28.8.06
Metáforas fecais
Josias de Souza, blogueiro mordaz e crítico implacável dos costumes políticos brasucas, teve um dedo de prosa virtual com este escriba crepuscular. Cutuquei-o sobre declarações de dois artistas após encontro deles com o presidente Lula.
A saber: “Política não existe sem mãos sujas. Não dá para fazer sem botar a mão na merda.” (Paulo Betti, ator)
“Não estou preocupado com a ética do PT ou com qualquer tipo de ética. Para mim, isso não interessa. Eu acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país, entendeu?” (Wagner Tiso, compositor)
Eu: Josias, querido, cá nos Crepúsculos algumas indagações não calam. Grandes artistas, eu disse grandes, têm salvaguarda para vomitar parvoíces?
Josias: Meu caro comedor de macaúba, a obra de grandes artistas e intelectuais costuma redimi-los de seus pecados. O “reacionarismo” de Nelson Rodrigues, por exemplo, foi soterrado pelo brilhantismo de sua produção jornalístico-literária. A alegada simpatia de Martin Heidegger pelo nazismo perdeu-se nos desvãos de sua eloqüente contribuição ao pensamento filosófico do Século 20. Basta um quadro de Pablo Picasso para apagar o mau-caratismo que permeia a sua biografia.
Eu: E o que o ácido colunista eletrônico tem a dizer sobre as metáforas fecais de Paulo Betti e Wagner Tiso quando inquiridos sobre as lambanças éticas do petismo?
Josias: A coisa fede, meu caro, a coisa fede. Escudados em uma suposta imunidade intelectual e artística, representantes da cultura brasileira aventuraram-se a promover uma releitura dos conceitos tradicionais da ética. Uma releitura tísica. Os raciocínios tísicos de Tiso e a frase bestial de Betti tentaram validar a tese, sempre em voga na política nacional, de que os políticos que roubam mas fazem também têm o direito de ser recobertos pelo manto diáfano da imunidade artística.
Eu: Então no caso destes dois artistas, você acha que suas obras podem redimi-los de seus “excrementos” verbais?
Josias: Recomendo aos porta-vozes do neo-amoralismo uma dose de cautela. O tempo, sempre tão generoso, talvez não apague gestos como de Wagner Tiso, dos dois o mais talentoso. Arrisca-se demais o maestro ao ceder a sua obra como trilha sonora de uma era que começou com a coletoria clandestina de Delúbio Soares e terminou na denúncia da “quadrilha” dos 40, patrocinada pelo Ministério Público. É “merda” que, por volumosa e malcheirosa, a tímida produção artística ou intelectual de seus defensores não consegue redimir.
criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges
20:09 — Arquivado em: 
