22.3.07
Luiz e Fernando

Fernando: Há quinze anos não entro aqui. Tenho saudade.
Luiz: Vem cá, Fernando, me dá um abraço… (se abraçam longamente com os olhos marejados)
Fernando: Peraí! Por que você tirou a bergère de couro vermelho do lado leste? Ali, ao lado da janela, ela ficava tão bem, pegava o sol fresquinho da manhã. Entre uma audiência e outra, bons tempos!, adorava sentar lá pra ler.
Luiz: A Galega prefere a berge…, a poltrona longe da janela. Ela diz que o sol judia do couro.
Fernando: Sei não… e a persiana de juta?
Luiz: A Galega não gosta de coisa fibrosa. Ela fala que junta ácaro e que é ruim pra limpar. Mandamos botar essa de plástico mesmo.
Fernando: Sei não…
Luiz: Mas você não veio aqui pra falar de decoração. E as coisas, como estão?
Fernando: (abre um sorriso) Voltei para a corte. Estou feliz, não posso negar. Mas ainda não é tudo. Quero voltar pra cá, redecorar este palácio, sentar de novo naquela cadeira da qual eu fui violentamente extirpado.
Luiz: Fernandoooô! Não força a barra. Você não tá num palanque. Você caiu por não mimar o Congresso. Deputado gosta de afago e das burras abertas. O alagoano do bigode aprontou muito, eu sei. Mas se você fosse mais, digamos, carinhoso com a base aliada, tenho certeza, o topetudo de Minas nunca teria assado pão de queijo aqui.
Fernando: Pois é… Mas sabe do que eu mais gostava na época? Eu não botava a mão em maçaneta alguma. E nem carregava nada. Sempre tinha um aspone pra carregar maletas e abrir as portas.
Luiz: O poder é realmente sedutor. Também gosto muito. Sabe que dia destes eu curei uma insônia com uma rabada com polenta às três da matina. Liguei na cozinha e falei para o mordomo: “se vira que o bucho do presidente não pode ficar vazio”.
Fernando: Mas vamos voltar a falar sério: tenho que tirar o chapéu pra sua habilidade com o Congresso. A arca delúbia, a farra mensaleira e as genuínas tramóias fazem do alagoano de bigode um frade capuchinho.
Luiz: Também não precisa exagerar. Agora, vamos e venhamos, um governo que tem uma ministra da Economia que dança bolero com o Bernardo Cabral e depois se casa com o Chico Anysio, ô mau gosto!, não poderia ter ido muito longe. E falando nisso, quando a Marta me disse que ia dar um pé no Eduardo pra se agarrar com um argentino milongueiro, eu repeti a mesma exclamação quando a Zélia lhe falou do Bernardo.
Fernando e Luiz (em coro): Nitroglicerina pura!!
O impensável
Josias de Souza, no seu blog: “Espantosa a época atual. Tudo se diz. Tudo se faz. E nada inspira um ponto de exclamação. Nesta quarta-feira Fernando Collor de Mello foi recebido por Luiz Inácio Lula da Silva. E o que disseram um do outro? Ladrão pra lá, corrupto pra cá… Ora, o dito ficou por não dito. O impensável pediu uma audiência? Pois que venha o impensável. Com fotos.”
Vila Madalena em Sanja
Essa é a proposta do chileno Pablo para o Barbarella. Êta barzinho bacana!
Ambiente charmoso, comida boa, pratos bem apresentados a preço justo. E um atendimento nota 10. Naquele surrado jargão do colunismo social, o local seria adjetivado de “descolado”. (Eu prefiro bacana. Também surrado, mas “bacana” é bacana.)
E tem música ao vivo no volume ideal. Dá pra ouvir o som e papear ao mesmo tempo. E o melhor: ninguém toca sertanejo.
Onde? Campos Salles com a Teófilo de Andrade, bem pertinho da casa do Zé Pedro.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
23:23 — Arquivado em: 

Comentário por Marcelo Pirajá Sguassábia — 23.3.07 @ 12:53
Mais um diálogo imaginário (talvez nem tão imaginário, vai saber) em que o escriba dá show em sua verve irônica. Gostei tb das falas do Zé Alencar. Com aquela cara da foto, ele não diz nada. E em não dizendo nada, ele acaba falando tudo. Como diz o meu tio Jayro, formidável!! :)))
Comentário por José Ricardo Noronha — 23.3.07 @ 20:13
Se tudo não fosse verdade, irônico seria. O duro é que é tudo verdade! Pobre Brasil…
Abraços Lauro!