31.3.07
Norge Nyheter

CLIQUE AQUI E VISITE O BLOG DE UM BRASILEIRO QUE VAI PARA A NORUEGA
O blog é muito bacana, mas por razões genéticas sou suspeito para confetear. Acessem e confiram!!!

CLIQUE AQUI E VISITE O BLOG DE UM BRASILEIRO QUE VAI PARA A NORUEGA
O blog é muito bacana, mas por razões genéticas sou suspeito para confetear. Acessem e confiram!!!
Pensei em responder o post anterior com dose cavalar de ironia cáustica, mas foram tantas e tais as manifestações solidárias, que deixo o contraponto para os leitores. Fala, gente:
“Você deveria ter enviado o endereço desse cidadão que te criticou para que seus muitos fãs pudessem responder a ele que a vida já é séria demais e que um pouco de bom humor só pode fazer bem à alma. Por mim, pode continuar sendo ‘leviano e superficial’ que assim tá bão demais. Sanja agradece!” (LS)
“O talento é coisa rara. Você é uma pessoa rara. Por favor, não pare de escrever suas crônicas, quase sempre bem humoradas, às vezes ácidas, mas sempre brilhantes. A inteligência sempre incomoda a mediocridade. Lauro Borges, o grande escriba desta Sanja crepuscular e maravilhosa!” (CAZ)
“Tome este depoimento reacionário como um combustível extra (pode até ser ‘macaúbico’) para exercer com ainda mais plenitude não apenas a sua cidadania, mas principalmente o seu grande talento como cronista.” (JRN)
“Fiquei verdadeiramente estarrecido, ao ver até onde seu ‘leitor’ vai com seus argumentos. Pelo visto, o mesmo nunca compreendeu o espírito de sua coluna, sua forma de trazer para a ‘realidade’ local, fatos do cotidiano, em forma de crônica bem humorada, e indiscutivelmente inteligente e bem articulada. Continue com suas palavras, que apenas fazem o bem, pois suas crônicas são calorosamente acolhidas pelo períódico, com os festejos de seus leitores cativos.” (EFA)
“Não conheço ninguém que valorize mais a cidade do que você. Através de suas crônicas muito bem humoradas você leva o nome da cidade para outros municípios, projeta São João para o Brasil e para o mundo. Isso só pode ser inveja de alguém que não tem a sua capacidade de escrever. Afirmo, ainda, que o texto do Bush foi, para mim, um dos melhores que você já produziu. O texto é um misto de notícia séria misturada com fantasia e muito humor.” (LGPMJr.)
“A imprensa é livre e o jornal lhe deu esse espaço por merecimento e não para testá-lo como escritor. Acredito ter muitas matérias no jornal, portanto, se o Sr. Críticas não gostou da sua, não a leia. Procure a sessão de quadrinhos, óbitos ou classificados.” (RAL)
“Ufa! Por um minuto acreditei realmente que George Bush dormiu em São João da Boa Vista, comeu mortadela e visitou a Dedini. Se não fosse nosso amigo cidadão para nos lembrar, talvez grande parte da população ainda seria vítima dos ‘terríveis’ boatos que o Lauro anda circulando. Por favor, não mude em nada, pois sua coluna é uma das principais razões para eu levantar de manhã no sábado e ir comprar o jornal na banca.” (JCM)
“Continue sendo o que é. Mudar só se for para melhor. Eu adoro falar Sanja e Sampa, e não há nada de errado nisso. Sua crônica do Bush me fez dar gargalhadas que há tempos não dava e obrigada por isso.” (LC)
“O cara não pode estar falando sério. Se estiver, é o cara mais amargo do mundo. Amargo e desprovido de senso de humor. Você é dos melhores textos da história de SJ, ou Sanja, pra cutucar o sujeito.” (LCRJr.)
“Pelo visto, nosso anacrônico amigo quer transformá-lo numa versão piorada de Amaral Netto, o Repórter. Sendo provavelmente o senhor em questão membro fundador e sócio remido da TFP, encare a crítica como elogio. Abraços solidários deste seu amigo, macaúbico e de Sanja -com orgulho.” (MPS)
“Prefiro pensar que este elemento vem sofrendo de "moleza noturna", e em um destes inúmeros moles momentos resolveu ler a sua coluna. Deu no que deu…” (R)

O sujeito desceu a ripa no escriba. O cara mudou a minha forma de ver o mundo.
Prometo ser mais sério, menos leviano, vou me desculpar com os colegas de jornal, escrever de forma menos “afetada”(?), tentar ser mais engraçado e ser um cidadão na acepção da palavra. Aguardem o novo escriba. Vem aí o maior mea culpa da imprensa crepuscular.
Leiam abaixo e se arrependam comigo.
Prezado Sr. Lauro:
É lamentável constatar que o senhor escreve de forma tão LEVIANA, dizendo tantas coisas distantes da verdade.
Percebe-se que o senhor é um homem de cultura diferenciada, que tem capacidade para escrever de forma articulada. Mas, ao invés de fazê-lo, prefere escrever de uma forma "afetada" , leviana, superficial e irresponsável.
Quando o senhor escreve que o Presidente Bush dormiu em São João da Boa Vista, comeu mortadela, visitou a DEDINI com o Lula o senhor expõe ESTE JORNAL CENTENÁRIO ao ridículo de ser comparado a um jornaléco redigido por colegiais irresponsáveis.
É isto que o senhor deseja para a imagem de nossa cidade ? É isto que o senhor deseja para a imagem deste Jornal que faz parte da história de São João ?
O senhor acredita que procedendo desta forma estará valorizando o trabalho e a imagem de seus colegas que trabalham neste jornal ?
Os colegas do senhor, todos eles, é importante que se diga, trabalham com zêlo e esforço para levar à nossa comunidade as questões importantes que precisam ser debatidas, bem como as cobranças e pressões que precisam ser feitas para que nossas autoridades realmente trabalhem para o bem dos munícipes.
O senhor brinca com coisa séria, a começar pela nomenclatura "SANJA". Nossa cidade tem nome de Santo, tem nome de coisa boa! É um nome gostoso de falar, é um nome simpático, as pessoas de fora gostam de pronunciá-lo. Nossa cidade não merece este tratamento. Nossa gente não precisa ser vítima desta paródia com a cidade de São Paulo, que alguns convencionaram chamar de SAMPA.
Se ao menos o senhor fosse engraçado, mas nem isso o senhor consegue !! O senhor não tem talento para ser um Paulo Francis, procure então contentar-se com o "arroz com feijão", e faça melhor uso deste TEMPO QUE O SENHOR DISPÕE, para fazer algo de bom por nossa cidade.
Como disse, o senhor tem talento e capacidade para escrever melhor, e pode fazê-lo. Tenho certeza que no dia em que o senhor se der conta disto, nossa cidade ganhará um jornalista. Nosso querido e centenário Jornal "O Município" terá matérias que realmente utilizem este espaço para cumprir aquilo que o jornalismo sério se propõe. A saber: promover o debate, a crítica, a reflexão, a cobrança dos direitos do cidadãos de São João da Boa Vista, bem como cobrar a conduta correta destes mesmos cidadãos.
Pare de brincar com coisa séria. Torne-se um CIDADÃO na plenitude da palavra. Valorize o grupo de jornalistas do jornal "O Município", que trabalham com o senhor. Não desonre uma história de mais de 100 anos de serviços prestados à comunidade. Não desrespeite nossa cidade, não desrespeite nossos munícipes.
Isto, é o que respeitosamente lhe peço.

Fernando: Há quinze anos não entro aqui. Tenho saudade.
Luiz: Vem cá, Fernando, me dá um abraço… (se abraçam longamente com os olhos marejados)
Fernando: Peraí! Por que você tirou a bergère de couro vermelho do lado leste? Ali, ao lado da janela, ela ficava tão bem, pegava o sol fresquinho da manhã. Entre uma audiência e outra, bons tempos!, adorava sentar lá pra ler.
Luiz: A Galega prefere a berge…, a poltrona longe da janela. Ela diz que o sol judia do couro.
Fernando: Sei não… e a persiana de juta?
Luiz: A Galega não gosta de coisa fibrosa. Ela fala que junta ácaro e que é ruim pra limpar. Mandamos botar essa de plástico mesmo.
Fernando: Sei não…
Luiz: Mas você não veio aqui pra falar de decoração. E as coisas, como estão?
Fernando: (abre um sorriso) Voltei para a corte. Estou feliz, não posso negar. Mas ainda não é tudo. Quero voltar pra cá, redecorar este palácio, sentar de novo naquela cadeira da qual eu fui violentamente extirpado.
Luiz: Fernandoooô! Não força a barra. Você não tá num palanque. Você caiu por não mimar o Congresso. Deputado gosta de afago e das burras abertas. O alagoano do bigode aprontou muito, eu sei. Mas se você fosse mais, digamos, carinhoso com a base aliada, tenho certeza, o topetudo de Minas nunca teria assado pão de queijo aqui.
Fernando: Pois é… Mas sabe do que eu mais gostava na época? Eu não botava a mão em maçaneta alguma. E nem carregava nada. Sempre tinha um aspone pra carregar maletas e abrir as portas.
Luiz: O poder é realmente sedutor. Também gosto muito. Sabe que dia destes eu curei uma insônia com uma rabada com polenta às três da matina. Liguei na cozinha e falei para o mordomo: “se vira que o bucho do presidente não pode ficar vazio”.
Fernando: Mas vamos voltar a falar sério: tenho que tirar o chapéu pra sua habilidade com o Congresso. A arca delúbia, a farra mensaleira e as genuínas tramóias fazem do alagoano de bigode um frade capuchinho.
Luiz: Também não precisa exagerar. Agora, vamos e venhamos, um governo que tem uma ministra da Economia que dança bolero com o Bernardo Cabral e depois se casa com o Chico Anysio, ô mau gosto!, não poderia ter ido muito longe. E falando nisso, quando a Marta me disse que ia dar um pé no Eduardo pra se agarrar com um argentino milongueiro, eu repeti a mesma exclamação quando a Zélia lhe falou do Bernardo.
Fernando e Luiz (em coro): Nitroglicerina pura!!
O impensável
Josias de Souza, no seu blog: “Espantosa a época atual. Tudo se diz. Tudo se faz. E nada inspira um ponto de exclamação. Nesta quarta-feira Fernando Collor de Mello foi recebido por Luiz Inácio Lula da Silva. E o que disseram um do outro? Ladrão pra lá, corrupto pra cá… Ora, o dito ficou por não dito. O impensável pediu uma audiência? Pois que venha o impensável. Com fotos.”
Vila Madalena em Sanja
Essa é a proposta do chileno Pablo para o Barbarella. Êta barzinho bacana!
Ambiente charmoso, comida boa, pratos bem apresentados a preço justo. E um atendimento nota 10. Naquele surrado jargão do colunismo social, o local seria adjetivado de “descolado”. (Eu prefiro bacana. Também surrado, mas “bacana” é bacana.)
E tem música ao vivo no volume ideal. Dá pra ouvir o som e papear ao mesmo tempo. E o melhor: ninguém toca sertanejo.
Onde? Campos Salles com a Teófilo de Andrade, bem pertinho da casa do Zé Pedro.

A notícia ainda não caiu nas graças da grande mídia. Ainda. Mas nos corredores do mundo científico não se fala em outra coisa.
Nesta busca incessante de alternativas ao petróleo, nesta febre global dos biocombustíveis, exultemo-nos!, o planeta vai reverenciar uma província de majestosos crepúsculos.
Acadêmicos de Sanja estão há anos recônditos num laboratório de pesquisas avançadas, que fica encravado numa pequena propriedade na Serra da Paulista. E o internato de experiências não foi em vão. Dirigentes da UniFAE e UniFEOB —instituições que aportaram dinheiro grosso no projeto—, não cabem em si pelo êxito do trabalho.
O etanol e o biodiesel agora têm nova matéria prima. E uma matéria prima que é um ícone desta cidade: MACAÚBA.
É de matar de orgulho!
Lá nas bandas do norte, equipes de reportagem —BBC e National Geographic, especialmente— já se preparam pra cá aterrissar e revelar ao mundo com quantas macaúbas se faz um litro de etanol.
E as matérias logo vão assim pipocar na imprensa:
Achamos o ponto M, diz o prefeito Nelson
O presidente dos EUA, George W. Bush, disse ontem que o seu interesse no programa da macaúba combustível de Sanja se deve a uma “questão de segurança nacional”.
“Se você depende de petróleo de países de outros continentes, há uma questão de segurança nacional. Depender da energia de outro lugar significa depender das decisões tomadas em outro lugar”, disse ao lado do prefeito crepuscular Nelson Nicolau, ao final da visita à Unidade Piloto de Produção Macaúbica, nas dependências da usina do grupo Dedini.
Nelsinho cobrou a transformação dos derivados da macaúba em commodities, o que facilitaria investimentos e abriria mercados. “É preciso criar as bases para um mercado mundial de energéticos macaúbicos”, disse com ar grave.
“Lá atrás, o presidente Lula fez troça com o ponto G. Ele não achou este e nenhum outro ponto. Nós é que achamos o ponto que vai salvar o mundo: o ponto M”, concluiu em tom apoteótico o alcaide anfitrião.
Bush e Nelson visitaram, também, uma unidade da Sanjaúba, onde serão processados todo mês 25 milhões de litros de biodiesel e etanol macaúbicos. Lá, Bush recebeu uma "aulinha" sobre as etapas da produção de biocombustíveis e do álcool a partir da macaúba.
“A macaúba dá ao Brasil uma imensa vantagem nos mercados mundiais. O coquinho macaúbico é, de longe, o material mais eficiente para a produção de etanol e biodiesel. Eu parabenizo o senhor e a Sanjaúba por estarem na liderança dessa mudança tecnológica”, disse o norte-americano, inflando ainda mais o ego do prefeito Nelson.
A frase foi interpretada pelo reitor da UniFEOB, João Otávio Bastos Junqueira, como um sinal de que, no futuro, as barreiras contra os combustíveis macaúbicos vão naturalmente cair. “A queda de barreiras tarifárias é só uma questão de tempo. Cairão as barreiras como caem as macaúbas do pé.”
Pela UniFAE, o reitor Valdemir Samonetto declarou: “Investimos pesado num projeto que soava meio folclórico. Muitos duvidaram e disseram que o dinheiro seria jogado fora. Hoje, eufóricos, temos a mais macaúbica convicção de que a macaúba provocou uma revolução nas academias de pesquisa.”
E como ninguém é de ferro, ao final do dia de visitas, Bush e sua esposa Laura baixaram lá na rua Dom Pedro 2º e saborearam o delicioso néctar gelado de macaúba. Depois do sorvete lendário, o casal acendeu uma vela em memória da inventora da guloseima, dona Angelina.
Informações não confirmadas dão conta que o presidente norte-americano pernoitou na Mansão dos Nobres, despertou de madrugada na suíte Macaúba Imperial e ordenou aos assessores que procurassem um hambúrguer. Nada acharam de hambúrguer os aspones ianques. O jeito foi pegar um sanduba passado no Paulinho Gaiola. Bush comeu tudo, mandou buscar outro e elogiou: “Little Paul is a good cookman and mortadela is wonderful.”
Confete jogado, virou meio litro de Coca, se aliviou com um assombroso e texano arroto e foi ninar sob o som das águas do Jaguari.

São poucos os viventes que lêem este proseador. Embora pequena, a audiência sempre foi muito eclética. Eclética dentro da raça humana, pensava o cronista.
Engano. A coisa vai longe.
Não imaginava que esse negócio de blog levaria meus textos até outras criaturas.
A propósito da declaração de Lula, num café-da-manhã com jornalistas, dizendo que “ser pingüim é muito difícil, é mais fácil ser gente”, o colunista recebeu um e-mail da Antártida. O signatário, acreditem, é um esclarecido pingüim.
Esta “Sanja em Prosa” é toda sua, meu caro Delfino Pingüino. Fala aí, “Geladinho”:
“Crepuscular escriba, cá na calota polar sul a temperatura cai no sentido inverso do ibope do seu blog. A pingüinzada internética é fanzoca do seu papo macaúbico.
Mas este e-mail não é pra confetes. A “Comuna Pingüina”, o nosso gélido parlamento, ficou estarrecida com a bobagem perpetrada pelo seu presidente. Vida pingüina, reconheço, não é fácil. Mas a humana, tenho fria certeza, é muito mais difícil. Web-pingüino que sou, pesquei na rede algumas notícias pra provar-lhe a minha congelada convicção.
‘Médicos vêem banalização das lipos de pequeno porte’
Nossas fêmeas não têm essa neura de barriga tanquinho, peito turbinado e bunda arrebitada. E eu as acho bem gostosas. O Pitanguy, aqui, pra não morrer de fome teria que montar uma barraca de raspadinha sabor peixe.
‘Sandy e Júnior vão cantar para o papa em São Paulo’
Não consta que o Santo Padre planeje vir a esta imensidão branca. Mas se um dia o fizer, devemos recebê-lo com cantantes de melhor qualidade. A Big Orchestra Pingüina tem repertório pop sem deixar de ser solene. Já se apresentou até para o Amyr Klink.
‘Ladrões deixam 18 sacoleiros seminus em SP’
Certa feita, um bando de corsários pingüinos interceptou pingüinos da sacola que contrabandeavam tilápias do Jaguari. As vítimas não só não foram humilhadas, como foram agraciadas com dois dias de jogatina em Punta del Este.
‘Homem faz casa flutuante na baía de Guanabara e recebe notificação para sair’
Aqui, morar em bloco flutuante de gelo é comum, legal e não tem fiscal pra aporrinhar com notificações.
‘Fernandinho Beira-Mar viaja cinco dias para ouvir duas horas de depoimento’
Bandido, aqui, não viaja às custas do erário. Ou melhor, até viaja, mas pra cumprir pena e não pra depor. Quando o crime é grave, o Tribunal Pingüino manda passar dois meses no agreste pernambucano. O delinqüente volta mansinho que é uma coisa.
‘Corinthians: Leão confirma mudanças, mas não anuncia escalação’
Pra nós, leão é só um grande felino. E esse troço alvinegro que vocês chamam de time, aqui não passa de uma triste piada de mau gosto.
E o Lula vem falar que ser gente é fácil?! Imagina se não fosse…
Atenciosamente, Delfino Pingüino”
NIQUITA E O DIA INTERNACIONAL DA MULHER
por Luiza Nagib Eluf (Folha de S. Paulo, 8/3/2007)
NA INFÂNCIA, passava as férias na casa de meus avós, no interior de São Paulo [aqui em Sanja]. A residência deles ficava na avenida principal, que, tempos atrás, não tinha muito movimento. Da sacada de meu quarto, eu observava carroças, bicicletas, homens a cavalo, alguns carros. Nada muito interessante, a não ser Niquita. Quando ela passava, eu ganhava o dia.
Niquita era uma preta velha, miserável, louca e carismática. Moradora de rua, vivia acompanhada de cachorros vira-latas. Vez por outra, "desfilava" em andrajos bem no meio da avenida, acompanhada dos cães, muito parecidos com ela: esqueléticos, sarnentos, esfomeados, desenganados da vida.
Não sei se Niquita era velha ou moça com aparência de idosa por causa dos maus-tratos, do sofrimento, do abandono, da pobreza. Tampouco sei se era mesmo louca. Diziam que era porque "falava sozinha" o tempo todo. Disparava impropérios, aos gritos, em seu itinerário para lugar nenhum, rodeada da matilha, todos andando juntos, porém sem rumo definido.
Impressionante em Niquita é que ela não passava, apenas. Passava aos berros, vociferando contra tudo e contra todos. Não me lembro do que ela dizia, mesmo porque não conseguia ouvir direito, mas, com certeza, ela tinha razão. Niquita era enfática, decidida, fascinante.
Eu costumava buscar entre parentes e amigos informações sobre essa estranha mulher. Ninguém sabia nada sobre ela, eu só ouvia especulações, suposições. Mas será que nenhuma boa alma se incomodava com a situação de Niquita? De onde ela veio? Por que parecia sempre tão sozinha? O que lhe fizeram para que fosse jogada naquela situação e ficasse indignada, enlouquecida? Ora, diziam-me, ela simplesmente é louca.
Niquita discursava ininterruptamente, sem que ninguém a levasse a sério. Certa manhã, disse todos os palavrões existentes em língua portuguesa, repetidamente, irada. Tanta amargura tinha de ter uma razão. Ou várias. Quis encontrar Niquita, conversar com ela, mas não consegui. Crianças são muito vigiadas e sem autonomia.
Até que Niquita morreu. Foi um choque. Quem contou não tinha detalhes sobre o fato. Onde enterraram Niquita? E os cachorros, alguém iria cuidar deles? Do que ela morreu? Sofreu, estava sozinha?
Jamais consegui dados sobre essa mulher. Talvez algumas pessoas se preocupassem com ela ou mesmo tenham cuidado, um pouco, dela, mas não pude confirmar nada. Assim é a história de muitas mulheres. Sofrimentos, injustiças, reclamações jamais proferidas ou ouvidas.
Sem amparo, sem ajuda, sem respeito, sem amor, sem dinheiro. Pena que não tenham todas saído para a rua, seguidas de seus filhos, seus cachorros, seus bens mais preciosos, gritando impropérios contra a desigualdade social, racial, sentimental, estrutural.
Niquita não era louca. Estava coberta de razão. Não sei, em detalhes, o que aconteceu em sua vida, mas, só de olhar para ela, ficava evidente que não foi nada de bom.
O que fazer quando a dor é grande e a incompreensão é maior ainda?
Embora as mulheres tenham conseguido avançar bastante na conquista de seus direitos, muitas ainda são espancadas dentro da própria casa, estupradas por pais, padrastos, irmãos e tios, assassinadas por maridos, ex-maridos, ex-namorados, desrespeitadas no local de trabalho, humilhadas dentro e fora da família.
E tudo acontece em silêncio, quase sem reclamação. Faltam direitos, como o controle do próprio corpo, equipamentos sociais de amparo à maternidade, salários dignos e equiparados aos dos homens e participação proporcional nas instâncias de poder.
Hoje, revendo o passado, é possível entender por que Niquita impressionava todo mundo: expunha seu infortúnio publicamente, nos moldes de um bloco carnavalesco, e ainda reclamava sem parar, em altos brados, exatamente como se deve fazer.
LUIZA NAGIB ELUF é procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo. Foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça (governo Fernando Henrique Cardoso).

Revirando um papelório velho, achei uma preciosidade datada de 1988. O hilário cartunista Glauco, criador do Geraldão, perpetrou uma charge pra este proseador. Reparem que a arte foi feita no verso de um pacote de cigarros Galaxy. Demais!!
O presente me foi dado pelo saudoso amigo Bernardino Galhardi, conhecido do Glauco.
CLIQUE AQUI E CONHEÇA O GLAUCO E SEUS PERSONAGENS
Carlinhos de Jesus é, hoje, um homem insone. Corre à miúda que ele só pega no sono após algumas drágeas de Dormonid.
Dançarino incensado nos quatro cantos do mundo, o cara anda bem preocupado com o surgimento de um novo “dance-man” nas paragens do interior paulista. Tirando o fato de que o mundo não tem canto, nos backstages dos salões só se fala no furacão baileiro que está pintando por aí.
Ainda não se sabe ao certo maiores detalhes do tão misterioso quanto talentoso sujeito que faz Carlinhos de Jesus vagar sem rumo pelas madrugadas cariocas.
Algumas pistas, no entanto, já começam a pipocar nas revistas de celebridades. A “Caras”, na última edição, traz um intrigante relato:
“Numa província de formosos crepúsculos, onde a caipirada se deslumbra com a verdejante Mantiqueira, um aplicado aluno de dança de salão desponta como a mais nova promessa dos bailes brasileiros. Embora aprendiz na arte, sua ginga e sua técnica acuradíssima fazem do ainda calouro uma das maiores revelações dos movimentos corporais ritmados deste país. E, aproveitando o lulista ‘deste país’, o companheiro barbudo diria que nunca na história deste país houve um dançante como o caipira crepuscular.”
E já que escorregamos pra política, tem coisa mais tucana que “movimentos corporais ritmados”?
Mas voltando aos magazines de fuxicos, a “Contigo” soltou essa:
“Bote num liquidificador o entusiasmo do samba, o meloso sentimentalismo do bolero, a sensualidade do tango e a latinidade fogosa dos ritmos caribenhos. Faça um mix com as sensações da dança de salão. O resultado: um trintão do interior paulista que arrasa quando o assunto é movimentos corporais ritmados.”
“Movimentos corporais ritmados”? De novo? Acho que as redações andam contaminadas pelo verbo tucanês.

Ibrahim Sanjed
Tenho enviado umas notinhas pra coluna da Vera, lá na última página d’O MUNICIPIO. A editora do centenário jornal diz que o meu viés Ibrahim Sued tem dado algum ibope. Sei não, acho que é exagero dela.
Em todo caso, loguinho o Ibrahim Sanjed aqui vai revelar no “Sociais” que o dançante desconhecido é um bancário, roliço, metido a cronista, que se arvora a ter aulas de movimentos corporais ritmados toda noite de quarta no Palmeiras.
E diria o Ibrahim Sued: “Ademam que eu vou em frente. De leve!”