Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

8.6.07

Bráulio Flácido

O MUNICIPIO, 6/6/2007: “A Delegacia de Investigações Gerais, comandada pelo delegado Fernando Zucarelli, prendeu João Alberto Lorenzini, de 50 anos, por falsificação de remédios , no último dia 4. Após receberem inúmeras denúncias de que ele estaria comercializando remédios falsos em sua residência, os policiais da DIG, munidos de mandado de busca domiciliar, foram até o local.”

Bráulio Flácido é um sujeito tomado pela indignação. Ele foi uma das vítimas do malfeitor muambeiro que vendia Viagra falsificado por estas bandas crepúsculo-macaúbicas.
Inconsolável, Bráulio missivou a este proseador para contar o seu drama. E, compadecido, o escriba cede a sua tribuna para a comovente narrativa. Vai Bráulio, conta pra gente.

“Palmira é uma viúva balzaca que luta com a vida pra criar os filhos. Ela ganha o pão vendendo roupas numa loja popular, com o perdão da redundância, da Ademar de Barros. Embora sofrida com as cacetadas do mundo, a mulher está enxutíssima.
Há alguns meses, procurando uma camisa bordô para bailar no arrasta-pé do Chico Cachoeira, caí de amores pela Palmira. Ela me fez ver que uma calça branca seria o melhor ‘composê’ para a camisa bordô. Saí da loja com a camisa bordô, com a calça branca e com uma paixão rubra pela vendedora.
Pernas bambas, boca seca e coração acelerado. Era só pensar na Palmira que eu era invadido pelo furor do sentimento. E dá-lhe clichê! Sou um assumido sentimentalóide lugar-comum.
Os cronistas de antanho carimbariam um ‘mulher direita’ na testa da Palmira. E como ela resistiu à minha corte. Despejei nela a pesada artilharia da conquista: rosas vermelhas, bombons licorosos, sorvete de macaúba, tele-mensagens, ursinhos de pelúcia ‘I love you’ e outras artes da clicheria do amor. Ela agradecia gentilmente os mimos, mas não baixava a guarda. Êta mulher difícil!
Uma colega de trabalho entregou que a virtuosa padecia de avícola fraqueza: frango com quiabo. E foi com a proposta do galináceo enquiabado que consegui levá-la ao restaurante do Dilino.
O Dilino é velho amigo de pescarias e, avisado dos galanteios, caprichou no serviço. Teve taça, vinho de Andradas, guardanapo de pano e, de sobremesa, manjar de coco.
Semanas depois, no baile do Rosário, consegui tascar finalmente um beijo na belezura. O beijo e o perfume almiscarado me embarcaram em aterrorizantes alucinações libidinosas.
E aqui abro o parêntesis do mix excitação com pavor: depois que uma vagabunda —descobri tarde demais que seu apelido era Fafá Mandíbula— me mordeu lá com uma força descomunal, fui acometido daquilo que os especialistas chamam de disfunção erétil. Trocando em miúdos, tenho dificuldade em armar barracas. Fecha parêntesis.
Ter a Palmira sob os lençóis seria uma questão de dias. O Juca da padaria, sabedor da minha moléstia e da alcova iminente, me indicou um meliante que mercadejava uns milagorosos comprimidos azuis. Com as pílulas, segundo ele, o espetáculo duraria horas.
—Debaixo da lona vigorosamente armada, o espetáculo vai ser longo e nada monótono: malabares, trapézio, até o globo da morte você vai conseguir fazer.
Equipado com cartelas da força medicamentosa, peguei uma grana emprestada e levei a Palmira para o show na Mansão dos Nobres.
Engoli duas drágeas para chegar até o globo da morte.
O cenário: Sidra Cereser, incenso, lençóis limpos, espelhos, luz de velas, trilha sonora by Wando.
Palmira: lingerie de renda, bouquet de almíscar, salto alto, batom vermelho e máscara de gatinha.
Eu: cueca de oncinha, máscara do Zorro, Viagra paraguaio e morte na praia.
Choro. Choro no varejo por vacilar com a Palmira. Choro no atacado por que carrego o fardo de uma existência permeada por frustrações.”

ps: Querido Bráulio, não serve de consolo mas atenua, ouça as sábias palavras do mestre Xico Sá: “Tempos chatos estes da felicidade química a qualquer custo. Como diz uma amiga, linda afilhada de Balzac, hoje em dia as mulheres não sabem mesmo se são o motivo daquele sexo inspirado ou se tudo não passa de mais um milagre da pílula.”

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    2:27 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por Marcelo, a pedido do Duña que não tem computador nem e-mail — 8.6.07 @ 16:30

    A vítima foi por demais incauta. Ou era anarfa. No malfadado comprimido azul, ao invés de Pfizer, lia-se Pfaia. Isso é que dá fazer ouvidos moucos à sabedoria popular e descrer dos testosterônicos poderes da infusão macaúbica com lascas finas de mortadela de cavalo - prescrita por 9 entre 10 pretos velhos, benzedeiras e assemelhados nos rincões crespusculares e adjacências.

    Assinado: o Duña.

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