Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

29.7.07

Posse na Academia Crepuscular

E este blogueiro agora é imortal. Na fria noite do último dia 28 assumi a cadeira 20 da Arcádia mais crepuscular do Brasil.

Lorette (também imortal empossado), Rodrigo Falconi, Maria Célia Marcondes e eu

Segue o discurso do macaúbico eterno:

Senhor Presidente,
Colega Lorette,
Prezados confrades, confreiras, familiares, amigos e demais presentes,

E os deuses mantiqueiros continuam conspirando a meu favor: voltei a trabalhar em Sanja e agora sou eleito para a Academia. O que mais poderia querer um lambedor de sorvete de macaúba que lavra crônicas com inequívocas inspirações bairristas?

Rendo graças a todos os acadêmicos desta Arcádia que me honraram com seus votos. Agradeço, ainda, àqueles que, democraticamente, optaram por outros nomes, mas também contribuíram com suas presenças para o alcance do quorum mínimo e com a referenda do processo sucessório.

Agradeço, também e de maneira especial, a Maria Célia Marcondes e a Clineida Jacomini pelo incentivo à minha postulação.
Ana Maria, minha mãe, e Dona Fiuca, minha avó, são pessoas que eu jamais poderia deixar de reverenciar nesta peça retórica. Devo a elas, seja em livros, revistas ou jornais, os meus primeiros contatos com as letras.
Cá estou na tribuna mais letrada da cidade, onde, cheio de júbilo, vou sentar-me na cadeira número 20, anteriormente ocupada pelo doutor Christino Cardoso de Pádua, poeta inspirado e militante operador do Direito. Sua obra mais destacada é a antologia “Sorriso Fixo”, que, entre outros poemas, exala lirismo em “Sem Solução”:

(lindamente declamado pelo confrade Clovis Vieira):

Absolvido o teu sorriso móvel
Em meu sorriso fixo
E a dor rompendo o invólucro
De verniz
Derramada em lágrimas
Se fez concreta…
Olhei com olhos de espanto
O fundo
Da cisterna das angústias
E vi
O reflexo do meu eu
Refletido
Naquele maldito sorriso fixo
Eternamente fixo
Em minha cara
Sorrindo de mim!

A cadeira 20 tem como patrono o bardo da boa terra, Castro Alves.
Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceiras, antiga freguesia de Muritiba, perto da vila de Curralinho, hoje cidade Castro Alves, no Estado da Bahia, em 1847.
Filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos. Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para Salvador, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro barão de, pasme!, Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. E abro aqui um rápido parêntesis: [confesso, meus caros, que este achado macaúbico, ainda que periférico, na biografia de Castro Alves, foi por demais divertido]. E segue o andor: Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se na Faculdade de Direito em 1864. Cursou o 1º ano em 1865, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 1866, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou a apaixonada ligação amorosa com Eugênia Câmara, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração e tomou consciência do seu papel de poeta social. Escreveu o drama “Gonzaga” e, em 1868, vai para o Sudeste em companhia da amada, matriculando-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara. Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi afinal amputado no Rio, em meados de 1869. De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 1870 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a saúde comprometida pela tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, “Espumas Flutuantes”, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores.
Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora Agnese Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior tarefa a que se propusera, o poema “Os escravos”, uma série de poesias em torno do tema da escravidão.
Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século 19, Castro Alves viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a alcunha de "Cantor dos Escravos". A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloqüência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade. Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano.
É imperativo citar, ainda, importantes obras de Castro Alves como "Cachoeira de Paulo Afonso", "Vozes D’África" e "Navio Negreiro", este último um dos mais conhecidos poemas da literatura brasileira.

Último trecho de “Navio Negreiro” (lindamente declamado pelo confrade Clovis Vieira):


Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e covardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

(segue o discurso no post abaixo)

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    17:22 — Arquivado em: Sem categoria

Posse na Academia Macaúbica

Na foto, o orgulhoso clã (além dos sânjicos, prima Ana Paula e primo Kiko Sucupira botaram a caranga na estrada pra prestigiar a posse)

(sequência do discurso)

Mantiqueiros confrades e mantiqueiras confreiras, noves fora a minha preguiça de férias e a minha ignorância quase cabal sobre Castro Alves, tentei cumprir da melhor maneira minha lição de casa de pesquisar sobre o patrono.
Na minha parca bagagem, meus caros, nada tenho além de folias lítero-jornalísticas, colaborações de alguns anos na imprensa desta Sanja e, mais recentemente, um virtual blog onde minhas crônicas e outras elucubrações são postadas periodicamente.
Não fossem os empurrões da Maria Célia e da Clineida, minha postulação a esta Casa jamais seria voluntária. Embora confetes de acadêmicos não sejam raros acerca de meus escritos, julguei —equivocadamente, agora sei— que minhas pândegas linhas não seriam, digamos, adequadas a uma Casa de tal e tamanha espessura literária.
Já enveredei muito por pesadas e cinzentas reflexões políticas. O empresariado e o Poder Público, meus clientes no ganha-pão, são sensíveis a opiniões mais partidárias e contundentes. Pelo básico instinto de sobrevivência, passei a lavrar sobre temas mais amenos —e com uma pena mais leve e cheia de troça. E devo admitir que gostei da brincadeira. E pela repercussão dos escritos, acho que o mote menos denso proporciona mais desvarios literários. Nesse estilo, a crítica e opiniões mais ácidas, quando inevitáveis, não perdem a força quando vêm em embalagens sutis e com cores menos berrantes.
Carlos Heitor Cony, imortal da ABL, meu ídolo nesse vezo libertário e despretensioso disse: “Não tenho disciplina mental para ser de esquerda, nem firmeza monolítica para ser de direita. Tampouco me sinto confortável na imobilidade tática, muitas vezes oportunista, do centro.”
Aproprio-me da assertiva genial e acrescento: um débil ideológico e provinciano assumido por gosto e opção que escreve sobre atualidades mantiqueiras, histórias crepusculares, hábitos macaúbicos, crônicas, devaneios e outras viagens.
Citei Cony como ícone maior do viés blasé e sou obrigado a citar Luis Fernando Veríssimo como referência magna nas linhas de humor. Por mais paradoxal que pareça, e é, Luis Fernando Veríssimo é dono de um texto popular-refinado, e sabe, como ninguém, radiografar a alma da classe média brasileira.
Acadêmicos destes terrões da Beloca, tomo posse não me furtando em admitir minha total cegueira histórica e regimental da Casa. Tampouco tenho claro o papel da Arcádia na comunidade. Tenho uma vaga idéia e uma vontade enorme de, parafraseando Bento 16 que se disse “um humilde trabalhador na vinha do senhor”, ser um simples, mas atuante operário das letras. E mais, pra não ficar só em promessas abstratas, ser um agente efetivo na difusão dos hábitos literários nesta província de belos crepúsculos.
Cria da larga e arborizada Tereziano Vallim, filho de bancário e professora, neto de costureira legendária, tenho muitas dúvidas e algumas crenças. Acredito nos alicerces da família, no valor das boas amizades, na necessidade de preservação e exaltação dos referenciais históricos, no prazer da boa mesa, no deleite de uma boa leitura, no alimento para a alma de uma boa viagem, enfim, na capacidade infinita de satisfação, criação e superação do ser humano.
Falar em público é, sem dúvida, uma difícil missão para este escriba, sobretudo num momento em que transpiramos emoção. Espero ter honrado com estas linhas a tradição da Casa.
E espero, mais ainda, atender às expectativas dos meus pares no cultivo da língua e na valorização ao bom verbo.

E, por fim, agradeço quem atura minhas chatices cotidianas, minha esposa e meu filho, meu esteio, minha família, minha vida, meu tudo…

Saudações crepusculares,
Muito obrigado e que Deus abençoe a todos.

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criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    17:15 — Arquivado em: Sem categoria

26.7.07

Sete Sanja Maravilhas

O escriba conclamou e a plebe sânjica atendeu. E-mails, cartas, sinal de fumaça, telex, pombo-correio, tambor, mensagens telepáticas, telefonemas, o diabo. Uma saraivada de indicações para a eleição das sete maravilhas crepúsculo-macaúbicas aterrissou nos meus domínios.
O Conselho Superior das Tradições Crepusculares, em decisão soberana e inapelável, vai se reunir em data próxima para escolher sete entre as inúmeras indicadas.
Dentro dos ditames civilizados e democráticos, tenho dito, é legítimo pressionar os membros do Conselho para manifestação das preferências. Corre por aí que já tem até lobista por estas bandas.
As indicadas, por categorias:

Beloca People
Dona Angelina (do sorvete de macaúba); Dona Beloca; Dona Fiuca; Maximina (da padaria); Dona Adélia Nagib; Ditão do Cine Avenida; Maria do Mercado; João Grandão do microfone; Velhinho Negro (sorridente e de terno da praça); Cido Mello; Cabo Moino; Pagu; Guiomar Novaes; Fernando Furlanetto; Professora Vera Gomes; Bartazá; Neno Quessa/Fica-Fica; Professor Ciro Boy; Walter Pinto; Maurício do Foto Hollywood; Seu Didi (pai do Djalma); Tenente Alvarenga; Paulão Tudo Bem; Orminda Cassiano de Carvalho; Repórter policial Macaúba; Orides Fontella; Tenente Macena; Dona Elza (da padaria); Niquita; J. Amaral; Padre David; Dom Tomás Vaquero; Tista Louco; Cirto Costinha; Jair Rosa; Miguel Jacob.

Macaúba Foods
Sorvete de macaúba da dona Angelina; Pé-de-porco do Terrinha; Torresmo do bar do Chico do Pratinha; Pizza do Brigogello (J. Amaral); Quibe do Jacob; Pastel do Renato; Passado do Pitarello; Coalhada do bar do Enéas; Peixe frito do Dito Ciacco; Peixe frito do Foguinho; Doces do João Varsone; Quindim da Cynira; Dona Lindona; Bauru do Formiga; Bauru do Canecão; Bauru do Nosso Bar; Bauru do Sid; Bauru do Colombo; Frango assado do bar do Oreia; Pizza de mozzarella do Tekinfin; Amendoim encapado vendido pelo seu Rui na Esportiva; Pastel da feira; Ki-Galo do Hi-Fi Lanches; Esfiha da Dulce do bar Tiradentes; Esfiha da Laila Yazbek; Mortadela Horizonte; Filé à cubana do Príncipe Hotel; Bala Chita do cinema; Chope do Tekinfin; Pão doce com mortadela da padaria da Maximina; Pinga Cabral.

Changai Stores
Sorveteria Macaúba; Beijinho Doce; Sorveteria Fritz; Salamalec; Casa Changai; Bar do C… do Padre no Rosário; Barraca de quebra-queixo do Tonho em frente ao Instituto; Hi-Fi Lanches; Casa Tupi; Supermercado Cruzeiro; Agência Pires de jornais e revistas; Farmácia do Peixotinho; Farmácia do Alfredinho; Bicicletaria do Mané Garrafão; Bar Porão; Bar Canecão; Bar Jussara; Bar Rubbo; Barbearia do Guilô; Padaria da Dona Elza, Quiberia do Jacob; Restaurante 9 de Julho; Bar do Pitarello; Nenette Salgateria; Bazar Beozzo; Bar do Peixotinho; Bar do Risca-Faca; Cine Avenida; Pastelaria do Chico Japonês; Tekinfin; Padaria da Maximina.

Tereziano Vallim Places
Areião (vale botar a explicação do indicador, Leivinha: “Local super-freqüentado nas décadas de 60 e 70 por pobres, ricos, desocupados, poetas, craques de bola, cabeças-de-bagre, bebuns, aventureiros, forasteiros, madalhões, garanhões, meretrizes, ases da natação, ginastas, malucos-beleza, desempregados, e por aí vai. Este local foi a nossa Copacabana por muitos anos.”); Igreja do Perpétuo; Avenida Dona Gertrudes; Praça Joaquim José; Avenida Durval Nicolau; Pedra Balão; Estrada da Serra da Paulista; Vista do bar do Peixotinho; Vista da Serra da Mantiqueira; Vista noturna da cidade pra quem chega de Vargem pela Vila 1º de Maio; Cristo Redentor; Morro da Canjica; Rua do Feijão Queimado; Estação Ferroviária; Theatro Municipal; Cemitério; Avenida Tereziano Vallim; Museu.

Bartazá No Conventional and Exotics
Chattanooga; Curva do Marun; Expressinho São João; A beleza inconfundível do novo Terminal Urbano em ”art coqueau” (o indicador pede a leitura em francês); Natação da Esportiva; Risada do Vicente Borges da CBL; Mural do bar do Russo; Banda Dona Gabriela; Bailes Eletrônicos da CSB; Disc-Toc da Mirante FM; Rádio Piratininga; Gols do Titica; Banda Marcial do Chico Preto; Fonte Luminosa; Chaminé da Fiatece; Grêmio Estudantil abaixo da Caixa Econômica; Tênis Kichute vendido no Bertolucci; Televisor Colorado ABC do Rosário Mazzi (a primeira em cores de Sanja); Kombi do Tuzinho; Maverick amarelo do Ozir Gião; Prédio do Changai.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:28 — Arquivado em: Sem categoria

19.7.07

Berinja do Chicão

From and to Mantiqueira
Férias no inverno e aniversário de casamento. Passeio e comemoração.
Onde? Montanha, natureza exuberante, frio, romance, pousadas aconchegantes, comércio bacaninha e alta gastronomia.
Seguindo as dicas de amigos, botei minha charanga na estrada e fui conhecer a charmosa Monte Verde, nas bandas mineiras da Serra da Mantiqueira.
O lugarejo [que é um distrito da cidade de Camanducaia] tem encantos que fazem compensar o acidentado trajeto até lá. Os 30 km. finais da viagem são percorridos numa vereda esburacada, quase intransitável em alguns pontos, que fazem a paulistada rogar por pedágio e asfalto decente. Ouvi de alguns locais que o caminho deplorável é proposital e necessário pra manter as hordas farofeiras afastadas. Sei não…

A ‘berinja’ do Chicão
A eclética oferta culinária monteverdiana [ou seria monteverdense?] faz a festa dos glutões: truta, fondue, sopas, massas, bacalhau, comida caipira e, surpresa!, a berinjela do Chicão.
Fálicos trocadilhos pululam na mente do maldoso leitorado, eu sei. Mas a berinjela, no caso, é no sentido mais, digamos, caçarola da palavra. A berinjela ao forno chega à mesa fumegando e vem coberta com molho de tomate, queijo Catupiry, lascas de bacalhau e mussarela bem gratinada. Fui à Adega do Chicão pra manjar um prato mais montanhês-clichê. Uma truta, talvez. O ibope berinjélico nas mesas vizinhas e o paladar volúvel, no entanto, empurraram-me a escolher esta iguaria dos fogões do Chicão. E, sem medo de ilações infames, a ‘berinja’ do Chicão é de outra galáxia [logo abaixo tem uma foto saborosa da ‘berinja’].

Herói da montanha
E a digestão da comilança desenfreada acontece nas caminhadas por trilhas que levam a paisagens belíssimas. Este proseador, depois de uma hora batendo perna na mata, conheceu a Pedra Redonda [1.990 m de altitude] que, dizem os eco-entendidos, proporciona a mais bela vista de Monte Verde. Por absoluta falta de preparo físico abdiquei de me deleitar com outros horizontes para ratificar a opinião da intelligentsia natureba [logo abaixo tem uma foto panorâmica da vista da Pedra Redonda].

 
Na jornada ecológica conheci um personagem que valeu a minha passagem por este planeta: o Toninho.
Expert em sobrevivência na selva, Toninho é ‘o’ cara. Na montanha ele comandava o passeio de umas dez pessoas do seu clã, e, entre estas, estava até a vovó setentona. Não fosse a liderança protetora do Toninho, qualquer um consideraria uma insanidade botar a vovó para saracotear no bosque.
Abre parêntesis. Investigando a história, descobri que a ida da vovó foi precedida de uma polêmica familiar. Na pousada, durante o desjejum, Toninho detalhou aos seus o roteiro florestal do dia. A assembléia deliberou que seria uma temeridade levar a vovó. “Eu vim pra me divertir, estou bem de saúde e quero ir ao passeio”, sem medo do lobo-mau, bradou a septuagenária em alto e bom som. O murmúrio do contra da casta foi interrompido pelo verbo firme do Toninho: “Eu me responsabilizo, a vovó vai”. E quem ousaria desafiar tal e tamanha autoridade. A vovó foi. Fecha parêntesis.
Ver o Toninho em ação é algo singular. Ele puxa a fila, orienta, dita o ritmo, descobre atalhos, usa o facão com maestria para abrir picadas, distribui água aos sedentos, comida aos famintos, se localiza pela posição do sol, incentiva os mais cansados, acautela os mais afoitos.
Uma orquídea rara prende, por alguns instantes, a atenção do timoneiro. A vovó protesta: “Toninho, cadê você? Estamos caminhando a esmo, sem rumo”. O cabeça se mexe rápido pra retomar o posto. Cai. [Até os mitos caem.] Esfola o joelho. Levanta-se ligeiro e, para alívio geral, põe-se à frente da turba apontando o norte redentor.
Caos aéreo, crise no Senado, corrupção endêmica e outros bichos cabeludos. O país padece de vários males. Lá na gélida Monte Verde, aquecido pela lareira do bangalô, entre conjecturas e vinhos, lamentei a falta de Toninhos nos cargos estratégicos deste Brasilzão [No meu blog NÃO tem foto do Toninho. Nosso herói é avesso à notoriedade. O desenho logo abaixo é bem Toninho no conceito].



No YouTube
Em tempo: e tem guia turístico macaúbico no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=T9oW02Hy6Y4

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    0:11 — Arquivado em: Sem categoria

15.7.07

From and to Mantiqueira

Férias de inverno e aniversário de casamento!!!
Descansar e comemorar onde?
Frio, romantismo, natureza e boa mesa. Isso tudo e muito mais tem em Monte Verde, MG.
O frio, com temperaturas noturnas menores que 10ºC, é o clima ideal para o namoro e para desfrutar da excelente gastronomia do local.
E, detalhe, Monte Verde também é abençoada pela Serra da Mantiqueira.

Pedra Redonda: 2000m. de altitude. Show de paisagem!

 

Love is in the air!

Truta com amêndoas!

CLIQUE AQUI E CONHEÇA MONTE VERDE

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    21:51 — Arquivado em: Sem categoria

13.7.07

Sanjices e sandices

Cinéfilo crepuscular tem santo forte. Depois de muitas preces esta Sanja ganha o “Cineclube Beloca”.
Aquele filme iraniano, aquela película tailandesa, aquele documentário ucraniano, enfim, aquelas projeções sem apelo comercial terão o seu espaço cá no pé da Mantiqueira. Botem os óculos de acetato, vistam aquela camiseta underground e posem de intelectual. A “Mostra Macaúbica de Cinema Alternativo” vem aí.
Loas aos idealizadores do projeto, vivas aos culturetes abnegados.
Rendo minhas homenagens a todos e, oportunista, pego carona e palpito sobre a criação de outras comunidades nestes terrões da Dona Beloca.
E antes da sandice palpiteira, um serviço: o cineclube está no sítio http://www.cineclubebeloca.com.br 

Confraria dos Amantes do Pito Caipira – Sei que alguns medalhões do JJ Park vão torcer o nariz para a idéia. Paciência. Baforadas num legítimo cubano são para poucos abastados. Nestas plagas de capiaus, de botocudos, o prazer está no fumo de corda enrolado num canudinho de palha. A confraria poderia se reunir para as tragadas numa tapera qualquer da fazenda Gerivá.

Grêmio dos Apreciadores da Canjebrina – De novo a torcida contra do PIB mantiqueiro. Se eles se esbaldam com scotch doze anos e vinho da Borgonha, a plebe dos súditos sânjicos sorve hectolitros da mais pura branquinha. Que, muitas vezes, nem é tão pura assim. E, evocando os mais tradicionais alambiques sanjoanenses, é claro que o grêmio vai ser batizado de “Cabral Marcondes”. A tradição pede, ainda, que a turma se reúna para uns goles nas ruínas da finada cachaça cabralina, lá na estrada de Pinhal.

Sociedade dos Amigos do Bauru – É pública e notória a vocação baurueira da mesa crepuscular. Lombo, queijo e tomate no pão francês é um sanduba-lenda destas bandas. Os finados bares do Formiga e Canecão consolidaram a iguaria nos hábitos locais. Colombo, Sid, Russo, Nosso Bar, entre outros, perpetuam o bauru nos seus cardápios e na alma da cidade. A sociedade, claro, faria a degustação memorialística semanal na Letra Viva [numa gentil oferta do Hélio Gatti], onde reinou durante muitos anos a chapa suja do Jorge em seu inesquecível Bar Canecão.

Congregação dos Fanáticos por Sorvete de Macaúba – Os devotos do exótico néctar gelado, uma criação genial da dona Angelina que sobrevive há décadas na Dom Pedro 2º, formam uma legião espalhada por todos os cantos do país, quiçá do mundo. A congregação teria o condão de aglutinar os entusiastas esparsos e, num segundo momento, normatizar as condições ideais para o consumo. Ex: temperatura, diâmetro da colherinha, consistência da casquinha, duração da lambida, etc.

Concílio dos Simpatizantes da Avenida Tereziano Vallim - Um patusco escriba lavrou certa feita: “Encravada no coração da cidade tem a extensão de dois quarteirões. Este pequeno espaço público que, pelo tamanho, não deveria ser mais que uma rua, recebe o prefixo de avenida. Avenida Tereziano Vallim. O seu charme e a sua localização privilegiada justificam esta deferência na nomenclatura. Afinal, poucos logradouros públicos podem ser, ao mesmo tempo, centrais na localização e agradáveis no habitar.” O verbo claro do simpatizante dispensa outras apresentações para o concílio. E é claro que as reuniões seriam permeadas por naftalinas de saudosismo e por pragas proferidas contra a invasão comercial. E onde dar-se-ia a reunião nafta-praga? Não respondo. Queima de tão óbvio.

As nossas
A província também quer eleger as suas sete maravilhas. Sanja tem encantos pra dar e vender. Pode ser lugar, pessoa, comida, qualquer referencial, vivo ou finado, crepúsculo-macaúbico. Contribuições para o e-mail: laurobb@terra.com.br

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    0:11 — Arquivado em: Sem categoria

5.7.07

Incensos macaúbicos

Amaury Júnior é aquele colunista televisivo que recebe polpudos jabás para adular artistas, socialites e medalhões do PIB. O cara faz publicidade e promoção em embalagem de entrevista. Não seria exagero tachá-lo de embusteiro.
Cá nas plagas mantiqueiras, este escriba, em alguns casos, até pode ser carimbado como impostor, mas seus logros não valem um vintém para promover nada nem ninguém. Nem sorvete de macaúba eu ganho.
A (boa) história a seguir relatada, portanto, não oculta nenhum dinheiro espúrio. Ela é contada apenas e tão somente pela riqueza do enredo e pelas raízes crepusculares. E sem impostura, no máximo uma ou outra licença poética.

Nascido às margens do Jaguari, pupilo da Vera Gomes e outros mestres do bom e rígido Instituto de antanho, Martinho foi um infante-adolescente que gostava de recreações eqüestres. E antes que maldosos façam ilações infames, informo que a recreação era bem ortodoxa. Montaria convencional e só.
O canudo universitário veio em 1983. O neo-agrônomo foi ganhar os primeiros caraminguás pesquisando a ferrugem da folha do café. Trabalho digno, mas monótono e pouco palpável.
Fugindo da bioquímica ferruginosa maçante, o crepuscular conseguiu um estágio numa produtora de comerciais. Viagens, glamour e locações exóticas. Numa destas, o crepuscular passou a noite no topo de um arranha-céu da Paulista com duas modelos dançando nuas ao som de música new age. As tomadas eram feitas de um helicóptero.
Noutras, Martinho cruzou com um patuá de celebridades: contou piadas para o Chico Anysio, carregou o sofá da Hebe, gargalhou com a Nair Bello, bateu bola com o Pelé e cheirou lança-perfume com a Rita Lee…
O Tietê malcheiroso, as piadas já sem graças do Chico Anysio e um português repetitivo empurraram o macaúbico para a Londres do Tâmisa, do Mr. Bean e do inglês pouco explorado. Em dois anos no reino de Beth Segundona, o rapaz latino-americano lavou e serviu pratos. Até a grama sagrada de Wimbledon ele cortou.
Enjoado do chá das cinco e outras pontualidades, o intrépido viajante fez um tour pelo Velho Mundo, dos bistrôs parisienses às tulipas de Amsterdan. E o incrível périplo do nativo de Sanja ainda teve uma esticada até o longínquo sudeste da Ásia. Até fondue de vulcão em Java ele comeu.
Voltou para o Brasil e voltou para o glamour da publicidade. Por pouco tempo. As modelos cheias de curvas que dançaram nuas agora eram anoréxicas nas passarelas da São Paulo Fashion Week. O mundinho do Amaury Júnior perdera a graça.
“Chamado” a andejar pela Espanha, Martinho percorreu os 800 km do Caminho de Santiago de Compostella e descobriu o real sentido da vida. Martinho jura que nunca leu Paulo Coelho e nem foi influenciado por ele. [Até o fechamento deste post não consegui apurar a veracidade do juramento.]
E o real sentido da vida é Sanja, macaúba, buscar água na Prata, chope no Tekinfin e outros hábitos do “beloca way of life”.
Rememorando os múltiplos aromas de incenso do Caminho, nosso herói procurou a resina perfumada em terras tapuias. Nada.
Da frustrada busca nasceu uma idéia, da idéia um projeto, e do projeto a Milagros, uma empresa que se orgulha de ser genuinamente sanjoanense.
A Milagros já é um sucesso importando, beneficiando e fragmentando as substâncias aromáticas. O sucesso é inconteste.
Agora só falta a cereja no bolo. Agora só falta o selo “AUTHENTIC OFFICIAL CREPUSCULAR”.
E o selo virá com um perfume revolucionário. Batinas serão sacudidas e o alto clero vai embarcar num frisson com o novíssimo “Macaúba Gold Fragrance”.

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Polêmica
Russos e libaneses polemizam nas páginas d’O MUNICIPIO sobre o ‘bola ao cesto’ na Esportiva. Falta-me tempo e competência para apurar quem está com a razão.
Mas não posso me omitir. Desde o Palmeirinha dos anos 70/80 eu não vibrava tanto com um escrete crepuscular. Ter um time competitivo num certame de projeção nacional é fundamental para a identidade da cidade. E é mais importante ainda para a molecada, que recebe altas doses de estímulo para a prática esportiva.
E tanto melhor se esse time tiver, por menor que seja, um vínculo com um clube tradicional. Ganha o clube, ganha o time, ganha o esporte, ganha a cidade.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:48 — Arquivado em: Sem categoria

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Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.