Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

27.9.07

Art macaubeau

A intelligentsia macaúbica quis beber os testemunhos dos destaques da nova corrente cultural que espocam nos segundos cadernos dos grandes jornais. Num Centro Recreativo repaginado, os canapés da Dona Salma foram aperitivos para os depoimentos. A trupe culturette estava em peso: Clóvis, a turma do Clac, Maria Célia Marcondes, Lorette, Chico da Papyrus, entre outros. Até o Nassif e o Walther Castelli circularam por lá.

Arquiteto
A contemporaneidade permeia a minha obra, não há como negar. Mas me aflige deveras esta premência contemporânea. Chega a ser dramática a injeção de oito dígitos de reais em edifícios que berram um visual arrojado. Espigões isolados, arrogantes nas suas fachadas envidraçadas, brilham mais que o suportável, agridem a harmonia da urbe.
O conceito art macaubeau vem para lufar sensatez nesta assimetria sufocante. A arquitetura do século 21 começa a ganhar corpo. E é um corpo coerente com seu entorno. Um corpo de suaves linhas mantiqueiras, de reflexos crepusculares. Um corpo moderno, mas que respeita a mais beloca das tradições.

Artista plástico
Minha pintura está saturada de elementos assíduos. A repetição em determinadas fases é importante para consolidação de um estilo. Mas cansa. Não quero celebrar estes traços teimosos pelo resto da minha existência. Estou num momento de buscar o novo, de pincelar ineditismos.
E esta aquarela jovem, que retrata maneirismos crepusculares, é inerente ao vezo art macaubeau. Meu guru nesta incursão é o Ronaldo Marcondes, cujos pincéis gertrudianos fazem nascer telas muito inspiradas, que mesclam largas e modernas avenidas mantiqueiras com bucólicas paisagens rurais regadas com as águas do Jaguari. Aquele quadro que mostra o Padre David no volante de uma Toyota Hilux é um marco na História da arte.

Compositor
Minha reles existência, de fato, se deu a partir do meu encontro com a música. Uma coisa, assim, lúdica. Um nascer melódico. Com o perdão do clichê: a música corre nas minhas veias. Mas nunca consegui captar direito a dimensão exata da minha trajetória no show business. A música me levava e eu nunca sabia exatamente pra onde. Eu ia. Surfava nos tons, navegava nos acordes. Estourei nas paradas sem saber o porquê.
Agora, até concebo não fazer o sucesso de antanho, mas não consigo enxergar um caminho artístico que não seja o art macaubeau. O art macaubeau trouxe norte para um trilheiro errante. Estava no Carnegie Hall em Nova York e ouvi o Pistelli cantar num arranjo jazzístico “Sanja Way”. Por Deus! Era divino! A música deixava transparecer a alma do homo crepuscularys. A música ainda me leva. Mas agora sei exatamente pra onde eu vou. Sim, claro, é pra lá que eu vou: Sorveteria Macaúba na Dom Pedro 2°.

Poeta
Os movimentos vanguardistas sempre cumpriram uma missão de civilizar. Eles derrubaram dogmas da existência da propriedade cultural, do isolamento. Eles abriram janelas para o mundo. Foram importantes em determinado período histórico. Augusto e Haroldo, os concretistas irmãos Campos, foram grandes expoentes desta vanguarda que veio, cumpriu seu papel e se foi.
Eu diria que a poesia passa, hoje, por uma segunda e mais intensa onda civilizatória: a art macaubeau.
Os poemas art macaubeau são provocantes. Cutucam. Interrogam. Fazem refletir. O interessante, supra-sumo macaúbico, é que essa vocação polêmica vem numa embalagem lírica. E a controvérsia típica deste estilo converge sempre para opções crepusculares, as dúvidas ficam confinadas na Praça Joaquim José: Pagu ou Orides Fontela?

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:53 — Arquivado em: Sem categoria

13.9.07

Bandalheira

Escudado pelo espírito de corpo (ou porco?), pela canalhice e pela patifaria da maioria de seus pares (ou cúmplices?), o senador Renan Calheiros granjeou esta semana, às escuras, um obsceno prolongamento de sua estada no Senado da República.
Renan, sob uma montanha de lixo, estava quase morto. O Senado, com a decisão esdrúxula, deu sobrevida ao alagoano e inundou o plenário com a podridão que o cobria.
O prolongamento da crise é a derrota do bom senso. Pior que isso, é a opção descarada pelo banditismo. É a predileção pela malfeitoria.
Malditos!! Facínoras!! Que sejam privados das macaúbas pelo resto dos seus dias.

Putrefação
Clóvis Rossi, Folha de São Paulo, 13/09/2007:
Confesso que estava mais interessado em ver o grande clássico do futebol mundial entre Dinamarca e Liechtenstein (4 a 0) do que o resultado do julgamento de Renan Calheiros.
Fosse qual fosse, o fato de a chamada Câmara Alta do Parlamento reunir-se em sessão secreta, com voto igualmente secreto, já era uma sentença em si mesma. Quem se esconde de alguém é porque tem vergonha do que faz. Quem se esconde do público que o elegeu e lhe paga o salário é necessariamente um sem-vergonha, para dizer apenas o que é permitido.
O recurso extremo de proibir os senadores de usar celulares e laptops durante a sessão sugere que o ideal teria sido realizar a sessão em algum presídio de segurança máxima, para o efetivo isolamento total dos pais da pátria.
A falta de vergonha só aumenta quando se lembra que 41 senadores anunciaram à Folha que votariam pela cassação. Só 35 mantiveram a palavra. Não chega a ser uma surpresa ligar político à falta de palavra. Mas o descaramento não precisava ir tão longe.
Quanto ao resultado em si, nada a acrescentar ao que já foi dito aqui mais de uma vez: o mundo político brasileiro desconectou-se completa e definitivamente dos representados.
Representa unicamente seus próprios interesses ou, pior, os seus negócios, com gado ou outras mercadorias.
Renan Calheiros continua a ser um cadáver político. Absolvido, mas cadáver.
Quem tem 35 colegas que o consideram culpado e outros seis que não sabem se é ou não, pois se abstiveram, tem a maioria da Casa (41) desconfiada de seu presidente.
Além disso, Calheiros, em vez da cadeira de presidente, terá que se sentar na de réu outras vezes, pois responde a dois outros processos no Conselho de Ética.
É o retrato acabado da política brasileira. Putrefata.

Lugar certo
Janio de Freitas, Folha de São Paulo, 13/09/2007:
Toda indignação com a vitória dada a Renan Calheiros pode justificar-se como sentimento pessoal, mas a coerência com o país em que vivemos não está ao lado dessa reação. Está com os 40 votos favoráveis e as 6 abstenções não menos favoráveis à permanência do acusado, e autor de declaradas fraudes de defesa, como presidente do Congresso Nacional.
O Senado, contra apenas 35 dos seus 81 integrantes, decidiu que Renan Calheiros deve continuar com seu mandato e seu alto posto institucional no país em que a base parlamentar do governo e as votações no Congresso são montadas por corrupção política desabrida: as compras e vendas por meio de dinheiro público, manipulado nas verbas orçamentárias pelo governo, e de cargos na administração.
É o país em que o corpo ministerial se compõe como resultado de barganhas, políticas e materiais, que não se impedem nem sequer por participações em escândalos de corrupção e bandalheiras em geral, devidamente constatadas em passados escândalos investigados pelo próprio Congresso.
Não é preciso ir mais longe. Seria preciso lembrar o processo eleitoral brasileiro, feito a poder de dinheiro e de falsas prestações de contas? Ou os esquemas de corrupção financeira de partidos e de parlamentares, controlados pela cúpula política do governo e com presença constada dentro da Presidência da República? Não é preciso lembrar o que todos sabem, e reavivam sem descanso na sucessão de escândalos.
Os 40 votos contra a cassação e as 6 abstenções de igual propósito e efeito foram, não há dúvida, conscientes como atos pessoais e coerentes como atos políticos: Renan Calheiros é o homem certo no lugar certo.

Até tu, Mercadante
Reinaldo Azevedo, no seu blog, 12/09/2007:
Eu jamais os obrigaria a fazer uma escolha entre os petistas Ideli Salvatti (SC) e Aloizio Mercadante (SP), mas há de se convir: ela é mais corajosa do que ele, ainda que essa particular coragem petista, em que quem corre riscos é o Brasil. Mas que se reconheça: ela, ao menos, não se esconde na ambigüidade. É quem é. Enfia a mão na mercadoria sem receios, sem medo de ser feliz, sem temer que os seus casaquinhos saiam respingados da matéria fétida. E, ao dar entrevista, empina o nariz, arrogante, como a dizer: “Fiz mesmo, e daí?” O último resquício de coragem no petismo está com as mulheres, ainda que esta coragem lastimável. Mas é Mercadante, sempre tão altaneiro? Se a vida me obrigasse a atravessar a selva com um cantil de água, tendo de escolher um dos dois como parceiro, depois de lamentar a minha sorte, escolheria Ideli. Talvez ambos chegássemos do outro lado. Mercadante? Na primeira oportunidade, ele tentaria me enforcar num cipó para ficar com a água só pra ele. Ainda que viesse a morrer mais adiante. É da sua natureza.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    22:43 — Arquivado em: Sem categoria

11.9.07

Sampa Classics

Fim-de-semana prolongado em Sampa é programa para glutões e intercambista. O hotelzinho super-econômico nos Jardins está lotado. No problem! Eu vou para a tradição do velho centro paulistano e me hospedo na Av. São João. E a avenida evoca clássicos.
Começou com um filé no Moraes e terminou com um beirute no Frevo. Com passagem pelo O Gato Que Ri, pastel no Mercadão e esfihas na 25 de Março. Ah!, e antes do retorno macaúbico teve uma pausa em Rio Claro para curtir um Japa de respeito com os primos Paula e Gustavo.

Filé do Moraes, o melhor de SP, do Brasil, quiçá do mundo
Diz a lenda que o sambista Adoniran Barbosa compôs Trem das Onze enquanto saboreava o famoso filé com alho e óleo do Restaurante Moraes. Verdade ou não, o fato é que o suculento bife de 430 gramas, suficiente para até duas pessoas, faz sucesso há 90 anos.

http://www.filetdomoraes.com.br/

 

O Gato Que Ri é pasta cantineira no Largo do Arouche

Criado pelas mãos de Dona Amélia, uma simpática italiana que chegou ao Brasil em 1951 com fantásticas receitas e uma idéia muito original, é uma das mais tradicionais e famosas casas de massas de São Paulo e também um marco na história do Arouche.

http://www.ogatoqueri.com.br/

 

Esfihas de outra galáxia dos "brimos" da 25

Com Coca gelada é pra comer de joelhos

 

Mercadão é cool

 

E termina na Oscar Freire com o beirute do Frevo

O beirute da conhecida lanchonete completou meio século em abril de 2006. A versão tradicional mistura queijo prato, tomate, orégano e um saboroso rosbife feito com carne de lagarto assada diariamente na própria casa. Acrescido de alface, maionese e bacon, o lanche chega à mesa num pão sírio tostadinho, cortado em quatro pedaços. Farto, pode ser pedido no tamanho míni. Com Coca gelada é um crime.

 

Japa de catiguria em Rio Claro

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    19:17 — Arquivado em: Sem categoria

6.9.07

Escandinavas

O feriado setembrino provoca fechamento antecipado do jornal. A Editoria comunica-me em cima da marca do pênalti que meu texto tem que aterrissar na caixa postal da redação em duas horas. Correria! Desespero!
Já habitualmente cinzenta, minha parca inspiração vai pras cucuias com o prazo apertado. A ocasião é perfeita para um pai orgulhoso reverberar as peripécias de seu garoto em paragens escandinavas. Vou para o blog dele e mando ver no ‘copiar’ e ‘colar’. Os textos foram capturados de diferentes dias, portanto vale pelas histórias e pelo contexto. Os “ontens” e “hojes” podem ser desprezados. Ah!, e quando houver referência a fotos, elas podem ser visualizadas no endereço:
http://lauronanoruega.blogspot.com/

Escala em Amsterdã
Indo para Noruega fiz uma escala de 8 horas em Amsterdã, a cidade mais maluca e divertida que eu já visitei. A cidade mescla uma arquitetura muito antiga com uma população extremamente moderna. É muito difícil ver uma sujeira no chão, mesmo nas ruas lotadas de gente. Lá encontramos a seleção brasileira universitária de basquete, que nos acompanhou em alguns lugares. O mais incrível é que tinha um “sanjoanense” no time, o Tiagão do time da UniFEOB.

Carestia
Hoje cheguei a Haraldvagen, um tipo de hotel fazenda perto de Oslo onde ficarei uma semana para um curso de norueguês.
Todos os intercambistas do distrito estão aqui. Tem gente da França, Alemanha, Canadá, EUA e México.
As coisas aqui na Noruega são extremamente caras. Por exemplo, dias atrás eu paguei US$ 4 em uma garrafa de Coca de 500ml. Como eu ainda não tenho muita noção de quanto vale uma coroa (a moeda norueguesa), na hora fica meio difícil fazer as contas, mas quando eu chego em casa e ponho tudo no papel, aí vem a surpresa!!
Agora já é bem noite aqui e a maioria das pessoas está dormindo. O hotel fica bem afastado da cidade, então a única coisa que resta é ficar na internet e por o blog em dia ou estudar norueguês (eu particularmente prefiro a primeira opção).

Babel
O curso foi ótimo. O hotel era lindo, apesar de o tempo não ter ajudado muito, pois choveu quase todos os dias. O professor, Einar, é um sujeito muito engraçado e bastante paciencioso (também, para ensinar Norueguês, haja paciência!).
Deu para ter uma boa base nesse curso. Aprendemos as palavras mais usadas no dia-a-dia e como formar frases. Acho que o verdadeiro aprendizado da língua irá ser com a convivência com outros jovens na escola, que por sinal começa na segunda-feira.
A convivência com culturas diferentes foi também muito interessante. Tinha a japonesa que só comia peixe, o francês que não tomava banho e só comia pães e queijo no almoço, os americanos que achavam que todos tinham a obrigação de falar inglês, os canadenses que não se davam com os americanos, e por aí vai… [nota do escriba: e tinha o brasileiro que não era enjoado pra comer, tomava banho diariamente e era simpático com todos.]

Online
Segunda-feira comecei a ir à escola e foi bem legal —e estranho— ao mesmo tempo. Como não entendo quase nada ainda, posso ficar navegando na net, pois cada um usa seu próprio laptop nas aulas.

Sapatos, frio e Møelv
Não fiz nada de especial essa semana, além de comprar sapatos para o inverno, pois minha família hospedeira disse que meus pés congelariam se eu usasse na neve os sapatos que trouxe do Brasil. E por falar em frio, dêem uma olhada na temperatura do termômetro da foto. Quase 0°C! Essa foto foi tirada do termômetro da cozinha daqui de casa às 7h da manhã, hora que saímos de casa para esperar o ônibus da escola. E eu que achava frio o vento na praça da Catedral quando ia para escola em São João!
Ontem aconteceu uma coisa inusitada. Aqui na Noruega, a maioria dos estudantes que mora longe da escola vai de ônibus, pois o serviço é gratuito, pontual e muito bom. Pois bem, lá estou eu esperando o ônibus de volta para casa quando 10 minutos antes chega o mesmo ônibus. Pensei comigo: "ele deve estar adiantado hoje…", e entrei. Pura burrice! O ônibus não era aquele e eu fui parar na cidade vizinha, Møelv, 50 km adiante. Falei com o motorista e ele me informou que o próximo ônibus de volta demoraria 1h30! Sentei, liguei meu iPod, esperei e voltei!
Moral da história: sempre carregue um iPod com você no caso de parar por engano em Møelv, pois não há absolutamente nada de interessante nessa cidade.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    19:21 — Arquivado em: Sem categoria

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