Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

24.5.07

Densidade

Literatos desta Sanja foram acometidos por um surto coletivo.
A Academia de Letras, num acesso de vareio, deliberou que uma das cadeiras da soberba Casa vai ser ocupada por este modesto escriba crepuscular.
Já que me falta categoria para tal distinção, vou seguir os conselhos do publisher do centenário jornal, dr. Joaquim, que sugeriu ao escriba textos mais densos. Mestre Houaiss ensina que ‘denso’ no sentido literário é “rico, intenso em conteúdo; profundo do ponto de vista intelectual ou emocional”.
Agora, acadêmico, vou atrás da lavra espessa —ainda bem que a polpa da macaúba é bem encorpada. Lá vai.
Assunto denso da semana: Zuleido Veras. E antes de falar do próprio, vamos abraçar o clamor do denso gozador, Zé Simão, que quer a identificação imediata dos responsáveis pela escolha do nome do construtor. Concordo. Batizar um vivente de Zuleido enseja cana perpétua —‘reclusão ad eternum’ soaria mais denso—, quiçá um paredão.
Nos bastidores do Parlamento, o empreiteiro Zuleido Veras, dono da Gautama, é um popstar. O poder de nutrir contas bancárias lhe confere um notável “carisma”. Paraibano, o empresário enjaulado —‘encarcerado’ soaria mais denso— pela Operação Navalha circulava com desenvoltura pelo underground político de Brasília. Com um bigode vistoso e visual cafajeste, ganhou a alcunha de "Charles Bronson do Nordeste", numa alusão ao ator de filmes de ação. Naquele triste fim dos anos 80, quando a trupe collorida se aboletava em Brasília, Zuleido começou sua carreira como o principal executivo da empreiteira OAS.
Políticos, empresários, socialites, proxenetas e outros bichos, lembram que, no reino collorido, Zuleido tinha íntima ligação com o empresário —‘pandilheiro’ soaria mais denso— Paulo César Farias, o PC, para quem teria prestado “bons” serviços. Seu nome chegou a ser citado informalmente —‘off the records’ soaria mais denso— na CPI que investigou o esquema PC.
Na época, Zuleido começou a se aproximar de políticos influentes e integrantes do então governo. Depois de uma atuação considerada heterodoxa —‘mafiosa’ soaria mais denso— pela cúpula da OAS, o empresário paraibano foi convidado a tomar outros rumos e, já conhecedor dos atalhos do dinheiro fácil, fundou a sua própria maquininha de sugar as tetas do Estado em 1995: a Gautama, nomeada assim em homenagem ao príncipe indiano Sidarta Gautama, o Buda. Como a maquininha tinha o condão de mamar com vigor em diversas fontes, Zuleido fez fortuna rápida através de contatos estratégicos, propinas aos borbotões e obras públicas superfaturadas.
Segundo os bem informados, a Gautama já administra um patuá de obras federais e de governos estaduais que somam mais de bilhão de reais. Para conseguir a liberação desses recursos públicos, Zuleido demonstra apatia ideológica. Não fere suscetibilidades, não tem coloração partidária, é generoso nos mimos, enfim, é um "homem de negócio" que se relaciona com diversos políticos e diversas legendas.
Zuleido, como todo novo-rico —‘emergente’ soaria mais denso—, é um homem que gosta de “superfaturar” seus feitos. Adora pantomimar: "Ali eu mando".
E, em alguns casos, manda mesmo.

Na Vila do Sapo
Futuros colegas da confraria dos letrados, leitores, amigos, empresários, políticos, proxenetas e outros bichos, espero que essa minha pífia tentativa de trafegar por matérias mais densas seja solenemente ignorada. Resisti heroicamente a botar o Zuleido superfaturando macaúbas no entorno do Pedregulho. Resisti mas não desisti. Na próxima, não só faço isso como também entrego que o Zuleido tem uma amante nestas bandas mantiqueiras: ela se chama Elisa, é uma morena quarentona, bem cuidada e cheia de curvas, e recebe Zuleido numa alcova lá no baixo Santo André, ou Vila do Sapo, como prefere o populacho.

Primeira tribuna
Em meados dos anos 90, O MUNICIPIO foi a tribuna do meu primeiro texto publicado. Depois, soltei o verbo em outros púlpitos. Ser eleito para a Academia no momento em que assino coluna semanal no jornal, santa macaúba!, tem um significado pra lá de especial.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    22:39 — Arquivado em: Sem categoria

Novos confrades

Clovis Vieira e eu: novos na confraria dos letrados

 

Trecho da matéria d’O MUNICIPIO de 23/5/2007, de Alex Balestero:

"Na tarde do sábado, dia 19 de maio, a junta apuradora da Academia de Letras de São João da Boa Vista reuniu-se numa sessão especial para contagem dos votos que elegeram cinco novos acadêmicos. Para fazer parte da Academia de Letras de São João os interessados devem ser convidados por um integrante da entidade, que passa a ser como um “padrinho”, quando ele for eleito.

O mais votado para fazer parte do seleto grupo foi o colaborador do jornal O MUNICIPIO, Clovis Vieira, que obteve 27 votos. Lauro Augusto Bittencourt Borges, também colaborador do bi-semanário, como colunista, foi indicado com 26 votos.

Junto a outros três membros, Antonio Carlos R. Lorette (ex-colaborador do jornal), com 26 votos; a pratense Luiza Dezena, com 26 votos; e João Otávio Bastos Junqueira, 24 votos, eles tomarão posse na nova composição da Academia dia 16 de junho."

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    19:46 — Arquivado em: Sem categoria

18.5.07

Aplicação Sorvética

Neste espaço de prosa galhofeira, o escriba fez troça quando da vinda de George Bush ao Brasil. Na lavra “O combustível macaúbico”, o texto “viajou” sobre a aterrissagem do norte-americano em plagas crepusculares atrás da energia da macaúba. E não é que o verbo pândego tinha lá um naco de verdade.
Sim, macaúbicos orgulhosos, encham o peito, berrem pra todo mundo ouvir: há tempos pesquisa-se a fabricação do biodiesel a partir da macaúba.
Recomendo o orgulho, sim, mas fiquem com um pé atrás [desçam alguns parágrafos e saibam o porquê].
Diego Mendes, em reportagem gelada e saborosa na última edição d’O MUNICIPIO, entrevistou um engenheiro agrônomo, Rogério Salviani, que revelou as experiências energéticas com o coquinho gosmento.
Louvo a ciência, mas muito cá pra nós, acho que a humanidade tem mais a ganhar com macaúba no sorvete do que empurrando carros mundo afora. Ando a pé, mas não abro mão do paladar exótico.
Chávez e Fidel, mais por política do que convicção, andam por aí esperneando contra o modismo do etanol. Diz a dupla de tiranos latinos que o aumento de terras destinadas ao cultivo da cana fará com que a fome atinja níveis nunca vistos no planeta.
Nunca levei a sério as patacoadas dos dois, mas agora a coisa é comigo. Compro uma passagem para Havana e faço passeata em Caracas se a macaúba sumir das casquinhas pra ficar só com motores.
Conclamo os crepusculares espalhados pelo planeta a aderir ao Movimento em Defesa da Aplicação Sorvética da Macaúba.
O Movimento se reunirá pela primeira vez no domingo, 10 da manhã, lá na sorveteria da D. Pedro II. Fidel e Chávez não vêm, mas enviarão representantes. Os presentes ganharão um kit composto de camiseta, apito e máscara da Dona Angelina.


Efeito contrário
A preguiça de um sedentário —que precisa malhar toda noite para emagrecer e caber num terno— faz parar por aqui as indignações macaúbicas. Josi me disse que o exercício físico libera no organismo uma substância estimulante. Sei não, mas acho que comigo o efeito é inverso.
Como a lingüiça tem que ser enchida, vamos enchê-la com o melhor da crônica tupiniquim. Vai Xico, vai Xico Sá, conta pra nós quem é o bicho simples e besta:

 
“Das tragédias masculinas a cegueira pelo futebol sempre foi a mais grega e incompreensível por parte das mulheres. A loucura ludopédica é paixão sem medida, sem luz, enviesada, carregada de todas as trevas, capaz de fazer a criatura trocar um romântico cinema-de-mãos-dadas por uma pelada qualquer, debaixo de chuva, mesmo que seja contra o Íbis, considerado, amigas, vejam só, o pior time do mundo, mesmo que a donzela não acredite que isso seja humanamente verossímil. Não há miséria maior para a alma masculina do que o apego aos onze semelhantes que o defendem na mais épica das batalhas. O grito fanhoso de gol que vem de lá dos porões de todos os canteiros de obras, do fundo da mais suja das pensões de Santa Cecília, São Paulo, ou do sótão onde morei na Barão de São Borja, no Recife de todas as dores de amores emparedadas. Domingos capazes de derrotar o mais brutamontes dos homens, o mais seco, o mais sem emoção, o mais sem sangue nas veias. É, amigas, não há tragédia mais incompreensível do que a devoção por aqueles marmanjos suados tentando acertar o barbante inimigo. Embora algumas mulheres curtam também futebol e já tenham decifrado até a lei do impedimento, não há fêmea que compreenda essa nossa linda infantilidade. Meus Deus!, como o homem é um bicho simples e besta.” (texto surrupiado do blog: http://carapuceiro.zip.net/)

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    0:30 — Arquivado em: Sem categoria

11.5.07

Latarias capengas e cidadãos omissos

Lá de cima, senhor de tudo e todos, o Homem apontou para o Palio branco e decretou: “Laurão, ainda não chegou a sua hora.”
A providência divina nos poupou —eu, Josi e Laurinho— de um fim trágico, mas não de testemunhar o sinistro que ceifou a vida de um outro pai de família.
Passava pouco das seis da tarde e voltávamos de um passeio pelos shoppings de Campinas. Na altura do Posto Chaparral, na rodovia São João-Aguaí, uma picape surge veloz na minha traseira, o condutor tira pra pista da esquerda e me ultrapassa. Ultrapassagem feita e, respeitando as regras de tráfego, o motorista leva o carro de volta para a faixa da direita para, poucos metros adiante, encontrar a morte na traseira de um caminhão carregado de lenha, que transitava sem farol ou qualquer tipo de iluminação. A pancada foi atroz e o óbito instantâneo. Cena aterradora: carro avariado, um homem sem vida e música em alto volume que insistia nos alto-falantes do cd player.
José Paulo Manzini, casado, pai de um menino de três anos, não vai conhecer seu outro filho —a esposa está grávida de poucos meses. Agrônomo, ele trabalhou o sábado todo e regressava ao encontro dos seus para churrasquear em comemoração ao aniversário da cunhada. José Paulo ficou na estrada.
Ficou na estrada pela estupidez do caminhoneiro —muito provavelmente ele transportava madeira ilegal— que botou na estrada um veículo sem as mínimas condições de transitar com segurança. A falta do farol pode até ter sido proposital, pois, segundo conhecidos da polícia civil, transportadores de madeira clandestina optam pelas trevas para não chamar a atenção da fiscalização.
Óbvio que a responsabilidade principal da tragédia é do criminoso condutor do caminhão que, com o perdão da força de expressão, deveria ser fuzilado e esquartejado em praça pública. Aos patrulheiros de plantão, repito: força de expressão.
Polícia Rodoviária e concessionária —Renovias— também têm sua parcela de culpa pela fiscalização falha que favorece a circulação quase impune destas latas velhas semeadoras de desgraças.
Também nós, usuários de rodovias, somos um pouco culpados por desastres do tipo. Não foram poucas as vezes que cruzei com veículos sem as mais comezinhas condições de circular. E o que fiz? Quase nada. No máximo inofensivas buzinadas e/ou sinais de luz.
Todos viajamos munidos de telefones celulares e, ao nos depararmos com estas armas em forma de veículo, deveríamos acionar a polícia, o bispo, o Papa, qualquer um que tenha o poder de apreender as latarias capengas.
Vou importunar o Chefe Celestial com algumas orações: agradecer pela integridade da minha família, pedir pelo descanso eterno da alma do José Paulo e pedir muito, mas muito mesmo, para ser um cidadão menos omisso.

PS: O impacto emocional de testemunhar o funesto acontecimento foi tal e tamanho que justifica o intervalo momentâneo no habitual verbo leve e pândego.

Pecado
E falando em omissão, a fiscalização municipal desta plaga crepuscular está sendo negligente com o patrimônio público e com os direitos dos pedestres. Em horários de missas e casamentos, o passeio público que circunda a Catedral vira um escandaloso estacionamento. Aqui é Brasil e providências deverão ser tomadas quando um transeunte for atropelado ou quando o calçamento de pedra portuguesa começar a afundar.
Em semana de bênção papal, o signatário deste blog lembra aos incautos que desleixo com a segurança do próximo e descaso com o bem público implica na não concessão de visto para os jardins do paraíso.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    1:41 — Arquivado em: Sem categoria

3.5.07

Duque do Jaguari

Do rei

Montado na grana, assessorado por bons advogados e com um poder hipnótico de persuasão, o rei Roberto Carlos conseguiu proibir a impressão e comercialização da biografia não-autorizada “Roberto Carlos em Detalhes”, lavrada pelo historiador e fã Paulo César de Araújo, e editada pela Planeta Editora. RC acha que detalhes tão pequenos são coisas muito grandes pra esquecer. Não podem ser esquecidos e nem gravados em livro, reza a doutrina robertocarlista.
A Folha retratou o clima da audiência e os dotes artísticos do magistrado:
“Paulo César de Araújo, que saiu da audiência chorando, reclamou do clima de confraternização nos momentos que sucederam a assinatura do acordo, na última sexta. Ele conta que o juiz Tércio Pires e os promotores tiraram fotos com Roberto Carlos, e o juiz ainda teria entregue a ele, ao cantor e aos representantes da editora Planeta uma cópia do CD ‘Pra Te Ver Voar’, em que canta com o nome artístico de Thé Lopes. ‘Vi meu livro sendo queimado nesse cenário surreal’, diz. O juiz disse à Folha que a entrega do CD foi um gesto de ‘pacificação’: ‘Já fiz isso em outras audiências de conciliação. É uma forma de parabenizar pelo acordo, tanto que dei o CD a todas as partes’.”
RC proibiu o livro, entre outras coisas, por se incomodar com a narrativa do acidente que lhe amputou uma das pernas e, ainda, por não gostar da exposição pública da sua vida amorosa.

 

Do plebeu

Sem um puto no bolso, cheio de dívidas, auxiliado por estagiários meia-colher e incapaz de convencer uma criança de quatro anos, o escriba não conseguiu impedir a publicação da biografia não-recomendada “Lauro Augusto, Tenho Pena da Minha Pena”, cuspida e escarrada num trabalho conjunto da Clineida Jacomini e do Marcelo Sguassábia, e editada pela Crepúsculos Macaúbicos Books and Foods. O cronista destas plagas acha que a pequenez da sua história não vale meia garrafa de tubaína. “Marcelo e Clineida escrevem bem pra chuchu, mas quero proibir o livro pra não manchar a biografia deles com uma obra tão pífia e desprovida de sentido. Tem muita Fanta Uva por aí pra eles se preocuparem com reles guaraná de segunda”, declara Lauro.
O MUNICIPIO retratou o qüiproquó jurídico:
“Marcelo Sguassábia estava exultante com a vitória no tribunal: ‘Abomino qualquer tipo de censura, mas abomino mais ainda contas bancárias minguadas. Dona Ana Maria, mãe do infame biografado, nos pagou, e pagou bem, pra que escrevêssemos a historinha do filho. Pelo contrato, só vamos botar a mão na bufunfa quando a brochura ficar exposta na vitrine da Letra Viva. O juiz, santo homem, ao sentenciar pela não-proibição deu contribuição inestimável para clarear trevas proibitórias. Mas, devo confessar, contribuição mesmo ele deu para a nossa saúde financeira. Há mais de ano que tô pendurado no cheque especial. Vai ser um alívio.’ Reclusa em sua aprazível propriedade rural, Clineida não quis falar ao jornal. Empregados da fazenda dão conta que nunca viram a patroa em tão alto astral.”
Corre nas esquinas desta Sanja que a justificativa auto-depreciativa do proseador não cola. Ele, segundo a voz crível das ruas, quis frustrar a publicação para não ver revelada sua patética e malograda tentativa de instituir um micro principado nestas bandas caipiras. Lauro, incentivado por um séquito de puxa-sacos, se auto-proclamou “Duque do Jaguari”. Pesquisas em periódicos locais dos anos 80 ensinam que o levante foi sufocado por uma milícia republicana comandada pelo Beto Vitamina e pelo Paulão Jibóia.

Da Folha


Companheira diária desde a adolescência, ela é produto de um homem que combinava a arguta visão empresarial com um fervor inarredável pelos princípios basilares do bom jornalismo. Fanático, como ele mesmo dizia, pelo espírito crítico, plural e apartidário, Octavio Frias de Oliveira fez da Folha o maior e mais influente veículo de mídia impressa do país.
Lula, FHC, Serra, Marta e Kassab. A foto dos cinco juntos no velório do Frias é o retrato perfeito da pluralidade que o publisher sempre abarcou no jornal.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:38 — Arquivado em: Sem categoria

Reverência

O artigo abaixo reproduzido é melhor que a obra toda do escritor. Não gosto da literatura do Paulo Coelho, mas sou obrigado a reverenciar a defesa ferrenha que ele faz da absoluta liberdade de expressão.

O que é "contexto desfavorável"?

PAULO COELHO

Folha de SP, 2/5/2007

TENHO UMA grande admiração por Roberto Carlos -recentemente, um dos mais importantes programas da BBC Radio me perguntou a lista de cinco discos que eu levaria para uma ilha deserta, e incluí um dos seus. E, apesar dos problemas normais decorrentes de uma relação profissional, tenho um grande respeito pela editora Planeta, que publica minhas obras no Brasil e em vários países de língua espanhola.
Dito isso, é com grande tristeza que leio nos jornais que, na 20ª Vara Criminal da Barra Funda, em São Paulo, os advogados do cantor Roberto Carlos e da editora Planeta fizeram um acordo que prevê a interrupção definitiva da produção e comercialização da biografia não-autorizada "Roberto Carlos em Detalhes", do jornalista e historiador Paulo Cesar Araújo. O editor diz um disparate para salvar a honra, o cantor não diz nada e o autor fica proibido de dar declarações a respeito. E estamos conversados.
Estamos conversados? Não, não estamos, e tenho autoridade para dizer isso. Tenho autoridade porque, desde que publiquei meu primeiro livro, tenho sido sistematicamente atacado.
Creio que qualquer pessoa em seu juízo normal sabe que, a partir do momento em que sua carreira se torna pública, está exposta a ter sua vida esquadrinhada, suas fotos publicadas, seu trabalho louvado ou enxovalhado pelos críticos. Isso faz parte do jogo e vale para escritores, políticos, músicos, esportistas. Nem sempre essas críticas são justas e, muitas vezes, descambam para ataques pessoais.
Recentemente, um jornalista da mais importante revista brasileira disse que "Paulo Coelho não é apenas mais um mau escritor: seu obscurantismo é nocivo. Não se deve perdoá-lo pelo sucesso". Não sei o que estava propondo com essa frase, e não me interessa. Poderia alegar que minha honra está sendo atacada, que me acusa de ser um perigo para meu país, que deseja que eu seja preso. Mas vejo essas diatribes com outra ótica: elas fazem parte do jogo. A única coisa que não faz parte do jogo é a calúnia, e, pelo que me consta, isso não foi tema da ação judicial que levou à proibição de "Roberto Carlos em Detalhes".
Até hoje, desde que publiquei "O Diário de um Mago", há 20 anos, vi milhares de críticas negativas, mas apenas duas ou três calúnias a meu respeito, graças a Deus. Não me dei ao trabalho de contra-atacar porque não achei que valia a pena, embora me reserve esse direito se algo muito sério acontecer. Recentemente, em um jornal espanhol de primeiríssima linha, simplesmente inventaram uma resposta a uma pergunta a que havia me recusado responder. Claro, enviei uma carta ao diretor, e o jornalista teve que arcar com as conseqüências.
Estou pronto para defender minha honra, mas não vou perder um minuto do meu dia telefonando para um advogado e procurando saber o que faço para defender minha vida privada, já que ela não mais me pertence.
Diz o velho ditado: "Quem está no fogo é para se queimar". Eu acrescento: Quem está no fogo é para ajudar a fogueira a brilhar mais ainda. Não adianta o meu editor declarar que fez o acordo "porque o contexto era desfavorável". Ele precisa vir a público explicar qual é esse contexto -ou seja, se estamos falando de calúnia. Neste caso, tem meu apoio integral, pois calúnia é sinônimo de infâmia. Mas, caso contrário, está colaborando para que comece a se criar um sério precedente -a volta da censura.
Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da "invasão de privacidade" já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs.
Também continuarei sendo editado pela Planeta, pois temos contratos assinados. Mas insisto: gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de "contexto desfavorável".
Desfavorável é fazer acordo a portas fechadas, colocando em risco uma liberdade reconquistada com muito sacrifício depois de ter sido seqüestrada por anos a fio pela ditadura militar.
E não entendo por que você, Paulo Cesar Araújo, "se comprometeu a não fazer, em entrevistas, comentários sobre o conteúdo do livro no que diz respeito à vida pessoal do cantor" (Ilustrada, 28/4). Não é apenas o seu livro, cujo destino foi negociado entre quatro paredes, que está em jogo. É o destino de todos os escritores brasileiros neste momento.
Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:25 — Arquivado em: Sem categoria

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