8.11.06
Barba e George: um plúmbeo telefonema
Nestes tempos plúmbeos —sempre quis usar “plúmbeo” num texto e usei, mas concordo com quem acha que os tempos não andam tão plúmbeos assim— pós-reeleição, quando se desenha um atrito entre governo e imprensa, resgato uma crônica lavrada quando Inácio quis dar um pé-na-bunda do periodista do “The New York Times”. Aquele que escreveu que Inácio andava se perdendo nas doses de canjebrina. Um brinde ao resgate, ora pois.
O barbudo dormiu mal. Teve um sono plúmbeo, picotado por daninhos presságios. Ressabiado, despertou bradando à Galega com quem divide os lençóis que iria bater um fio ao colega poderoso do hemisfério norte. Precisava desabafar acerca de suas plúmbeas aflições.
Um insone cheio de zanga pode facilmente derrapar pra o terreno movediço das declarações estabanadas, tentou dissuadi-lo a esposa, que trajava um plúmbeo baby-doll.
Em vão. Decidido, o barbarrão ordenou ao puxa-saco de plantão que fizesse a ligação.
O cowboy, vestido num traje plúmbeo, recebeu o telefonema no Texas e travou um diálogo com o companheiro dos trópicos. Conversa esta que este blog reproduz com exclusividade:
—Hello!
—George, aqui é o Barba. Você tá bem, querido?
—Muito bem, Barba. Aqui no rancho, com meus boizinhos, eu me sinto muito melhor do que naquelas reuniões chatas, plúmbeas, no Salão Redondo.
—Não seria Oval, George?
—Sei lá… fala Barba, por que você tá gastando este interurbano?
—Tô puto, tô plúmbeo. Você leu as “defamações” que um jornalistazinho abusado escreveu no New York Times?
—Não leio jornal, Barba. Aliás, não leio porcaria nenhuma. O que ele falou?
—Também num leio, George. Os puxa-sacos lêem e depois me contam tudo. Pois então, o cabra-feio deu pra espalhar que eu tô exagerando nos birinaites, que uns goles da marvada tão prejudicando o meu governo. Pode uma coisa dessas, George?
—Oh my God! Aí ficou plúmbeo, hein Barba? O que você pretende fazer? Manda aplicar uma sova nele.
—Bem que eu queria descer o rebenque no lombo dele, mas acho que vai pegar mal. Tô pensando em cassar o seu visto e dar-lhe um belo pé-na-bunda.
—Boa, Barba. Manda ver. Ah, e aproveitando a ligação, vou ficar mais uns dois dias aqui no rancho. Pega o avião e vem passar umas horas aqui comigo. Ganhei uma caixa de Jack Daniels que é coisa de doido. O pessoal do Tennessee me mandou estas garrafas de uma safra especial. O bourbon tá descendo que é um veludo.
—Tô salivando, George. Já vou mandar esquentar o motor do AeroLula. Bye, bye!
—Até mais, Barba.
George põe o fone no gancho e berra pra esposa:
—Laura, manda buscar mais dois quilos de bisteca. Ah!, pede também pra turma do Tennessee despachar mais duas caixas de Jack. O Barba fila uma bóia aqui, amanhã. Você sabe que ele come e bebe pra diabo.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
19:55 — Arquivado em: 
