Baú Crepuscular - o blog do Lauro

Atualidades Mantiqueiras, Histórias Crepusculares, Hábitos Macaúbicos, Artigos, crônicas, devaneios e outras viagens. Só quero ver a Sanja passar…

25.7.06

No exílio

Abobrinhas e bombas

Exilado em Limeira City, o escriba usa o horário do almoço para garimpar boa comida. Novidades gastronômicas atenuam no bancário crepuscular a dor do desterro.
Dia destes achei uma jóia da culinária árabe: a Casa do Kibe Beduíno.
Comandada pelo libanês —e católico maronita, ele faz questão de dizer— Fernão Cecin Zogbi, a Casa reverencia o melhor da cozinha libanesa. Fernão, além de dono, é o chef. Tudo o que aprendeu sobre comida com as welidas (mamas) no Líbano, ele executa com maestria e faz o deleite dos freqüentadores do pequeno restaurante.
Tem o tradicional: kafta, wara enib (charuto), tabule, babaganuche, mehxi kuça (abobrinha recheada), kibe cru, etc. Já freqüentei algumas casas de comida dos “brimos” e, sem dúvida, posso afirmar que o restaurante limeirense está entre os melhores do gênero. O mehxi kuça é algo surpreendente. A melhor abobrinha da minha vida. E olha que cronista parvo entende de abobrinha. E a sobremesa? Affe Maria!! Ataief é um pastelzinho de massa leve, recheado com ricota doce e servido sob uma delicada calda de flor de laranjeira. Nem Lula nem Alckmin, ataief pra presidente.
E nem só o tradicional nasce na boa cozinha do Fernão. O cara é inventivo e criou dois sandubas de pão sírio que inundam de saliva a boca do mais besta dos viventes. São beirutes excêntricos: um é de mortadela que, além do embutido italiano, leva tomate, queijo, azeitona preta e alho. Tudo prensado no grill George Foreman. O outro leva alho poró, ovo, queijo, tomate e tempero árabe e também só é servido depois de prensado no grill George Foreman. Outra lavra criativa do Fernão é o labne fauek, uma batida tão refrescante quanto saborosa que mistura coalhada fresca com abacaxi e hortelã. E eu, formigão, gosto dela bem doce.

“Bombas” com sotaque
Virei um habitué da Casa do Kibe Beduíno e, nestes tempos bélicos no Oriente Médio, cutuquei Fernão pra saber suas opiniões sobre o confronto. Fumando muito e acompanhado da namorada limeirense Andréa —que ele conheceu pela internet—, o libanês despejou “bombas” com carregado sotaque em Israel e nos EUA:
Hizbollah— “O Brasil e a opinião pública ocidental acreditam no que diz a CNN, essa máquina de propaganda americano-judaica que domina a comunicação no mundo. O Hizbollah não é terrorista. O partido trava uma luta patriótica para retomar territórios invadidos por Israel. Antes dos ataques, o Hizbollah tinha o apoio de 30% do povo libanês. Hoje, a população vê a facção como uma força de defesa do país contra o inimigo estrangeiro e tem o apoio de 100% do Líbano.”
Terrorista— “O que é terrorista? Terrorista é quem invade território de outros povos. Terrorista é quem mata civis, crianças. Terrorista é quem destrói países inteiros. Terrorista é quem lança a bomba atômica. Terrorista é Israel com o apoio dos EUA. Nós não somos terroristas, mas não temos a CNN pra nos defender perante o mundo.”
Bomba inteligente— “Israel joga bombas inteligentes no Líbano. Que bombas inteligentes são essas que matam civis e destroem alvos não militares? Bombas burras é o que elas são.”
Israel— “Os judeus não dão leite para suas crianças, eles dão sangue. Na escola, a matemática é ensinada com exemplos de guerra. Exemplo: Cinco soldados israelenses estão lutando contra vinte árabes. Cada soldado mata dois árabes. Quantos árabes sobraram?”
ONU— “A força de paz da ONU tem paz só no nome. Ela está a serviço dos nossos inimigos e abre caminho para os ataques israelenses contra o Líbano. A ONU é um ‘armazém’ ianque que tem Kofi Annan como gerente.”
Bush— “Quem autorizou George Bush a ‘educar’ o mundo? Ele dá entrevista na CNN acarinhando o seu cachorro. Milhares de árabes morrendo e ele acarinhando o seu cachorro, zombando da humanidade. A Casa Branca deveria se chamar Casa Vermelha, pois está suja do sangue de muitos povos do mundo.”
Mundo calado— “Eu vejo no ‘Animal Planet’ um leão matando um filhote de servo. Aquilo me incomoda muito, fico com pena do bicho indefeso. Até quando o mundo vai se calar diante de tanta morte de civis indefesos?”

Ps1: Polêmico é o conflito no Oriente Médio e polêmicas são as opiniões de Fernão. Este escriba reza o catecismo da pluralidade e está aberto a ouvir e publicar vozes discordantes.
Ps2: Glutão e vezeiro em grafar amenidades, o cronista tem predileção pela parte gastronômica do texto e, generoso, compartilha com os crepusculares o endereço do melhor da culinária árabe: Rua Carlos Gomes, bem no centro de Limeira City.
Ps3: Tudo que vem dos americanos Fernão odeia? Não. Percebi que ele adora o grill George Foreman.

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    22:05 — Arquivado em: Sem categoria

20.7.06

Amém, Sanja, amém!

Macaúba alucinógena

Marcos Rehder, colega em colaborações para O MUNICIPIO, perde um naco do seu tempo e deixa um recado no blog deste tosco escriba.
Em tom de despedida, Marcos diz que sai das convenções mundanas pra fundar uma seita de doutrinas crepusculares: a Seita da Macaúba Alucinógena.
A sacada do Marcos seria genial se a tal seita ainda não existisse. Ela não só existe, como já foi objeto de estudos do emérito catedrático uspiano em Sanjologia, o professor-doutor Joaquim José Jaguari.
Num dos seus esboços sobre os hábitos do homo crepuscularys —que diga-se, este cronista teve exclusivo acesso—, o sábio pesquisador relata:
“O Santo Daime é uma doutrina difundida na Amazônia brasileira que, entre outras tradições, embala os cultos servindo aos seus seguidores um chá alucinógeno denominado ahyauasca. Pois bem, esta seita da floresta tem uma versão crepuscular: é a Congregação da Macaúba Alucinógena. A seita foi fundada por um destacado médico da província de Sanja. O seguidor da doutrina é chamado de “macaubês” e a reunião semanal do grupo se dá de maneira quase secreta numa elegante chácara nos arredores do Bairro Alegre. Políticos, dondocas e medalhões do PIB fazem parte do eclético grupo de macaubeses. A macaúbasca, fartamente servida nas reuniões, é um mingau gosmento de propriedades saudosistas. O indivíduo que ingere o líquido pastoso é tomado por um descomunal saudosismo. A capelinha do local é ornada com fotos de ícones da cultura crepuscular. Bem na entrada há um retrato —macaubês adora falar retrato— gigante da fachada do finado Cine Avenida. Entre si, os membros só se tratam por codinomes. Na hierarquia da organização o líder é o “tutor-mantiqueiro”, que atende por Maríngolo David. O tutor é assessorado nas cerimônias por quatro “adjuntas-belocas” que, na mesma linha lendas do passado, atendem por Guiomar, Pagu, Orides e Maximina. Mensalmente há um culto temático em que se reconstitui o ambiente de algum local da Sanja de antanho. Semana passada aconteceu a “Noite de Louvor Canecão Remember”. Reproduziram à perfeição o extinto bar. Até barata cenográfica tinha. O bar morreu, mas o Jorge ainda tá por aí e, na tal noite, como convidado de honra e homenageado, empanturrou os macaubeses com o seu delicioso e antológico bauru.”
Utilidade pública: a seita avalia pedidos de adesão de interessados que preencherem a proposta no site
http://macaubaalucinogena.blog.terra.com.br/

criado por Lauro Augusto Bittencourt Borges    23:15 — Arquivado em: Sem categoria

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