26.4.07
Não basta ser pai…

Chuva, quatro no lombo e outras intempéries
Duda Mendonça, antes de se envolver com malufagens trapaceiras e petralhagens espúrias, era só um publicitário talentoso tentando fazer o melhor no seu ofício. Lá nos anos 80, ele cunhou um bordão pra vender a pomada Gelol. O slogan caiu na boca do povo e virou ditado: “Não basta ser pai, tem que participar.”
Um pai participativo, é o que este proseador peleja para ser. E, no Manual do Pai Participativo, uma das regras pétreas assim reza: “Levar o filho, antes que ele complete 15 anos, ao estádio e, in loco, assistir a uma partida do time do coração. Se residir em cidade diversa da do clube de estima, a citada idade pode ser prorrogada para 18 anos.”
Sou tricolor do Murumba, moro em plagas crepusculares e, por isso, uso a ressalva da norma para não ser tachado de genitor relapso.
Meu rebento tem 17 e, sábado último, fomos ao Morumbi para ver o São Paulo se classificar para a finalíssima do Paulistão. O São Caetano não metia medo e bastava a igualdade no placar para decidirmos o campeonato.
O valente Uno —o pequeno carro levou cinco marmanjos— do meu amigo Fred rasgou a Bandeirantes e, ao chegar às marginais da Paulicéia, um São Pedro irritado prenunciava uma tarde-noite molhada. Molhada e trágica, descobriríamos horas mais tarde.
No pré-jogo nosso bolso padece de algumas despesas: trinta paus de estacionamento, cinco mangos por uma capa que nos protege da irritação do Pedrão e mais cinco por um sanduba de calabresa. Enquanto eu, Laurinho e Fred nos deleitávamos com a lingüiça cheirosa, saborosa e pouco recomendável —a sabedoria popular alcunhou o lanche de “Jesus Me Chama”—, Vlad e seu cunhado norte-americano, Nick, fugiram do odor apetitoso e das bactérias, e encheram o bucho com pão puro. Sem graça, sem gosto.
E vamos para o cotejo. Jogando pelo empate, o escrete pó-de-arroz bota banca e Ilsinho, num tiro certeiro de fora da área, estufa a rede e faz os tricolores acharem que a chuva é só para compor um cenário épico para a vitória. Antes do fim da primeira etapa, num cochilo da zaga sãopaulina, o Azulão empata. Mas o empate ainda era nosso.
Que venha o segundo-tempo. E veio de um jeito, digamos, traumático. De cabeça, 1×2; com chapéu humilhante, 1×3; driblando até o goleiro, 1×4. De doer.
Quatro no lombo e pés encharcados fazem a trupe caipira suplicar pelo apito final. E ele vem junto com a fumaça aromática dos espetinhos de “gato”. Os ambulantes sabem como aguçar o apetite da massa famélica. E quem resiste? Até o estômago asséptico do Vlad encara a carne sebosa. Aquela cuja gordura gruda no céu da boca. Atenuamos a raiva da derrota com um acém de quinta.
Na volta, um pit-stop no Frango Assado nos trouxe de volta ao mundo da comida decente. O galináceo no espeto não decepciona, mas fica anos-luz longe do paladar de um petisco de rua.
Saldo sabático: ossos embolorados pela ira úmida do Pedrão; queda quádrupla dentro de casa, um pai participativo e um filho traumatizado; uma comilança inconseqüente; uma noite de sono interrompida por pesadelos azuis e por aquilo que os puritanos chamam de desarranjo intestinal.

A torcida pó-de-arroz "encapada"
Dos deuses

Ainda prazeres à mesa. Tem iguarias que extrapolam o simples gostar. Nesta Sanja de acepipes mil, o escriba confessa seu fetiche por quindim. E cá nos Crepúsculos quindim tem nome e telefone: Cynira, 3633-5839. Quem ligar vai provar o melhor “amarelinho” do planeta. Dos deuses!!
Na feira

Xico Sá, gênio, grafou no seu blog: “Nada melhor que uma mulher que acabou de chegar da feira. Sacola na mão, fome de viver, sorriso de princesa. Os vendedores de frutas, peixes e verduras são mestres na arte de reconhecer talentos e animar as moças com os seus adjetivos. Adjetivos às pencas, elogios às dúzias, mimos, dizeres, samba exaltação, graças. Meia hora de uma mulher na feira vale mais do que um mês de análise, do que a onda de orientalismos tantos do mercado, do que a yoga, do que o mestre japonês das agulhas, do que uma banheira de sais, do que um dia na Oscar Freire…”
A feira dominical crepuscular também é uma festa. Qualidade em sabores e cores a um preço justo. Virei fã.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
23:22 — Arquivado em: 



Luis Nassif e Antonio Candido, vira e mexe, reverenciam a beleza da mulher crepuscular. Leitora envia mensagem ao escriba revelando o simpático carimbo das beldades macaúbicas.
