11.5.07
Latarias capengas e cidadãos omissos

Lá de cima, senhor de tudo e todos, o Homem apontou para o Palio branco e decretou: “Laurão, ainda não chegou a sua hora.”
A providência divina nos poupou —eu, Josi e Laurinho— de um fim trágico, mas não de testemunhar o sinistro que ceifou a vida de um outro pai de família.
Passava pouco das seis da tarde e voltávamos de um passeio pelos shoppings de Campinas. Na altura do Posto Chaparral, na rodovia São João-Aguaí, uma picape surge veloz na minha traseira, o condutor tira pra pista da esquerda e me ultrapassa. Ultrapassagem feita e, respeitando as regras de tráfego, o motorista leva o carro de volta para a faixa da direita para, poucos metros adiante, encontrar a morte na traseira de um caminhão carregado de lenha, que transitava sem farol ou qualquer tipo de iluminação. A pancada foi atroz e o óbito instantâneo. Cena aterradora: carro avariado, um homem sem vida e música em alto volume que insistia nos alto-falantes do cd player.
José Paulo Manzini, casado, pai de um menino de três anos, não vai conhecer seu outro filho —a esposa está grávida de poucos meses. Agrônomo, ele trabalhou o sábado todo e regressava ao encontro dos seus para churrasquear em comemoração ao aniversário da cunhada. José Paulo ficou na estrada.
Ficou na estrada pela estupidez do caminhoneiro —muito provavelmente ele transportava madeira ilegal— que botou na estrada um veículo sem as mínimas condições de transitar com segurança. A falta do farol pode até ter sido proposital, pois, segundo conhecidos da polícia civil, transportadores de madeira clandestina optam pelas trevas para não chamar a atenção da fiscalização.
Óbvio que a responsabilidade principal da tragédia é do criminoso condutor do caminhão que, com o perdão da força de expressão, deveria ser fuzilado e esquartejado em praça pública. Aos patrulheiros de plantão, repito: força de expressão.
Polícia Rodoviária e concessionária —Renovias— também têm sua parcela de culpa pela fiscalização falha que favorece a circulação quase impune destas latas velhas semeadoras de desgraças.
Também nós, usuários de rodovias, somos um pouco culpados por desastres do tipo. Não foram poucas as vezes que cruzei com veículos sem as mais comezinhas condições de circular. E o que fiz? Quase nada. No máximo inofensivas buzinadas e/ou sinais de luz.
Todos viajamos munidos de telefones celulares e, ao nos depararmos com estas armas em forma de veículo, deveríamos acionar a polícia, o bispo, o Papa, qualquer um que tenha o poder de apreender as latarias capengas.
Vou importunar o Chefe Celestial com algumas orações: agradecer pela integridade da minha família, pedir pelo descanso eterno da alma do José Paulo e pedir muito, mas muito mesmo, para ser um cidadão menos omisso.
PS: O impacto emocional de testemunhar o funesto acontecimento foi tal e tamanho que justifica o intervalo momentâneo no habitual verbo leve e pândego.
Pecado
E falando em omissão, a fiscalização municipal desta plaga crepuscular está sendo negligente com o patrimônio público e com os direitos dos pedestres. Em horários de missas e casamentos, o passeio público que circunda a Catedral vira um escandaloso estacionamento. Aqui é Brasil e providências deverão ser tomadas quando um transeunte for atropelado ou quando o calçamento de pedra portuguesa começar a afundar.
Em semana de bênção papal, o signatário deste blog lembra aos incautos que desleixo com a segurança do próximo e descaso com o bem público implica na não concessão de visto para os jardins do paraíso.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
1:41 — Arquivado em: 

Comentário por Marcelo Pirajá Sguassábia — 11.5.07 @ 11:58
Rapaz, que triste. E que alÃvio por vocês estarem bem. Parabéns pelo texto, que todo mundo certamente assina embaixo.
Abraços macaúbicos!
Comentário por Luis Pio — 11.5.07 @ 12:35
Lorão,
excelente texto de utilidade pública… concordo que somos omissos em muitas coisas, e essa omissão nos torna culpados por muitas irregularidades que vemos diariamente.
Sei que seus textos seguem veias cômico-satÃricas, mas ficaria muito feliz se vc intercalasse textos de denúncia como esses. Prepare-se, pois a pancada deve ser maior, já que denúncia pesa mais que piada, mas estou com vc para “aguentar o tranco”.
Um grande abraço,
Luis
Comentário por José Ricardo Noronha — 11.5.07 @ 14:49
Oi Lauro,
Mais um belo texto, que infelizmente desta vez retrata apenas um dos muitos absurdos que aprendemos a conviver de forma tão passiva no Brasil.
Graças a Deus que vocês estão bem!
Abraços,
José Ricardo
Comentário por Hediene Zara — 17.5.07 @ 16:04
Maldito caminhoneiro! Avisei pra ele que era o Palio e não a picape!!
Isso que dá contratar caipira analfabeto pra fazer esse tipo de serviço. Da próxima vez tentaremos com explosivos.
(rs)
Como Deus é bom, hein Lauro?
Hediene Zara