

 
Descerrada a placa inaugural, o Prefeito, orgulhoso e com os olhos marejados, teceu emocionado discurso aos presentes:
—Já disse, redisse e tredisse, mas não me fatigo em repetir aos quatro cantos: a minha administração foca o bem-estar do ser humano. Prevenir é melhor, mas nem sempre possível. Se remediar for necessário, ossos rompidos serão colados, incisões serão costuradas, feridas serão curadas, cascatas de sangue serão contidas e todas as formas de dor serão incansavelmente combatidas. Cidadãos desta Sanja de belos e majestosos crepúsculos, o meu ardoroso desejo é que todos tenham preservada a sua integridade física. Não obstante, se precisarem de uma bandagem asséptica e outros derivativos remediáveis, procurem e terão amparo neste Centro Médico de Auxílio Rápido a Acidentados e Congêneres. Nossa, plagiei o Simão e tucanei o Pronto-Socorro! Muito obrigado a todos.

 
Findos os rapapés cerimoniais, Prefeito, Vice e outras autoridades receberam curativos simbólicos de estonteantes enfermeiras louras. A banda municipal, afinadíssima, executava o flash-back do Queen: “We are the Champions”.

Aeroporto
Um “céu de brigadeiro”. O tempo naquela manhã de domingo estava perfeito para a ocasião. Nenhum algodão branco manchando o lindo azul celeste.
Depois de alguns meses e muitos milhões de dólares, o Aeroporto Municipal seria finalmente inaugurado.
O PIB macaúbico compareceu em peso. Tinha Sibin voador, Bruscato com hélice, Rehder com turbinas, irmãos Souza-Soufer adornados por asas e pintura na fuselagem. Num cálculo bem modesto, 95% de toda a gaita circulante na cidade deu o ar da graça na nova jóia da coroa do reinado tucano.
A assessoria da Prefeitura cochilou e não conseguiu agendar o fantástico show da Esquadrilha da Fumaça. O povo teve que se contentar com as piruetas do Tuim em seu teco-teco acrobático. Não tava ruim, mas, honestamente, qualquer coisa comparada com a destreza dos aviadores da FAB parece chinfrim.
Em festa de província que se preze, além das autoridades de praxe, toda espécie de lambedor e papagaio de pirata se faz presente. Na inauguração em questão, não foi diferente. Aspones e puxa-sacos desfilavam atrás da comitiva do Poder.
O prefeito, numa soberba indisfarçável, observava tudo através das lentes escuras de um óculos italiano. Comentários maldosos diziam que o alcaide se achava o próprio Tom Cruise nas gravações de “Top Gun”. Ao seu lado, o vice Plínio, mais acessível, era só sorrisos e tapinhas nas costas, vestido a caráter num bonito macacão de piloto. Todo mundo achou meio cafona a vestimenta do “number two”, mas Plínio estava tão radiante que ninguém ousou nada além de rapapés e elogios.

Dom David, o bispo diocesano, abençoou as instalações e a pista, tecendo, depois, rápidas palavras aos presentes:
—Irmãos, quem busca as sagradas escrituras procura meios de elevar o espírito e a alma aos céus. No plano terreno, todos sabem, o mundo moderno exige que busquemos, também, os céus cada vez mais. Assim como o espírito precisa de alimento, o planeta globalizado não pode prescindir do transporte aéreo. Rejubilo-me com o prefeito por proporcionar ao povo esta belíssima obra que, sem sombra de dúvida, vai ser uma ponte para o tão almejado céu. Bons vôos a todos.

Um cidadão atento ao discurso, brincou com o colega: “Com a merreca que eu ganho, se depender de avião pra ir pro céu, pode ter certeza que vou arder no inferno pra toda eternidade.”

Antes de descerrar a placa, como não poderia deixar de ser, o prefeito Ray-Ban proferiu um discurso. A peça de retórica foi longa, vinte e cinco laudas no estilo Fidel Castro, das quais, para não cansar o leitor e não irritar a editora, este escriba pinça o trecho mais representativo:
— …chorem, pregadores do atraso, oposição xiita e críticos de plantão. Chorem de inveja das plumas tucanas porque São João está definitivamente inserida no mundo contemporâneo. Não me venham de novo com essa conversa mole de Distrito Industrial. Não, não e não. Meus tímpanos não suportam mais tanta baboseira. Empresário cheio de erva-cifrão não é peão pra ficar reclamando de pavimentação em barracão de fábrica. Empresário não quer asfalto na porta da indústria. Ele quer, sim, é asfalto em aeroporto pra brincar com LearJet. Na mitologia grega lembramo-nos do sonhador Ícaro que, frustrado, viu o sol dizimar seu sonho ao derreter suas asas. Aqui em São João a conversa é outra. Não vou permitir que a imprensa marrom ou a inveja dos meus adversários sabotem o sonho da sofrida população. Minha asa é inderretível.

 
Atônita e paralisada, a platéia ouvia o cordão de impropérios do “number one”, enquanto, sempre eles, os lambe-botas, cegos pela adulação, puxavam aplausos e louvores numa cena surreal.

PS: Textos republicados

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    14:55 — Arquivado em: Sem categoria

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