26.11.06
O sonho não acabou. Dona Lindona ainda vive
Crepusculares espalhados pelo globo, sorriam! Explodam em êxtase! Ele está de volta. O Dona Lindona, um sanduba-ícone, renasceu no circuito botequeiro desta Sanja de belos crepúsculos.
Victor Almeida Neto, paulistano, é o bem-aventurado que montou o Baiuca —que funciona no mesmo local do extinto Salamalec— e botou o Dona Lindona no cardápio.
Victor conta: “Falei para um arquiteto muito meu amigo, o Damasceno Jr, que iria abrir um bar no mesmo local onde funcionava o Salamalec. Ele falou que só freqüentaria o meu bar se no cardápio estivesse o Dona Lindona.”
Este escriba, fundamentalista do sabor, confessa que foi ao Baiuca um tanto cético quanto ao resgate do Dona Lindona. Achava este tradicionalista do paladar que a execução do lanche não seria fiel à receita original. E graças ao Todo-Poderoso eu estava enganado.
O sanduba continua divino.
E pra quem não conhece o Dona Lindona, leia a história que segue abaixo da foto e corra pro Baiuca.
Utilidade pública: Baiuca, rua Senador Saraiva, 162, bem na esquina com a rua Riachuelo, fone: 19-3623.5827
Dona Lindona
Um boteco estrelado pra esta Sanja crepuscular. É o que eles queriam. Bons de copo, cheios de idéias e atrás duns trocos, Zerbetto Brothers, Gilberto Sibin e patota, puseram na cachola que a night destas bandas caipiras nunca mais seria a mesma. Estávamos no final dos anos 70 e o ‘Tekinfin’ ainda era um bar incipiente.
O local escolhido era um subsolo infecto lá no comecinho da rua São João. Por razões óbvias, a taberna foi batizada de ‘Porão’.
E o cardápio? Nada de convencional. Drinques, lanches e petiscos com pedigree do melhor da Paulicéia desvairada.
A criação deste menu consumiu dias de peregrinação pelos points que ferviam na noite paulistana. Cardápios foram surrupiados de cafés do Bexiga e de pubs dos Jardins. É improvável dizer que a pesquisa foi chata.
Após a maratona de cartas surrupiadas e acepipes devorados, o estado-maior do ‘Porão’ se reuniu num etílico benchmarking pra bater o martelo acerca do menu.
Martelo batido e entre as escolhas estava o sanduíche beirute. Prevenidos, os neo-empresários da noite mandaram vir toneladas da alma do beirute: o pão sírio dos “brimos” da 25 de Março e adjacências.
Dias antes da abertura da casa, descobriu-se que os pães haviam se deteriorado. Todo o “oriente médio” estava tomado por um asqueroso bolor. Daqueles bem verdes e aveludados.
A rede de contatos foi acionada pelo vozeirão do Celso Zerbetto. A emergência pedia o socorro ligeiro da sogra paulistana. Dona Lindona ouviu os clamores via DDD:
—Dona Lindona, sogrinha do coração, pelamordeDeus! desce na 25 e manda pra cá trocentas dúzias de pão sírio. Vamos abrir o boteco e o menu tem que estar completo.
Solícita com o genro, Dona Lindona atendeu às preces do vozeirão e no dia seguinte eram descarregadas nas imediações da Estação trocentas dúzias de… chacha (os “brimos” me perdoem se a grafia estiver errada), um pão árabe finíssimo, tipo folha, do tamanho de uma toalha de rosto. O pão era sírio, mas inapropriado para o beirute.
Celsão teve um insight gastronômico-genial: estendeu a “toalha” na mesa, cobriu com maionese, rosbife, tomate, alface e queijo e dobrou sucessivamente a folha síria recheada. O insólito embrulho ainda padeceu de outra invencionice zerbettiana: foi pincelado com densa camada de geléia de morango. As testemunhas da grande sacada explodiram em gozo ao provar o sanduba. Nascia ali o Dona Lindona, um ícone da gastronomia sanjoanense. Um tesão agridoce!
Anos depois, o ‘Porão’ já com as portas baixadas, a ferveção na Sanja-night era no ‘Salamalec’. A viuvada do Dona Lindona pediu ao proprietário da nova casa que introduzisse a iguaria no cardápio. Conseguiram. Celso Zerbetto passou o know-how do manjar à cozinha do ‘Salamalec’. A orfandade dos glutões agradeceu. Bem verdade que nesta época o Dona Lindona sofreu com hereges variações. Tiveram a ousadia de substituir a geléia por requeijão. Os fundamentalistas protestaram em vão contra a opção queijeira.
‘Porão’ e ‘Salamalec’, hoje, apenas vivem na memória desta Sanja, Celso Zerbetto só quer saber de pedras nobres e este escriba enche a boca d’água pra que algum bem-aventurado restaurateur resgate o Dona Lindona e o devolva ao circuito botequeiro desta província crepuscular.
(escrito em meados de 2004)
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
17:34 — Arquivado em: 

Comentário por Marcelo Pirajá Sguassábia — 26.11.06 @ 20:15
Grande escriba Crepusculauro! Estou aqui com água na boca pelo manjar mantiqueiro. Inclui-lo-ei no meu circuito quando estiver em Sanja. Valeu a dica e o saboroso texto.