8.12.06
Pijamas
“Pendurar as chuteiras ou vestir o pijama? Para os craques do futebol, as chuteiras penduradas não chegam a ser um símbolo. São uma decorrência. Com a idade, elas terão de ser penduradas em algum canto ou jogadas fora. O pijama é mais útil. Metáfora doméstica que caía bem aos militares, juízes e aposentados em geral. Bem verdade que os pijamas estão fora de moda, eles se dispersaram em estranhas variantes. Tenho um amigo que dorme com uma espécie de saiote havaiano. Há gosto para tudo. Quando falo em pijama, falo em pijama mesmo, aqueles listrados, com alamares e bolsos, ambos inúteis. Era comum, nos anos mais antigos do passado, ver senhores de pijama, sentados em cadeiras de vime, nas calçadas das ruas residenciais. Nem todos eram aposentados. O funcionário, o comerciante, o homem posto na vida chegava em casa, colocava o pijama, era uma forma de descansar, de avisar a todos que o expediente fechara, nada se solicita a um homem empijamado, ele não está obrigado a nada, não pode ser cobrado nem pressionado, o pijama o isola da faina humana, dele só se espera que vá para dentro e durma, durma bem e, mais cedo ou mais tarde, durma para sempre. Lembro seu Almeida, meu vizinho na infância, que tinha uma sapataria na rua Camerino. Voltava para casa no mesmo bonde, viajava sempre no primeiro banco, atrás do motorneiro. Ao cair da tarde, já estava de pijama, podava algumas plantas no jardim e se postava na calçada, de pernas cruzadas, como um mandarim empobrecido, mas digno. Uma tarde, ele não foi visto de pijama na calçada. No dia seguinte, sim, viram seu Almeida de pijama, na rua, batendo de porta em porta, avisando que o mundo ia acabar. Levaram-no para o hospício, de pijama mesmo. Mas, na última hora, ele fez questão de botar um terno. Ia a trabalho, provavelmente abrir a sapataria da rua Camerino.”
Cony grafou o acima entre aspas, e este escriba lavra o abaixo, sem a mesma maestria, mas com alguns temperos da província.
O homem posto na vida dos tempos atuais, ao chegar em casa, não mais coloca o pijama. Nesta torturante febre de culto ao corpo, ele farda-se com um agasalho esportivo e tênis, e corre pra academia onde vai verter litros de suor naqueles aparelhos esdrúxulos. Os empijamados de antanho recarregariam suas baterias com costelas de porco e pudim de leite condensado, ao contrário destes sarados moderninhos que se satisfazem (argh!!) com rúcula, soja e gelo.
Voltando ao pijama, hoje também durmo com estranhas variantes —camiseta e cueca—, mas, na infância, já tive vários do modelo tradicional, todos confeccionados pela minha avó Fiuca. Não me esqueço de um, antológico, marrom com bolinhas brancas e cheio daqueles bolsos inúteis. Era tão confortável quanto horrível.
Os desavisados devem estar se perguntando: por que cargas d’água o cronista ocupa este precioso espaço no jornal pra falar de pijama?
Embora não seja obrigado, explico: no weekend em Sanja, empijamado e descompromissado das convenções do mundo, não me peçam nada porque não estou obrigado a nada. Aliás, nem explicações devem ser solicitadas a um empijamado. Como disse o genial Cony parágrafos acima, o pijama isola o homem da faina humana. Estou isolado, estou empijamado, estou feliz.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
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