No ano todo o trabalhador crepuscular verte o suor para ganhar o pão. No ano todo ele é zeloso pai de família —aos domingos freqüenta as missas matinais na igreja do Perpétuo e almoça na casa da sogra, onde ele jura nunca ter cochilado no sofá nem aberto a geladeira sem permissão. No ano todo ele honra suas obrigações com o Fisco. No ano todo ele administra com segurança a sua pequena indústria que, diga-se, gera um punhado de postos de trabalho na província.
O termo trabalhador usado na primeira linha não é, digamos, no sentido mais operário da palavra. O personagem desta crônica é um trabalhador, sim, mas um trabalhador aboletado numa classe mais abastada. Classe média alta, para usar o jargão das estatísticas que pululam por aí.
Esta retidão cinzenta, este comportamento irretocável, esta probidade insuspeita, enfim, esta virtude em forma de homem sofre um pequeno abalo no Réveillon.
E este abalo virou tradição pessoal no também tradicional “Réveillon da dona Salma”. O impoluto cidadão é habituè no evento, onde a esposa lhe concede uma espécie de salvo-conduto pra barbarizar. Ela fica na mesa, comportada, enquanto ele agita. E como agita!
Este escriba poupa uns caraminguás o ano inteiro para também, intruso entre medalhões do PIB, passar a virada na chácara Villa Salma. E lá no Réveillon dos bacanas, testemunhei in loco as estripulias do virtuoso.
A morena passa num provocante vestido colado que deixa as curvas em evidência e as costas nuas. Nosso amigo não perdoa e, num ridículo idioma neném, sapeca: “’Totosa’! ‘Totosona’! Você é muito ‘totosa’, viu. Vem ‘blincá’ com o neném”.
Para um conhecido mamado, que o abraça com uns tabefes ardidos nas costelas, e faz juras de se encontrarem com mais freqüência durante o ano, ele devolve: “Você vem falar comigo quando estiver são, de cara limpa. Larga de ser cretino, hipócrita. Cruzo com você na rua, no banco, em restaurantes, toda hora vejo essa carinha-de-pau. Você finge que nem me conhece. E agora vem com essa conversinha de se encontrar mais. Vai tomar um café forte, ô ‘pudim’ de cachaça. Vaza que eu quero ver é mulher bonita.”
A siliconada-botocada-oxigenada-chapeada passa, olha, faz beicinho, e ele fuzila mais um vil galanteio: “Oi ‘loilinha’, sabe ‘qui’ você é muito ‘bunitinha’. ‘Loilinha’ miau, gatinha, vai miar no meu quintal. Rimou! Você ‘gotô’? ‘Gotô’ do meu ‘versinho’?”
Os banheiros estão ocupados e ele com a bexiga cheia. E daí. Num cantinho ermo, as plantinhas da dona Salma são regadas com um vigoroso jato de mijo. Quem urina o ano todo, se concede o direito de mijar no Réveillon.
Sid Bê, o tucano crepuscular que horas mais tarde tomaria posse como secretário de Estado, também foi vítima do lambanceiro de ocasião: “Beraldo, ô Beraldo, você tá fodido de trabalhar com o Serra. O homem é louco, não dorme. Ele vai te ligar de madrugada pra perguntar o nome do rio que corta Divinolândia. Você tá ó —faz um gesto obsceno— ferrado, fodido e mal pago.”
“Deixa o homem trabalhar”, Sid Bê retruca.
“E deixa o homem aqui farrear”, fala em tom de galhofa, solta uma gargalhada e sai pelo salão com os indicadores em riste, como um folião embalado pelas marchinhas de antanho.