31.8.06
O Varão crepuscular
O Varão crepuscular é um cidadão probo que tem circulado de nariz tapado ultimamente. O fedor que exala de Brasília o tem incomodado por demais.
Fanho em razão das narinas obstruídas, o Varão não se acanha com a voz distorcida e solta o verbo pra pregar suas convicções pelas esquinas desta Sanja.
Tarde destas, o Varão “chopeava” no Tekinfin. Entre goles, ele disse:
“Pelo amor das macaúbas!! A teoria política da merda está campeando pelo nosso Brasil varonil. O esquisitão do Paulo Betti disse primeiro que não dá pra fazer política sem revirar o excremento. Argh! Agora vem o chefão barbudo e solta essa: ‘Política a gente faz com o que a gente tem. Não com o que a gente quer. Maioria a gente constrói pelo que a gente tem ao nosso lado. Não pelo que a gente pensa que tem. Esse é o jogo real da política que precisou ser feito em quatro anos para que chegássemos a uma situação altamente confortável.’
É o ápice da desfaçatez. É puro descaramento de quem por muitos anos se arrogou como arauto exclusivo da ética. Agora, sem pudor nenhum, ele se aconselha com tipos como o Sarney e o Newton Cardoso, e mancha sua biografia com uma escura tintura cínica.”
O Varão pede ao Gê mais um chope, entope a boca com um naco de bauru e prossegue com a homilia:
“Em nome desse ‘jogo real da política’, Lula arrebanhou no Parlamento um conluio de partidos lambanceiros que culminou com a farra mensaleira. Num eventual e quase certo segundo mandato, o homem vai continuar sendo apoiado pelos pulhas mensaleiros. Vai ser apoiado, não vai recusar e deve retribuir com mimos tão vultosos quanto indecorosos. Pelas sagradas águas do Jaguari!! O bolo fecal deve continuar a espalhar seus indesejáveis odores por mais quatro anos.”
Antes de pedir a conta, o Varão arremata:
“E quer saber?! No malcheiroso jogo político, os mandatários do povo são norteados pela vil conveniência. Inimigos que uma hora parecem eternos, aparecem noutra trocando beijinhos e juras de amor. E assim segue o cortejo catingudo…”
Sempre achei o Varão um cara convicto em suas posições políticas, mas nunca o vi tão corrosivo e descrente como agora. E devo confessar que nunca fui um entusiasta do voto nulo, mas já não malho quem o é. A ojeriza colada ao ato de anular o voto não deixa de ser uma resposta do eleitor à bandalheira que malcheira por aí.
Caridoso, o escriba jura que vai presentear o Varão com um frasco de “Bom Ar”.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
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