29.7.07
Posse na Academia Crepuscular
E este blogueiro agora é imortal. Na fria noite do último dia 28 assumi a cadeira 20 da Arcádia mais crepuscular do Brasil.

Lorette (também imortal empossado), Rodrigo Falconi, Maria Célia Marcondes e eu
Segue o discurso do macaúbico eterno:
Senhor Presidente,
Colega Lorette,
Prezados confrades, confreiras, familiares, amigos e demais presentes,
E os deuses mantiqueiros continuam conspirando a meu favor: voltei a trabalhar em Sanja e agora sou eleito para a Academia. O que mais poderia querer um lambedor de sorvete de macaúba que lavra crônicas com inequívocas inspirações bairristas?
Rendo graças a todos os acadêmicos desta Arcádia que me honraram com seus votos. Agradeço, ainda, àqueles que, democraticamente, optaram por outros nomes, mas também contribuíram com suas presenças para o alcance do quorum mínimo e com a referenda do processo sucessório.
Agradeço, também e de maneira especial, a Maria Célia Marcondes e a Clineida Jacomini pelo incentivo à minha postulação.
Ana Maria, minha mãe, e Dona Fiuca, minha avó, são pessoas que eu jamais poderia deixar de reverenciar nesta peça retórica. Devo a elas, seja em livros, revistas ou jornais, os meus primeiros contatos com as letras.
Cá estou na tribuna mais letrada da cidade, onde, cheio de júbilo, vou sentar-me na cadeira número 20, anteriormente ocupada pelo doutor Christino Cardoso de Pádua, poeta inspirado e militante operador do Direito. Sua obra mais destacada é a antologia “Sorriso Fixo”, que, entre outros poemas, exala lirismo em “Sem Solução”:
(lindamente declamado pelo confrade Clovis Vieira):
Absolvido o teu sorriso móvel
Em meu sorriso fixo
E a dor rompendo o invólucro
De verniz
Derramada em lágrimas
Se fez concreta…
Olhei com olhos de espanto
O fundo
Da cisterna das angústias
E vi
O reflexo do meu eu
Refletido
Naquele maldito sorriso fixo
Eternamente fixo
Em minha cara
Sorrindo de mim!
A cadeira 20 tem como patrono o bardo da boa terra, Castro Alves.
Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceiras, antiga freguesia de Muritiba, perto da vila de Curralinho, hoje cidade Castro Alves, no Estado da Bahia, em 1847.
Filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos. Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para Salvador, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro barão de, pasme!, Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. E abro aqui um rápido parêntesis: [confesso, meus caros, que este achado macaúbico, ainda que periférico, na biografia de Castro Alves, foi por demais divertido]. E segue o andor: Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se na Faculdade de Direito em 1864. Cursou o 1º ano em 1865, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 1866, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou a apaixonada ligação amorosa com Eugênia Câmara, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração e tomou consciência do seu papel de poeta social. Escreveu o drama “Gonzaga” e, em 1868, vai para o Sudeste em companhia da amada, matriculando-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara. Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi afinal amputado no Rio, em meados de 1869. De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 1870 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a saúde comprometida pela tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, “Espumas Flutuantes”, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores.
Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora Agnese Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior tarefa a que se propusera, o poema “Os escravos”, uma série de poesias em torno do tema da escravidão.
Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século 19, Castro Alves viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a alcunha de "Cantor dos Escravos". A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloqüência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade. Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano.
É imperativo citar, ainda, importantes obras de Castro Alves como "Cachoeira de Paulo Afonso", "Vozes D’África" e "Navio Negreiro", este último um dos mais conhecidos poemas da literatura brasileira.
Último trecho de “Navio Negreiro” (lindamente declamado pelo confrade Clovis Vieira):
Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e covardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
(segue o discurso no post abaixo)
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
17:22 — Arquivado em: 

Comentário por Eriko — 30.7.07 @ 10:10
CarÃssimo amigo Lauro, nobre escriba e agora, nosso imortal! Ainda que de forma sucinta, parabenizo por mais esta conquista, pois sua presença como imortal da nobre Academia , com certeza vem abrilhantar a mesma, ja repleta de não menos nobres “imortais”. Sua eleição vem demonstrar o quão suas palavras e carinho pela “Sanja” (que assim a chama de forma acolhedora), foram bem recebidos e devidamente interpretados, por todos aqueles que acompanham suas bem humoradas crônicas, sempre atualizadissÃmas. Abraços e parabéns!
Comentário por Marcelo Pirajá Sguassábia — 30.7.07 @ 12:36
Meu caro e imortal escriba,
Foi uma noite memorável. Mais uma vez, parabéns pela merecida conquista. Obrigado por me enviar as fotos, já devidamente guardadas para a posteridade. Abraços, amigo!
Comentário por João Sérgio — 1.8.07 @ 19:56
Confrade blogueiro, macaubeiro, crepuscular e imortal:
seja bem-vindo a nossa arcádia!sucesso!
JS.
Comentário por Maria José Moreira — 3.8.07 @ 0:37
Prezado Confreire
Poa questões alheias à minha vontade não pude prestigiar sua posse. Porém não posso deixar de externar aqui a grande aquisição para a Academia com seus excelentes textos cheios de humor e picardia.
Parabéns!
Confreira
Maria José Moreira