Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

31.10.07

Impertinências


Refestelado, em trajes ‘chinélicos’ de verão, o cronista degusta o néctar gelado já cantado e louvado zilhões de vezes neste espaço.
Professoral, em figurino formal, a moça chega, ofegante e determinada. Determinada a encher o saco. Obcecada em incomodar. Fissurada em ser inconveniente. As chatices vêm num insuportável sotaque paulistano.

—Eu sabia. Tinha certeza que o encontraria aqui. Não quero ser chata nem atrapalhar o seu descanso, mas tenho algo para lhe dizer. Ou melhor, tenho algos. Estou atrapalhando?

—Bem… está. Tá aqui o meu cartão. Me fale os ‘algos’ depois, por e-mail.

—Não sei mexer com estas geringonças da tecnologia. E nada no mundo substitui o contato humano, o olho no olho…

—Sei, sei… então vá lá, diga logo, desembucha criatura.

—Acho que posso me considerar uma fã dos seus escritos. Mas uma fã parcial, se é que você vai me entender. Gosto do seu estilo, da sua toada, da musicalidade gramatical que emana das suas crônicas.

—Musicalidade gramatical?! Você cheirou? Fumou?

—Seus textos têm uma bela embalagem, mas o produto, o conteúdo literário, é muito pobre, provinciano. Essas coisas de belocas, macaúbas e terezianos são de uma jequice total. Se a sua boa pena abordasse temas mais densos, de interesse global, você estouraria nos circuitos intelectuais.

—É? Não diga. Temas densos?! Interesse global?!

—Claro!! Você poderia escrever sobre o aquecimento do planeta, a fome em Serra Leoa, os direitos humanos na Tchetchênia, a pesca predatória do marlim-azul, os benefícios sociais nos países nórdicos. Taí, olha que boa idéia, já que você não resiste a um oba-oba em cima do intercâmbio do seu filho, bem poderia fazer um link e discorrer, com sua habitual veia cômica, sobre a política previdenciária norueguesa.

—Escrever com humor sobre a política previdenciária norueguesa? Coisa fácil! Tudo a ver!

—Sabe, escriba, busco incessantemente a integralidade dos sentimentos. A parcialidade me aflige por demais. Sou encantada pelo seu literal, mas tenho ojeriza pelo seu conceitual. Ou seria o contrário? Você capta a dimensão da minha aflição?

—Não. E nem quero.

—Outra coisa: antes de me aproximar, eu estava lá do outro lado da rua e não pude deixar de observar alguns gestos seus, digamos, pouco recomendáveis.

—Hã? Gestos pouco recomendáveis?

—Sim. Você esfrega reiteradamente a sua bolsa escrotal. Em público. Uma figura conhecida na urbe, referência para alguns, não pode perpetrar, às claras, esfregações impudicas.

—Você está implicando com as minhas coçadas no saco?

—Affe Maria! Esse verbo explícito é uma bofetada.

—Moça, você deve ter razão em todas as críticas. Sou mesmo um pária desprezível que não merece preocupações de pessoas tão sérias. Muito obrigado, muito prazer e agora me deixe terminar sossegado a minha lambeção macaúbica.

—No fundo eu sabia, caipira presunçoso não vale o sorvete que toma. Se existia um pouco de admiração da minha parte, ela foi embora junto com esse creme gosmento que você acabou de engolir. Vou escrever uma carta para o seu jornaleco e denunciar à editora o mau elemento que ela acolhe como cronista.

—Olha, moça, nada é absoluto mesmo. Você, com todo esse ranço, com toda essa pose acadêmica, esconde, no âmago da alma, uma mulher muito fogosa. Botei reparo nas suas curvas e descobri um punhado de belos atributos físicos. Solte esse cabelo, tire esses óculos. Êta mulherão!

—Affe Maria! Essa sem-vergonhice escancarada me dá nos nervos. Quero o seu telefone pra gente brigar mais tarde. Ui! Ui! Tô arrepiada de raiva.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:41 — Arquivado em: Sem categoria

25.10.07

Sanja off Mantiqueira

Pulou da cama antes do sol. Chacoalhou o amigo que vai ser seu parceiro no ‘serviço’ e foi tomar café na padoca do Orlando, às portas da Santa Casa. O pai já está na padaria, bêbado, pedindo dinheiro pra mais uns goles, pedindo pra cair pelas sarjetas. Ele ignora o pinguço do seu sangue, toma seu pingado, come seu pão e sai pra ‘garimpar’ um bom produto no centro.
Se o ‘garimpo’ vingar, a família se livra por alguns meses do inferno de privações. O menino terá o seu danone. A mulher terá o seu xampu.
Quando o moleque chora por um iogurte, ele toma coragem pra ‘garimpar’. Quando ele acarinha o cabelo duro da patroa, se arranja pra comprar um Colorama.
Na praça dos bancos, local de alguns rendosos ‘garimpos’, o BATOM [Batalhão de Ações Táticas Opressoras Mantiqueiras], em sua clássica pose truculenta, sinaliza para um ‘trabalho’ em outras freguesias. Ele, que já tomou muito pau do BATOM, se suja de medo com a simples visão daquelas fardas verde-bandeira.
O parceiro dá a dica alternativa: ali na Tereziano tem um pedaço que só dá bacana. O PIB crepuscular apara suas madeixas no requinte do JM e depois se delicia com as iguarias da dona Salma. No pedaço dos bacanas pululam carrões importados e relógios de grife.
As madames, enquanto são tesouradas e massageadas, fofocam sobre o último fim-de-semana em Maresias e/ou sobre as novidades fashion do circuito Chiquita-Usky.
Ele estaciona a velha motoca em frente à igrejinha de Nossa Senhora da Aparecida, faz o sinal da cruz e sai para a ‘missão’. Atento, procura o alvo. Se o ‘garimpo’ falhar e o BATOM agir, não terá homenagem póstuma no Segundo Caderno em texto-epitáfio do poeta imortal Clóvis Vieira. Será apenas mais um desgraçado na coluna policial.
Leu nos textos de um cronista alienado que esta Sanja crepuscular é abençoada pela geografia exuberante e pela qualidade de vida dos seus habitantes. Abençoada? Abençoada o escambau! Quem come crepúsculos?! Vai morar nos cafundós da periferia pra ver a benção do Coisa Ruim. Mal come e ainda tem que ler o babaca escrever sobre delícias macaúbicas.
Desde sempre viveu nos grotões de pobreza. Vizinhava com a miséria, mas nunca se sentiu um miserável. Não sentia, mas era. Um infeliz desafortunado.
Saindo do Spaço, um vacilão de cabelos arrepiados, camiseta da Puma e óculos roxos. No pulso, o supra-sumo da ostentação: um Orient 1978 de mostrador vermelho.
O bicho ia pegar, o Orient ali na maior bandeira. Afligia-se com a indagação: como alguém pode ver as horas numa maquininha que dá pra comprar vários barracos no seu boqueirão paupérrimo? Conheceu tantos que ralaram tanto. Uma vida de sofrimentos pra nada. Ninguém nunca no seu grotão teve um Orient 1978 de mostrador vermelho.
Não desistiria do ‘garimpo’. Estava resolvido e a decisão era irrenunciável. O figurinha não perderia a baby-look afrescalhada da Puma, mas o Orient 1978 de mostrador vermelho já era. Chegou, encarou, ameaçou, amedrontou e levou. Levou o relógio e R$ 50,00.
Deu a grana pro parceiro e voltou pra sua quebrada. O pai estava desacordado na sarjeta. A esposa continuava com o cabelo maltratado e o moleque ainda chorava por um danone.
O ambiente era desolador. Ao contrário do mostrador vermelhão que reluzia no pulso daquele desdentado.

(Durvalino Antonio Mourão, 31 anos, vulgo Mano do Recanto, é escritor e trouxe o movimento rap para estas plagas. Escreveu o thriller policial “Navalhada no DER” e finaliza o conto erótico “Lascívia e Devassidão no Pedregulho”. Ele abomina Greg Belokis e se diz feliz e realizado no underground. Muita luz, diz ele, é coisa de boiola.)

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    22:36 — Arquivado em: Sem categoria

17.10.07

Cadê o BATOM?

“Greg Belokis, o agitador cultural de Sanja, foi brutalmente assassinado”. Manchete em todos os pasquins destas bandas mantiqueiras. E eu, algumas páginas atrás neste O MUNICIPIO, provavelmente na página policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma neste mesmo Segundo Caderno, em texto-epitáfio do poeta imortal Clóvis Vieira.
Não veria a inauguração do Terminal Urbano. Deixaria inacabado o Museu da Macaúba. Não comeria na praça de alimentação do shopping do Sílvio Michelazzo. Não testemunharia a inclusão dos irmãos Soufer na lista dos bilionários da revista Forbes. Não assistiria a entrada desta Sanja no rol dos destinos turísticos mais procurados do planeta. Não aplaudiria a performance do John Travolta, em pessoa, na pista embalada da Chattanooga 2008. Não veria a consagração do Leandro Gulin como fotógrafo das beldades despudoradas que desfilam na Avenida Durval Nicolau.
Por quê? Por causa de um relógio. Um reles Orient 1978 de mostrador vermelho.
Como crepuscular de algumas posses, tenho até pena dos desgraçados montados naquelas bikes, usando capacetes retrôs do Chips e uma espingardinha cheia de balas.
Provavelmente não conheceram a Dona Angelina nem experimentaram o sorvete lendário. E muito menos sentiram a mão pesada da mestra Vera Gomes.
Agora, como homo crepuscularys, fico iracundo. Sou um cidadão em dia com minhas obrigações. E, como resultado, depois do cafezinho no pós-almoço do Spaço, em vez de balas de caramelo e do sorriso da dona Salma, quase recebo balas de chumbo no cocoruto.
Adoro Sanja, amo a Tereziano. É a cidade que eu chamo de minha. Não nasci aqui, mas defendo esta cidade. Mas a situação está ficando insustentável.
Onde está a polícia? Onde está o BATOM [Batalhão de Ações Táticas Opressoras Mantiqueiras]? Chamem o cabo Moino! Chamem o sargento Macena! É premente a busca de soluções para a segurança pública. Dona Gertrudes está se borrando de medo.
Confesso que já tive um Corcel blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Além do que, o carro era ruim e feio. Não queria assumir que estávamos vivendo em Aguaí. Errei na mosca. Aguaí melhorou muito. Até o Tião Biazzo voltou. E nós? Bem, nós estamos chafurdados num medonho creme de jiló e não vejo perspectiva de redenção com um creme de macaúba perfumada.
Rabisco estas linhas não para manifestar a revolta de alguém que perdeu o Orient 1978 de mostrador vermelho, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida para o engrandecimento das artes locais. Ajudei a tirar muitos artistas da “tribo do Jaguari” do underground.
De um lado, a pujança dos espigões do JJ Park, do Perpétuo e dos bairros da chamada Mantiqueira. Mas, do outro, privações santoantônicas, durvalinas e primaveris.
Estou à procura de um super-herói. Pensei que poderia ser o Mestre Duña, mas, no blog do Marcelo Sguassábia, descobri que uma patologia causada pela dilatação algumas recônditas veias varicosas o impedem de salvar a pátria gertrudiana.
Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser sanjoanense, um brasileiro humilhado por uma espingardinha mequetrefe e um homem que correu o risco de não ver o John Travolta na Chattanooga 2008 por causa de um relógio Orient 1978 de mostrador vermelho.

(Greg Belokis, grego da ilha de Crepusculassos, está radicado em Sanja há mais de trinta anos. É artista multimídia e seu trabalho mais destacado foi a antologia “Folia no Paintbrush”, realizado em parceria com o webdesigner espanhol Javier Macaubez)

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:01 — Arquivado em: Sem categoria

11.10.07

Inaugurações

Pronto-Socorro
O esboço de escrevinhador, titular deste blog, foi enviado para cobrir a inauguração do novíssimo Pronto-Socorro Municipal.
Como o talento é nenhum, recolho-me em minhas insuficiências e limito-me às transcrições de nacos dos discursos protocolares, tão praxe nestes tipos de efemérides.

 
Sacras palavras foram proferidas pelo Bispo diocesano:
—Somos nós, clérigos de boa vontade, que acudimos almas e espíritos lesionados. Todavia, caríssimos irmãos, há toda uma sorte de contusões em que as profanas carnes carecem de mais do que louvores e invocações divinas. Nestes críticos momentos, o alívio vem em forma de gazes, merthiolate, analgésicos e ataduras, quiçá até de um providencial gesso reparador das tão terríveis fraturas ósseas. Congratulo-me com o alcaide por remediar com bela obra as moléstias de seu povo.

O Juiz de Direito argüiu com uma curta e bela peça de retórica:
—Denúncias sórdidas vêm machucando a Justiça deste país. Um denuncismo exacerbado vem ferindo de morte a credibilidade dos nossos tribunais. Curativos institucionais existem e, logo, recomporão a cútis ralada do Poder Judiciário brasileiro. Neste belo edifício público o curativo é mais prosaico, mas igualmente importante. Salve, salve, senhor Prefeito, cicatrizada será a população sanjoanense e cicatrizados serão os profundos cortes que ora afligem os magistrados deste Brasil varonil de céu da cor anil. Rimou, né?

 
Descerrada a placa inaugural, o Prefeito, orgulhoso e com os olhos marejados, teceu emocionado discurso aos presentes:
—Já disse, redisse e tredisse, mas não me fatigo em repetir aos quatro cantos: a minha administração foca o bem-estar do ser humano. Prevenir é melhor, mas nem sempre possível. Se remediar for necessário, ossos rompidos serão colados, incisões serão costuradas, feridas serão curadas, cascatas de sangue serão contidas e todas as formas de dor serão incansavelmente combatidas. Cidadãos desta Sanja de belos e majestosos crepúsculos, o meu ardoroso desejo é que todos tenham preservada a sua integridade física. Não obstante, se precisarem de uma bandagem asséptica e outros derivativos remediáveis, procurem e terão amparo neste Centro Médico de Auxílio Rápido a Acidentados e Congêneres. Nossa, plagiei o Simão e tucanei o Pronto-Socorro! Muito obrigado a todos.

 
Findos os rapapés cerimoniais, Prefeito, Vice e outras autoridades receberam curativos simbólicos de estonteantes enfermeiras louras. A banda municipal, afinadíssima, executava o flash-back do Queen: “We are the Champions”.

Aeroporto
Um “céu de brigadeiro”. O tempo naquela manhã de domingo estava perfeito para a ocasião. Nenhum algodão branco manchando o lindo azul celeste.
Depois de alguns meses e muitos milhões de dólares, o Aeroporto Municipal seria finalmente inaugurado.
O PIB macaúbico compareceu em peso. Tinha Sibin voador, Bruscato com hélice, Rehder com turbinas, irmãos Souza-Soufer adornados por asas e pintura na fuselagem. Num cálculo bem modesto, 95% de toda a gaita circulante na cidade deu o ar da graça na nova jóia da coroa do reinado tucano.
A assessoria da Prefeitura cochilou e não conseguiu agendar o fantástico show da Esquadrilha da Fumaça. O povo teve que se contentar com as piruetas do Tuim em seu teco-teco acrobático. Não tava ruim, mas, honestamente, qualquer coisa comparada com a destreza dos aviadores da FAB parece chinfrim.
Em festa de província que se preze, além das autoridades de praxe, toda espécie de lambedor e papagaio de pirata se faz presente. Na inauguração em questão, não foi diferente. Aspones e puxa-sacos desfilavam atrás da comitiva do Poder.
O prefeito, numa soberba indisfarçável, observava tudo através das lentes escuras de um óculos italiano. Comentários maldosos diziam que o alcaide se achava o próprio Tom Cruise nas gravações de “Top Gun”. Ao seu lado, o vice Plínio, mais acessível, era só sorrisos e tapinhas nas costas, vestido a caráter num bonito macacão de piloto. Todo mundo achou meio cafona a vestimenta do “number two”, mas Plínio estava tão radiante que ninguém ousou nada além de rapapés e elogios.

Dom David, o bispo diocesano, abençoou as instalações e a pista, tecendo, depois, rápidas palavras aos presentes:
—Irmãos, quem busca as sagradas escrituras procura meios de elevar o espírito e a alma aos céus. No plano terreno, todos sabem, o mundo moderno exige que busquemos, também, os céus cada vez mais. Assim como o espírito precisa de alimento, o planeta globalizado não pode prescindir do transporte aéreo. Rejubilo-me com o prefeito por proporcionar ao povo esta belíssima obra que, sem sombra de dúvida, vai ser uma ponte para o tão almejado céu. Bons vôos a todos.

Um cidadão atento ao discurso, brincou com o colega: “Com a merreca que eu ganho, se depender de avião pra ir pro céu, pode ter certeza que vou arder no inferno pra toda eternidade.”

Antes de descerrar a placa, como não poderia deixar de ser, o prefeito Ray-Ban proferiu um discurso. A peça de retórica foi longa, vinte e cinco laudas no estilo Fidel Castro, das quais, para não cansar o leitor e não irritar a editora, este escriba pinça o trecho mais representativo:
— …chorem, pregadores do atraso, oposição xiita e críticos de plantão. Chorem de inveja das plumas tucanas porque São João está definitivamente inserida no mundo contemporâneo. Não me venham de novo com essa conversa mole de Distrito Industrial. Não, não e não. Meus tímpanos não suportam mais tanta baboseira. Empresário cheio de erva-cifrão não é peão pra ficar reclamando de pavimentação em barracão de fábrica. Empresário não quer asfalto na porta da indústria. Ele quer, sim, é asfalto em aeroporto pra brincar com LearJet. Na mitologia grega lembramo-nos do sonhador Ícaro que, frustrado, viu o sol dizimar seu sonho ao derreter suas asas. Aqui em São João a conversa é outra. Não vou permitir que a imprensa marrom ou a inveja dos meus adversários sabotem o sonho da sofrida população. Minha asa é inderretível.

 
Atônita e paralisada, a platéia ouvia o cordão de impropérios do “number one”, enquanto, sempre eles, os lambe-botas, cegos pela adulação, puxavam aplausos e louvores numa cena surreal.

PS: Textos republicados

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    14:55 — Arquivado em: Sem categoria

5.10.07

Boçalidade

Há muito tempo não ouvia uma grita tão unânime nas esquinas desta Sanja. O alarido de protesto tem como alvo o missivista Paulo de Souza Filho, que se declara “advogado no Rio de Janeiro que já residiu em SJBV”.
Na polêmica mensagem publicada na seção “Leitores” d’O MUNICIPIO, o autor ataca uma suposta tentativa do prefeito Nelson Nicolau em se auto-promover durante os eventos da Semana Guiomar Novaes.
Num trecho da carta, lê-se que “Nelson, em todas as aparições, tenta imprimir um estilo ‘jeca-pop’.” Noutro, diz que “essa imagem de caipira orgulhoso causa nojo no público”.
Nelson Rodrigues que me perdoe, mas essa unanimidade dos discordantes não tem nada de burra. Muito ao contrário. É um grito justo e indignado dos munícipes.
Justo e indignado porque Nelson não é o tipo de político que usa cerimônias públicas para lustrar sua imagem com golpes de auto-marketing.
Não gosto de misturar trabalho com meus textos, mas contar uma breve historinha é necessário para ilustrar minha convicção. O labor numa instituição financeira me obrigou a organizar a inauguração de um correspondente bancário no miolo de um bairro popular. Prefeito e autoridades são convidados em solenidades do tipo. Na data agendada, descobri que o prefeito tinha compromissos na capital. Protocolarmente, indaguei se ele gostaria que mudássemos o dia marcado. Não, ele não aquiesceu com a sugestão casuística e pediu a manutenção da agenda prévia.
Em algumas crônicas, já impliquei com o excesso de informalidade do prefeito em efemérides. Continuo com a mesma opinião. Mas o estilo “Nerso da Sanjinha”, gostem ou não, é autêntico e verdadeiramente desapegado de liturgias. Exageradamente simples, discreto e avesso a protocolos do poder.
Não concordo em absoluto com a insinuação de auto-promoção do alcaide durante a Semana Guiomar Novaes. Mas acho legítima a livre expressão de quem pensa diferente. A dissonância, com o perdão do clichê, é vital para a democracia.
Nada vital e nada legítimo foi o PS perpetrado pelo missivista. Na nota boçal, o sujeito fez uma menção grosseira a um triste acontecimento na vida de um familiar do prefeito. A alusão não foi só de mau gosto. Ela foi de uma estupidez monstro. Isso sim é de dar nojo.
Movido, sei lá, por interesses políticos rasteiros, o senhor Paulo de Souza Filho, carioca ‘ishpérrrto’, deu um tiro no próprio pé. Até opositores do prefeito condenaram a boçalidade.

PS: Tenho, devo dizer, com o prefeito Nelson uma relação de grande cordialidade. O fato de fazer, no varejo, algumas críticas pontuais à sua gestão na província macaúbica não me impede de ser, no atacado, um admirador da sua trajetória como homem público e do seu modus operandi de fazer política. E essa admiração só fez crescer nos últimos meses quando, por razões profissionais, vi de perto a retórica virar prática.

Cangaço
E ainda as boçalidades, agora em Brasília, retratadas num post ácido e lúcido de Reinaldo Azevedo sobre a destituição de dois senadores da Comissão de Constituição de Justiça do Senado:

“Renan Calheiros vive em pleno delírio de potência. Este sujeito só não é um tirano porque as circunstâncias não o levaram ao topo. Ou seria. Trata-se de uma vingança torpe, vil, contra dois senadores não-alinhados com a sua curriola. Eis o homem que, depois da absolvição, disse que buscaria o entendimento. E ele não disfarça, não. Vejam lá: um dos contemplados com a vaga é este inacreditável Almeida Lima (PMDB-SE), que há muito abdicou, como diria Lula, de ter um “ego intelectual” para ser o Leporello do Dom Giovanni de Murici.
Renan transformou o Senado no quarto de despejo de sua moralidade trôpega. Não é só o adúltero desassombrado da família; viola também qualquer principio de honra pública ou de bom senso. Aí está: acho que mais um recado está dado às oposições, que vão votar em breve a CPMF: é com essa gente que vocês estão lidando; é essa gente que tem de ser combatida. Sim, ‘temei’ (sempre Mão Santa me socorrendo com o imperativo na segunda pessoa do plural) todos aqueles que ousaram se opor a Corisco. Ele tentará persegui-los, com aquela particular noção de honra e justiça do cangaço.”

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    0:25 — Arquivado em: Sem categoria

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