30.11.06
Lagoa e Cecap
Carlos Heitor Cony, cosmopolita, imortal, saiu na varanda do seu apê na Lagoa e lavrou:
“Tomei conhecimento de que em Campione, na Itália, os cobras em matéria de astros estiveram reunidos num convescote científico e moral. Li as conclusões a que chegaram os doutos -e cito alguns deles: o ex-astrólogo de Fellini, o oráculo da nobreza inglesa, a ex-modelo da Chanel Elisabeth Tessier Du Cros, a maga famosa na França, por aí afora. Bem verdade que senti falta de Paulo Coelho nessa seleção de sábios esotéricos, mas nem tudo é perfeito neste mundo regido por forças além da nossa vã filosofia. Fiquei informado do que precisava. Há alguns anos que sinto (e sofro) a onda de violência que por aí campeia. A única certeza que nutria a respeito era a da falta de exclusividade pessoal nesse sofrimento. Outro dia, fazendo um artigo sobre o problema, rolei sapiência de almanaque citando Ferracuti, Adam Smith, são Paulo, Ésquilo, o diabo. Culpei a má distribuição da renda nacional, a escassez de proteínas, a insuficiência do mercado de trabalho, a explosão demográfica, a má qualidade de vida nas cidades, a falência do sistema presidiário, os êxodos rurais, não deixei pedra sobre pedra. Como sempre acontece quando ficamos razoavelmente satisfeitos com o nosso trabalho, eu estava mal informado. A culpa pela violência, em nível de governos ou de indivíduos, é a desastrosa conjugação de Marte sobre Escorpião. Taí: a verdade é mais simples que a fantasia.”
Lauro Augusto Bittencourt Borges, provinciano, mais do que mortal, ouviu as sirenes da polícia no perigoso Jardim Cecap ―que fica no exílio limeirense― e tentou:
Ouço por aí que, em São Roque da Fartura, na divisa entre SP e MG, o crème de la crème dos sábios, videntes, bruxos e outros picaretas se juntou para debater uma pauta sobrenatural. Ao final do encontro, a assessoria dos magos divulgou um release ―a Carta de São Roque― sobre o desenlace da discussão. Mãe Dinah, Mestre Duña, Robério de Ogum, entre outros, me socorreram com lanternas do saber na escuridão de questões tormentosas. Desde que o mundo é mundo, e faz tempo, este escriba se aflige com o minguado recheio dos pastéis de feira. Um mundão de massa pra um mísero naco de queijo ou um ordinário montinho de carne. Revoltante! Já tentei discorrer sobre o porquê do miserê. Deitei teorias econômicas, planilhei custos, estudei reengenharias financeiras e até li Thomas Malthus ―aquele que diz que “a população cresce em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos aumenta em progressão aritmética”. Argumentei aos borbotões pra limpar a barra dos nossos feirantes do pastel. Até a Carta de São Roque, este pseudo-pensador se achava o autor do “teorema do recheio escasso”. E mais uma vez eu estava errado. Minhas deduções eram a conjugação do nada com coisa nenhuma. Mestre Duña, sempre ele, matou a pau e decretou: “A porção deveras mínima de recheio nos pastéis de feira é explicada pela tradição da iguaria ser consumida nas madrugadas pós-balada. O baladeiro, via de regra, abusa do álcool. Este abuso etílico cominado com o consumo de algo muito gorduroso e condimentado certamente fará o abusado botar pelo ladrão toda a carga alojada no seu estômago.” Gênio, Duña, gênio!
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
19:59 — Arquivado em: 

Comentário por lenasansara — 30.11.06 @ 21:39
Genial. Já leu Quase Memória? Fiquei lembrando das peraltices do “pai”. http://oidealista.blog.terra.com.br
Comentário por Mestre Duña — 2.12.06 @ 8:27
Na verdade a “Carta de São Roque”, da qual fui signatário, versa ainda sobre outra celeuma de natureza universal, quer seja, a diversidade de formatos dos botões de madrepérola à epoca de Torquemada. Por estar na ordem do dia, recomendo ao escriba que se debruce sobre o assunto, uma vez que eu, Dinah e Robério, após acaloradas discussões, não chegamos a nenhuma conclusão definitiva.
Com apreço,
O Duña.
Comentário por Lauro — 2.12.06 @ 15:35
Lenasansara, li o Quase Memória e o considero um livraço. Li 2 vezes. O Cony, que é uma referência como cronista, diz que considera QM uma obra menor sua. “Qualquer um poderia escrever”, diz ele. Eu gostaria de ser este qulaquer um.
Comentário por lenasansara — 3.12.06 @ 7:49
Estou visitando alguns blogs que tenho como favoritos. Fazendo um olá! http://oidealista.blog.terra.com.br