28.6.07
Sortudo e virtuoso

Renan é um homem de sorte. Nasceu num humilde clã no agreste alagoano e hoje é presidente do Senado da República.
Renan é um sujeito abençoado pelo destino. Quando entrou na vida pública contou ao Leão ser um humilde proprietário de um Fusca e de uma humilde morada nas periferias de Maceió. Hoje, entranhado no ‘pudê’, apartamentos, fazendas e caminhonetes compõem a parte mais visível de uma fortuna estimada em 10 milhões de reais. E eu seria injusto se atribuísse o vultoso salto patrimonial só a benção do destino. Renan fez por merecer: foi um poupador magnânimo, viveu uma vida espartana, cheia de privações, guardou 90% do salário, e, recompensado, comemora a fortuna amealhada com tanto sacrifício.
Renan é um provedor generoso. Sucumbe às tentações da carne, fornica com “mocinhas ingênuas”, bota mais gente no mundo, mas, pelo mais puro espírito cristão, não deixa ninguém desamparado. O senador boa alma bota 12 paus por mês na conta da teúda.
Renan é um pecuarista com pedigree “Globo Rural”. Seu rebanho, que pasta nas Alagoas de aftosas, exibe fecundidade superior a dos melhores produtores do país.
Renan é um político agraciado por amizades desinteressadas. Na alcova caliente não há espaço para chatices financeiras. Quem cuidava dos envelopinhos monetários para a amante era o Claudinho, amigo fiel, menino leva-e-traz, que só por acaso é lobista de uma empreiteira que adora uma teta pública. Ah!, a alcova caliente, que recebe a fria alcunha de flat, também por acaso, era propriedade do Claudinho. Êta amigão! Paga a carne e ainda empresta a churrasqueira!
Renan é dotado de raro poder persuasivo. Percebendo que seus pares ameaçavam abandoná-lo, lançou toda sorte de petardos persuasivos. A imprensa tendenciosa chama maldosamente estes recursos de ameaças e chantagens. Pura maldade. Quem conhece a retórica do alagoano sabe que ele convence pelo gogó. E só pelo gogó.
E neste poço de virtudes que é o senador Renan Calheiros, o escriba não pode deixar de incluir o seu bom gosto nas seletivas pré-alcova. Clinton se enrolou com uma Mônica bem mal-ajeitada, já Renan…
Folhinha pálida
Xico Sá, genial mais uma vez, desta vez em loas às mulheres que não resistem a um bom torresmo:
Nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto, paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida com sustança. Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes, sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma, sábado à tarde, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do possível.
Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura. Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um banquete nada platônico.
Época chata essa. As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface. E haja rúcula!
A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, uma massa, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um barreado, um bife à milanesa, um torresmo decente, uma costela no bafo.
Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ”Os Desajustados”, quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida.
Além do prazer de vê-las comendo, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser mais nervosas, dão mais trabalho em casa ou na rua, barraco à vista, dê-erres sem fim… Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito.
Às fogazzas, aos pastéis, aos cabritos assados e cozidos, ao sanduíche de mortadela, ao lombo, de lamber os lábios, ao chambaril, ao churrasco de domingo para orgulho do cunhado, que capricha na carne e sabe a arte de gelar uma cerva de primeira. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga de garrafa, último tango do agreste…
O importante é reabrir o apetite das moças, pois, repito, senhoras e senhores, homem que é homem não sabe sequer —nem procura saber— a diferença entre estria e celulite.
ps: Manteiga de garrafa, o último tango do agreste. É ou não é a definição mais formidável de todos os tempos? [E como é formidável escrever formidável.]
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
23:38 — Arquivado em: 



