Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

3.5.07

Duque do Jaguari

Do rei

Montado na grana, assessorado por bons advogados e com um poder hipnótico de persuasão, o rei Roberto Carlos conseguiu proibir a impressão e comercialização da biografia não-autorizada “Roberto Carlos em Detalhes”, lavrada pelo historiador e fã Paulo César de Araújo, e editada pela Planeta Editora. RC acha que detalhes tão pequenos são coisas muito grandes pra esquecer. Não podem ser esquecidos e nem gravados em livro, reza a doutrina robertocarlista.
A Folha retratou o clima da audiência e os dotes artísticos do magistrado:
“Paulo César de Araújo, que saiu da audiência chorando, reclamou do clima de confraternização nos momentos que sucederam a assinatura do acordo, na última sexta. Ele conta que o juiz Tércio Pires e os promotores tiraram fotos com Roberto Carlos, e o juiz ainda teria entregue a ele, ao cantor e aos representantes da editora Planeta uma cópia do CD ‘Pra Te Ver Voar’, em que canta com o nome artístico de Thé Lopes. ‘Vi meu livro sendo queimado nesse cenário surreal’, diz. O juiz disse à Folha que a entrega do CD foi um gesto de ‘pacificação’: ‘Já fiz isso em outras audiências de conciliação. É uma forma de parabenizar pelo acordo, tanto que dei o CD a todas as partes’.”
RC proibiu o livro, entre outras coisas, por se incomodar com a narrativa do acidente que lhe amputou uma das pernas e, ainda, por não gostar da exposição pública da sua vida amorosa.

 

Do plebeu

Sem um puto no bolso, cheio de dívidas, auxiliado por estagiários meia-colher e incapaz de convencer uma criança de quatro anos, o escriba não conseguiu impedir a publicação da biografia não-recomendada “Lauro Augusto, Tenho Pena da Minha Pena”, cuspida e escarrada num trabalho conjunto da Clineida Jacomini e do Marcelo Sguassábia, e editada pela Crepúsculos Macaúbicos Books and Foods. O cronista destas plagas acha que a pequenez da sua história não vale meia garrafa de tubaína. “Marcelo e Clineida escrevem bem pra chuchu, mas quero proibir o livro pra não manchar a biografia deles com uma obra tão pífia e desprovida de sentido. Tem muita Fanta Uva por aí pra eles se preocuparem com reles guaraná de segunda”, declara Lauro.
O MUNICIPIO retratou o qüiproquó jurídico:
“Marcelo Sguassábia estava exultante com a vitória no tribunal: ‘Abomino qualquer tipo de censura, mas abomino mais ainda contas bancárias minguadas. Dona Ana Maria, mãe do infame biografado, nos pagou, e pagou bem, pra que escrevêssemos a historinha do filho. Pelo contrato, só vamos botar a mão na bufunfa quando a brochura ficar exposta na vitrine da Letra Viva. O juiz, santo homem, ao sentenciar pela não-proibição deu contribuição inestimável para clarear trevas proibitórias. Mas, devo confessar, contribuição mesmo ele deu para a nossa saúde financeira. Há mais de ano que tô pendurado no cheque especial. Vai ser um alívio.’ Reclusa em sua aprazível propriedade rural, Clineida não quis falar ao jornal. Empregados da fazenda dão conta que nunca viram a patroa em tão alto astral.”
Corre nas esquinas desta Sanja que a justificativa auto-depreciativa do proseador não cola. Ele, segundo a voz crível das ruas, quis frustrar a publicação para não ver revelada sua patética e malograda tentativa de instituir um micro principado nestas bandas caipiras. Lauro, incentivado por um séquito de puxa-sacos, se auto-proclamou “Duque do Jaguari”. Pesquisas em periódicos locais dos anos 80 ensinam que o levante foi sufocado por uma milícia republicana comandada pelo Beto Vitamina e pelo Paulão Jibóia.

Da Folha


Companheira diária desde a adolescência, ela é produto de um homem que combinava a arguta visão empresarial com um fervor inarredável pelos princípios basilares do bom jornalismo. Fanático, como ele mesmo dizia, pelo espírito crítico, plural e apartidário, Octavio Frias de Oliveira fez da Folha o maior e mais influente veículo de mídia impressa do país.
Lula, FHC, Serra, Marta e Kassab. A foto dos cinco juntos no velório do Frias é o retrato perfeito da pluralidade que o publisher sempre abarcou no jornal.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:38 — Arquivado em: Sem categoria

Reverência

O artigo abaixo reproduzido é melhor que a obra toda do escritor. Não gosto da literatura do Paulo Coelho, mas sou obrigado a reverenciar a defesa ferrenha que ele faz da absoluta liberdade de expressão.

O que é "contexto desfavorável"?

PAULO COELHO

Folha de SP, 2/5/2007

TENHO UMA grande admiração por Roberto Carlos -recentemente, um dos mais importantes programas da BBC Radio me perguntou a lista de cinco discos que eu levaria para uma ilha deserta, e incluí um dos seus. E, apesar dos problemas normais decorrentes de uma relação profissional, tenho um grande respeito pela editora Planeta, que publica minhas obras no Brasil e em vários países de língua espanhola.
Dito isso, é com grande tristeza que leio nos jornais que, na 20ª Vara Criminal da Barra Funda, em São Paulo, os advogados do cantor Roberto Carlos e da editora Planeta fizeram um acordo que prevê a interrupção definitiva da produção e comercialização da biografia não-autorizada "Roberto Carlos em Detalhes", do jornalista e historiador Paulo Cesar Araújo. O editor diz um disparate para salvar a honra, o cantor não diz nada e o autor fica proibido de dar declarações a respeito. E estamos conversados.
Estamos conversados? Não, não estamos, e tenho autoridade para dizer isso. Tenho autoridade porque, desde que publiquei meu primeiro livro, tenho sido sistematicamente atacado.
Creio que qualquer pessoa em seu juízo normal sabe que, a partir do momento em que sua carreira se torna pública, está exposta a ter sua vida esquadrinhada, suas fotos publicadas, seu trabalho louvado ou enxovalhado pelos críticos. Isso faz parte do jogo e vale para escritores, políticos, músicos, esportistas. Nem sempre essas críticas são justas e, muitas vezes, descambam para ataques pessoais.
Recentemente, um jornalista da mais importante revista brasileira disse que "Paulo Coelho não é apenas mais um mau escritor: seu obscurantismo é nocivo. Não se deve perdoá-lo pelo sucesso". Não sei o que estava propondo com essa frase, e não me interessa. Poderia alegar que minha honra está sendo atacada, que me acusa de ser um perigo para meu país, que deseja que eu seja preso. Mas vejo essas diatribes com outra ótica: elas fazem parte do jogo. A única coisa que não faz parte do jogo é a calúnia, e, pelo que me consta, isso não foi tema da ação judicial que levou à proibição de "Roberto Carlos em Detalhes".
Até hoje, desde que publiquei "O Diário de um Mago", há 20 anos, vi milhares de críticas negativas, mas apenas duas ou três calúnias a meu respeito, graças a Deus. Não me dei ao trabalho de contra-atacar porque não achei que valia a pena, embora me reserve esse direito se algo muito sério acontecer. Recentemente, em um jornal espanhol de primeiríssima linha, simplesmente inventaram uma resposta a uma pergunta a que havia me recusado responder. Claro, enviei uma carta ao diretor, e o jornalista teve que arcar com as conseqüências.
Estou pronto para defender minha honra, mas não vou perder um minuto do meu dia telefonando para um advogado e procurando saber o que faço para defender minha vida privada, já que ela não mais me pertence.
Diz o velho ditado: "Quem está no fogo é para se queimar". Eu acrescento: Quem está no fogo é para ajudar a fogueira a brilhar mais ainda. Não adianta o meu editor declarar que fez o acordo "porque o contexto era desfavorável". Ele precisa vir a público explicar qual é esse contexto -ou seja, se estamos falando de calúnia. Neste caso, tem meu apoio integral, pois calúnia é sinônimo de infâmia. Mas, caso contrário, está colaborando para que comece a se criar um sério precedente -a volta da censura.
Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da "invasão de privacidade" já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs.
Também continuarei sendo editado pela Planeta, pois temos contratos assinados. Mas insisto: gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de "contexto desfavorável".
Desfavorável é fazer acordo a portas fechadas, colocando em risco uma liberdade reconquistada com muito sacrifício depois de ter sido seqüestrada por anos a fio pela ditadura militar.
E não entendo por que você, Paulo Cesar Araújo, "se comprometeu a não fazer, em entrevistas, comentários sobre o conteúdo do livro no que diz respeito à vida pessoal do cantor" (Ilustrada, 28/4). Não é apenas o seu livro, cujo destino foi negociado entre quatro paredes, que está em jogo. É o destino de todos os escritores brasileiros neste momento.
Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:25 — Arquivado em: Sem categoria

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