5.10.07
Boçalidade

Há muito tempo não ouvia uma grita tão unânime nas esquinas desta Sanja. O alarido de protesto tem como alvo o missivista Paulo de Souza Filho, que se declara “advogado no Rio de Janeiro que já residiu em SJBV”.
Na polêmica mensagem publicada na seção “Leitores” d’O MUNICIPIO, o autor ataca uma suposta tentativa do prefeito Nelson Nicolau em se auto-promover durante os eventos da Semana Guiomar Novaes.
Num trecho da carta, lê-se que “Nelson, em todas as aparições, tenta imprimir um estilo ‘jeca-pop’.” Noutro, diz que “essa imagem de caipira orgulhoso causa nojo no público”.
Nelson Rodrigues que me perdoe, mas essa unanimidade dos discordantes não tem nada de burra. Muito ao contrário. É um grito justo e indignado dos munícipes.
Justo e indignado porque Nelson não é o tipo de político que usa cerimônias públicas para lustrar sua imagem com golpes de auto-marketing.
Não gosto de misturar trabalho com meus textos, mas contar uma breve historinha é necessário para ilustrar minha convicção. O labor numa instituição financeira me obrigou a organizar a inauguração de um correspondente bancário no miolo de um bairro popular. Prefeito e autoridades são convidados em solenidades do tipo. Na data agendada, descobri que o prefeito tinha compromissos na capital. Protocolarmente, indaguei se ele gostaria que mudássemos o dia marcado. Não, ele não aquiesceu com a sugestão casuística e pediu a manutenção da agenda prévia.
Em algumas crônicas, já impliquei com o excesso de informalidade do prefeito em efemérides. Continuo com a mesma opinião. Mas o estilo “Nerso da Sanjinha”, gostem ou não, é autêntico e verdadeiramente desapegado de liturgias. Exageradamente simples, discreto e avesso a protocolos do poder.
Não concordo em absoluto com a insinuação de auto-promoção do alcaide durante a Semana Guiomar Novaes. Mas acho legítima a livre expressão de quem pensa diferente. A dissonância, com o perdão do clichê, é vital para a democracia.
Nada vital e nada legítimo foi o PS perpetrado pelo missivista. Na nota boçal, o sujeito fez uma menção grosseira a um triste acontecimento na vida de um familiar do prefeito. A alusão não foi só de mau gosto. Ela foi de uma estupidez monstro. Isso sim é de dar nojo.
Movido, sei lá, por interesses políticos rasteiros, o senhor Paulo de Souza Filho, carioca ‘ishpérrrto’, deu um tiro no próprio pé. Até opositores do prefeito condenaram a boçalidade.
PS: Tenho, devo dizer, com o prefeito Nelson uma relação de grande cordialidade. O fato de fazer, no varejo, algumas críticas pontuais à sua gestão na província macaúbica não me impede de ser, no atacado, um admirador da sua trajetória como homem público e do seu modus operandi de fazer política. E essa admiração só fez crescer nos últimos meses quando, por razões profissionais, vi de perto a retórica virar prática.
Cangaço
E ainda as boçalidades, agora em Brasília, retratadas num post ácido e lúcido de Reinaldo Azevedo sobre a destituição de dois senadores da Comissão de Constituição de Justiça do Senado:
“Renan Calheiros vive em pleno delírio de potência. Este sujeito só não é um tirano porque as circunstâncias não o levaram ao topo. Ou seria. Trata-se de uma vingança torpe, vil, contra dois senadores não-alinhados com a sua curriola. Eis o homem que, depois da absolvição, disse que buscaria o entendimento. E ele não disfarça, não. Vejam lá: um dos contemplados com a vaga é este inacreditável Almeida Lima (PMDB-SE), que há muito abdicou, como diria Lula, de ter um “ego intelectual” para ser o Leporello do Dom Giovanni de Murici.
Renan transformou o Senado no quarto de despejo de sua moralidade trôpega. Não é só o adúltero desassombrado da família; viola também qualquer principio de honra pública ou de bom senso. Aí está: acho que mais um recado está dado às oposições, que vão votar em breve a CPMF: é com essa gente que vocês estão lidando; é essa gente que tem de ser combatida. Sim, ‘temei’ (sempre Mão Santa me socorrendo com o imperativo na segunda pessoa do plural) todos aqueles que ousaram se opor a Corisco. Ele tentará persegui-los, com aquela particular noção de honra e justiça do cangaço.”
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
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Comentário por Marcelo Pirajá — 5.10.07 @ 20:47
Lauro, bom amigo. Salve!
Li a missiva do dito cujo no jornal e tb esconjuro o infame. Não presenciei o episódio, mas pelo que conheço do Nelsinho, ele não lançaria mão desse tipo de expediente.
Mais uma lavra lúcida do acadêmico macaúbico, pena Ãmpar dos crepúsculos.