16.10.06
Um dia de craque
Dezesseis horas e trinta minutos de um dia qualquer do fim dos anos 70. O lendário servente Sibin, enfiado na sua inconfundível farda marrom, chacoalha vigorosamente a sineta pra anunciar o fim de mais um dia de aula. “Bateu o sinal!!”, urram de alegria os primaristas do “Joaquim José”.
Uns vão disciplinadamente pra casa. Outros, nem tão disciplinados assim, aproveitarão os últimos raios de sol pra bater uma bolinha na quadra da escola.
Este escriba, ruim de texto e pior de bola, estava entre a trupe de infantes boleiros. Jogávamos até a noite cair.
Êpa! Paulinho Rampudo, o bárbaro, estava escolhendo os jogadores para a peleja. Antes que eu esboçasse uma meia-volta, fui intimado por um dedo indicador: “Você aí, é você mesmo, bobão, tá faltando um no meu time, deixa essa mochila no chão e vem logo jogar.” Me borrando de medo, obedeci. Que moleque em sã consciência descumpriria uma ordem do Paulinho Rampudo?
Abre parênteses. O Rampudo era brutal, troncudo, um “armário”. Ameaçador e violento, tinha a fama de massacrar quem o desafiasse. Suas vítimas, diziam, padeciam de surras sanguinárias. Consta que não estudava e se comprazia com o cartaz de perverso. Atribuíam-no este malévolo comportamento a um berço de privações e maus-tratos. Ouvia-se que suas travessuras domésticas eram punidas num cárcere de cordas ao pé da mesa da cozinha. Um dia, por motivo que me escapa, o Talih chamou o Paulinho pra briga. Temi que o Turco virasse quibe. Sorte dele, do Talih, claro, que a turma do “deixa disso” evitou a pancadaria. Anos depois, a crônica policial alcunhou o personagem de Paulinho Febem, numa óbvia alusão à instituição que o acolheu em diversas passagens. Fecha parênteses.
Voltando à quadra do JJ. Tomado pelo pavor, pensava comigo: “num posso fazer merda, tenho que jogar bem senão o Paulinho me trucida.”
O Todo-Poderoso se compadeceu da tremedeira deste cabeça-de-bagre. Nem o traje incômodo de um velho jeans “US Top”, duro e pesado, conteve o meu ímpeto em não decepcionar o Rampudo. Dei o sangue. Acertei passes longos —sem os óculos, diga-se—, desarmei ataques mortais do adversário e, acreditem, fiz até gol de calcanhar.
Ao final da partida fui recompensado com um amistoso “valeu” do Paulinho. Soou como uma absolvição.
Involuntariamente, naquela tarde, o “bad boy” fez uma boa ação. Por alguns minutos, surpreendentes e iluminados minutos, o medíocre brilhou.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
18:16 — Arquivado em: 
