2.11.06
Alopragens palacianas
“Após o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva ter afirmado que pretende mudar seu relacionamento com a imprensa, três repórteres da revista "Veja" afirmaram terem sido intimidados, pressionados e constrangidos pelo delegado da PF paulista Moysés Eduardo Ferreira. Chamados a depor na condição de testemunhas, como autores de uma reportagem sobre supostas ilegalidades cometidas por policiais federais, tiveram de responder sobre o posicionamento político da revista e supostas filiações partidárias.”
A notícia chega às altas autoridades da República e dá-se o seguinte diálogo palaciano:
—Presidente, os fatos são graves, gravíssimos, vamos chamar os “nossos” e enquadrá-los. A liberdade de imprensa é pilar imprescindível do regime democrático. Concordo que a “Veja” pratica um jornalismo direitista, parcial, odioso até. Mas, penso eu, por mais que a linha editorial da revista seja espúria, e é, não se justifica o uso arbitrário do aparelho estatal para perpetrar intimidações e constrangimentos às vozes dissonantes. Alguém disse por aí, e eu concordo, que a imprensa não precisa ser justa, mas tem que ser livre.
—Escuta aqui, companheiro, você é “nosso” ou “deles”? Em primeiro lugar: eu não vou enquadrar ninguém dos “nossos”. Ou melhor, talvez enquadre você pra deixar de ser besta e parar de advogar para os fascistóides da imprensa marrom. Pilar imprescindível da democracia é voto. E voto eu tenho aos milhões. E tem mais: eu não lhe pago pra ficar divagando sobre liberdades republicanas. Você ganha, e ganha muito bem, pra dizer que nunca na história deste país houve um governo como o meu. Só isso. Atenha-se ao que eu lhe mando.
—Perdão, presidente, mas essas palavras suas soam como um manifesto traiçoeiro. O senhor está traindo o nosso passado de luta. Lá no início dos anos 80, idealistas e contestadores, sofremos como o cão com a mão pesada do Estado. Apanhávamos, tentavam nos calar, o diabo. E agora, no pedestal do poder, vamos agir tal qual nossos algozes verde-oliva de antanho? Não, eu não, eu me recuso.
—Ah é! Se recusa, é? Tá fora do meu governo, então. Sai cancro. Mais um aloprado que se vai. Ô limpezinha braba que eu tenho que fazer. Quanto mais a gente reza, mais assombração aparece. Vade retro!
PS1: Sincero apologista da imprensa livre, este escriba sabe que palácios são territórios férteis em assessorias lambe-botas. O lúcido assessor da crônica, portanto, está mais para o lúdico da ficção do que para o pântano da realidade.
PS2: Mestre Josias de Souza ensina no seu blog: “Só há dois modos de os petistas satisfazerem o seu sonho de conviver com uma imprensa a favor. Um deles é o governo Lula e o PT pararem de produzir malfeitorias e alopragens. O outro é os petistas se mudarem para a Cuba do companheiro-ditador Fidel Castro.”
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
21:41 — Arquivado em: 

Comentário por wilson silva — 3.11.06 @ 17:12
E o presidente ainda tem a cara-de-pau de dizer que a sua trajetória polÃtica é fruto da imprensa livre. Imagina se não fosse! Abçs e prbs!!!