19.7.07
Berinja do Chicão

From and to Mantiqueira
Férias no inverno e aniversário de casamento. Passeio e comemoração.
Onde? Montanha, natureza exuberante, frio, romance, pousadas aconchegantes, comércio bacaninha e alta gastronomia.
Seguindo as dicas de amigos, botei minha charanga na estrada e fui conhecer a charmosa Monte Verde, nas bandas mineiras da Serra da Mantiqueira.
O lugarejo [que é um distrito da cidade de Camanducaia] tem encantos que fazem compensar o acidentado trajeto até lá. Os 30 km. finais da viagem são percorridos numa vereda esburacada, quase intransitável em alguns pontos, que fazem a paulistada rogar por pedágio e asfalto decente. Ouvi de alguns locais que o caminho deplorável é proposital e necessário pra manter as hordas farofeiras afastadas. Sei não…
A ‘berinja’ do Chicão
A eclética oferta culinária monteverdiana [ou seria monteverdense?] faz a festa dos glutões: truta, fondue, sopas, massas, bacalhau, comida caipira e, surpresa!, a berinjela do Chicão.
Fálicos trocadilhos pululam na mente do maldoso leitorado, eu sei. Mas a berinjela, no caso, é no sentido mais, digamos, caçarola da palavra. A berinjela ao forno chega à mesa fumegando e vem coberta com molho de tomate, queijo Catupiry, lascas de bacalhau e mussarela bem gratinada. Fui à Adega do Chicão pra manjar um prato mais montanhês-clichê. Uma truta, talvez. O ibope berinjélico nas mesas vizinhas e o paladar volúvel, no entanto, empurraram-me a escolher esta iguaria dos fogões do Chicão. E, sem medo de ilações infames, a ‘berinja’ do Chicão é de outra galáxia [logo abaixo tem uma foto saborosa da ‘berinja’].

Herói da montanha
E a digestão da comilança desenfreada acontece nas caminhadas por trilhas que levam a paisagens belíssimas. Este proseador, depois de uma hora batendo perna na mata, conheceu a Pedra Redonda [1.990 m de altitude] que, dizem os eco-entendidos, proporciona a mais bela vista de Monte Verde. Por absoluta falta de preparo físico abdiquei de me deleitar com outros horizontes para ratificar a opinião da intelligentsia natureba [logo abaixo tem uma foto panorâmica da vista da Pedra Redonda].
Na jornada ecológica conheci um personagem que valeu a minha passagem por este planeta: o Toninho.
Expert em sobrevivência na selva, Toninho é ‘o’ cara. Na montanha ele comandava o passeio de umas dez pessoas do seu clã, e, entre estas, estava até a vovó setentona. Não fosse a liderança protetora do Toninho, qualquer um consideraria uma insanidade botar a vovó para saracotear no bosque.
Abre parêntesis. Investigando a história, descobri que a ida da vovó foi precedida de uma polêmica familiar. Na pousada, durante o desjejum, Toninho detalhou aos seus o roteiro florestal do dia. A assembléia deliberou que seria uma temeridade levar a vovó. “Eu vim pra me divertir, estou bem de saúde e quero ir ao passeio”, sem medo do lobo-mau, bradou a septuagenária em alto e bom som. O murmúrio do contra da casta foi interrompido pelo verbo firme do Toninho: “Eu me responsabilizo, a vovó vai”. E quem ousaria desafiar tal e tamanha autoridade. A vovó foi. Fecha parêntesis.
Ver o Toninho em ação é algo singular. Ele puxa a fila, orienta, dita o ritmo, descobre atalhos, usa o facão com maestria para abrir picadas, distribui água aos sedentos, comida aos famintos, se localiza pela posição do sol, incentiva os mais cansados, acautela os mais afoitos.
Uma orquídea rara prende, por alguns instantes, a atenção do timoneiro. A vovó protesta: “Toninho, cadê você? Estamos caminhando a esmo, sem rumo”. O cabeça se mexe rápido pra retomar o posto. Cai. [Até os mitos caem.] Esfola o joelho. Levanta-se ligeiro e, para alívio geral, põe-se à frente da turba apontando o norte redentor.
Caos aéreo, crise no Senado, corrupção endêmica e outros bichos cabeludos. O país padece de vários males. Lá na gélida Monte Verde, aquecido pela lareira do bangalô, entre conjecturas e vinhos, lamentei a falta de Toninhos nos cargos estratégicos deste Brasilzão [No meu blog NÃO tem foto do Toninho. Nosso herói é avesso à notoriedade. O desenho logo abaixo é bem Toninho no conceito].

No YouTube
Em tempo: e tem guia turístico macaúbico no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=T9oW02Hy6Y4
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
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Comentário por Marcelo, sanjoanense, discÃpulo do Duña — 20.7.07 @ 8:54
AlvÃssaras ao escriba e à cara consorte pelo aniversário de casório. Felicitações pelo inesquecÃvel passeio, que tb tenho vontade de fazer. Parabéns pelo texto, sempre de primeira. Mas, pelo amor de Deus, esqueça a idéia de ser guia. Você não vai levar ninguém a lugar algum. Sou mais o Toninho.
Abraços!