21.2.07
Carnavalescas

Nosso herói e a prole tagarela. A netinha ainda não fala, mas pelo andar da carruagem, não vai negar mãe e tias.

Quatro filhas criadas, mais de trinta anos de profissão e uns quinhentos mil retratos.
Esse seu Wilson é mesmo um herói. Fotógrafo ainda com trânsito em todos os salões desta Sanja, ele já poderia trocar as objetivas pelas varas de pescar.
Mas não, a agenda continua cheia e seus flashes espocam sem parar por aí.
Em casa, seu Wilson é único varão no meio de uma penca de mulheres. De tanto ouvir as eternas aflições da alma feminina, ele perdeu parte da audição.
Esta surdez, segundo o genro chileno, é controversa: “O seu Wilson finge que é surdo. Ele foi torturado por mais de trinta anos pelas cornetas impiedosas do mulherio, e agora, com as meninas encaminhadas, invoca a surdez pra ter um pouco de sossego.”
Além das preocupações cotidianas, seu Wilson encontra tempo pra botar um pouco de verde neste planeta cada vez mais maltratado pelo homem.
Dia destes, ele ornou seu quintal com um formoso pé de chuchu. Melhora o ar poluído do mundo e ainda economiza uns caraminguás na feira. Suas nobres intenções esbarraram na adolescência da filha caçula.
Jovem internética, ela não aceitou que seu quintal fosse tomado pelo hábito retrô de colher o que se come. Não e não!, ela foi taxativa. Hoje é o chuchu, amanhã pode ser uma horta, umas galinhas, quiçá uns porcos. Não!
E o protesto não foi apenas verbal. Naquela fase de superdimensionar os problemas, a menina pegou a mala e buscou asilo na casa da mana mais velha. Não voltaria pra casa enquanto papai não cortasse aquele cucurbitáceo incômodo.
Esse seu Wilson é mesmo um herói. Pra buscar a filha de volta, ele ceifou o cucurbitáceo do quintal. Sua casa ficaria sem o chuchu, mas o planeta não poderia perder o naco de verde.
A sua cota-parte de verde seria reposta com uma muda de mangueira no terreno de outra filha. A árvore frutífera foi plantada bem no meio do lote.
Desnecessário dizer que as rebentas corneteiras novamente estrilaram até a amputação da anacardiácea.
Esse seu Wilson é mesmo um herói. No lugar dele eu também me fingiria de surdo.

Bovinas experiências
Na segunda-feira de Carnaval, o cronista baixou numa aprazível chácara nos arredores desta província e se entregou aos prazeres dos traseiros bovinos —eu disse bovinos. Picanhas gordas, macias, sangrando. Aquelas peças de carne triangulares, acima do bem e do mal, rainhas da grelha.
Horas e horas de apetite voraz e a espécie delibera que o glutão carnívoro não pode ficar impune.
No cair da tarde, o esganado é encurralado por uma vaca enlouquecida. Dada a fúria da mimosa, vi a “viola em caco”.
Sem a espada dos ibéricos toureadores, pálido, pus em riste uma garrafa de Bacardi e, surpresa!, a doidinha foi surtar em outra freguesia.
Qualquer outro menos destemido teria borrado a roupa de baixo.
“Borrar a roupa de baixo”, êta eufemismo!

Cubanas experiências
Divido o apê no exílio com o natureba Tude. Noite destas, o amigo deu pra implicar com minhas baforadas num legítimo cubano.
Respondi que paro com o charuto só se ele extirpar o tofu da geladeira. Em momentos de carência calórica, já me peguei tentado a morder aquele insosso isopor nipônico. Resisti. Imagina se eu mordo, gosto e viro a casaca pra um menu a base de peito de frango, soja e rúcula.
Argh! Vade retro! Xô anemia!
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
22:47 — Arquivado em: 


